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— Você deve saber mais disso do que eu.

— Ah, claro. Aquele bordel onde nos conhecemos, o confundi com um septo? Era a sua irmã virgem que se contorcia ao seu colo?

Aquilo o fez franzir as sobrancelhas.

Dá descanso a essa sua língua, a menos que prefira que eu lhe dê um nó.

Tyrion engoliu a réplica. Ainda tinha o lábio inchado da última vez que foi longe demais com o grande cavaleiro. Mãos duras e nenhum sentido de humor dão um mau casamento. Pelo menos isso aprendera na viagem desde Selhorys. Os seus pensamentos dirigiram-se à bota, aos cogumelos que tinha no dedo. O seu captor não o revistara tão meticulosamente como poderia ter revistado. Há sempre essa fuga. Pelo menos Cersei não me obterá vivo.

Mais para sul, sinais de prosperidade começaram a reaparecer. Edifícios abandonados foram vistos com menos frequência, as crianças nuas desapareceram, os espadachins nas entradas pareceram estar vestidos de forma mais suntuosa. Algumas das tabernas por que passaram chegaram mesmo a parecer lugares onde um homem poderia dormir sem medo de que lhe cortassem a goela. Lanternas balançavam de espeques de ferro ao longo da estrada do rio, oscilando quando o vento soprava. As ruas tornaram-se mais largas, os edifícios mais imponentes. Alguns estavam coroados por grandes cúpulas de vidro colorido. No ocaso que se aprofundava, com fogueiras acesas por baixo, as cúpulas brilhavam azuis, vermelhas, verdes e purpúreas.

Mesmo assim, havia qualquer coisa no ar que deixava Tyrion inquieto. A oeste do Roine, bem o sabia, os molhes de Volantis estavam repletos de marinheiros, escravos e mercadores, e todas as tabernas, estalagens e bordéis os serviam. A leste do rio, forasteiros vindos do ultramar eram vistos com menos frequência. Não nos querem aqui, compreendeu o anão.

Da primeira vez que passaram por um elefante, Tyrion não conseguiu evitar ficar olhando. Tinha havido um elefante na coleção de animais de La- nisporto quando ele era rapaz, mas morrera quando ele tinha sete anos... e aquele grande monstro cinzento parecia ter o dobro do seu tamanho.

Mais à frente, puseram-se atrás de um elefante menor, branco como osso antigo, que puxava uma carroça ornamentada.

— Será um carro de bois o carro de bois que não tenha bois? — perguntou Tyrion ao seu captor. Quando aquela saída ficou sem resposta, voltou a cair no silêncio, contemplando a ondulante garupa do alvo elefante anão na frente deles.

Volantis transbordava de elefantes anões brancos. Quando se aproximaram da Muralha Negra e dos bairros repletos de gente das imediações da Ponte Longa, viram uma dúzia deles. Grandes elefantes cinzentos também não eram incomuns; enormes animais com castelos às costas. E, à meia-luz do princípio da noite, as carroças da bosta tinham saído para a rua, servidas por escravos seminus cujo ofício era encher as carroças com pazadas de montinhos fumegantes deixados pelos elefantes, tanto grandes como pequenos. Enxames de moscas seguiam as carroças, e por consequencia os escravos da bosta tinham moscas tatuadas nas bochechas, para identificá-los como aquilo que eram. Ora aqui está um ofício bom para a minha querida irmã, matutou Tyrion. Ela ia parecer tão linda com uma pazinha na mão e moscas tatuadas naquelas adoráveis bochechinhas cor-de-rosa.

Por essa altura tinham abrandado até quase parar. A estrada do rio estava repleta de tráfego, quase todo ele fluindo para sul. O cavaleiro seguiu com o tráfego, um tronco flutuante apanhado pela corrente. Tyrion olhou a multidão por que passava. Nove homens em cada dez tinham marcas de escravos nas bochechas.

— Tantos escravos... para onde se dirigem todos?

— Os sacerdotes vermelhos acendem as fogueiras noturnas ao pôr-do-sol. O Alto Sacerdote deve estar falando. Eu o evitaria se pudesse, mas para chegarmos à Ponte Longa temos de passar pelo templo vermelho.

Três quarteirões mais à frente, a rua, à frente deles, abriu-se numa enorme praça iluminada por archotes, e ali estava o templo. Que os Sete me salvem, aquilo tem de ser três vezes maior do que o Grande Septo de Baelor. Uma enormidade de colunas, degraus, botaréus, pontes, cúpulas e torres, elementos arquitetônicos que fluíam uns para os outros como se tivessem sido esculpidos de um colossal rochedo, o Templo do Senhor da Luz erguia-se como a Colina de Aegon. Uma centena de tons de vermelho, amarelo, dourado e laranja encontrava-se e fundia-se nas paredes do templo, dissolvendo-se uns nos outros como nuvens ao pôr do sol. As suas torres esguias contorciam-se para cima, chamas congeladas dançando enquanto tentavam alcançar o céu. Fogo transformado em pedra. Enormes fogueiras noturnas ardiam junto das escadas do templo, e entre elas o Alto Sacerdote começara a falar.

Benerro. O sacerdote estava em cima de uma coluna de pedra vermelha, ligada por uma estreita ponte de pedra a um majestoso terraço onde se encontravam os sacerdotes de categoria menos elevada e os acólitos. Os acólitos estavam vestidos com vestes amarelas claras e de um laranja vivo, os sacerdotes e as sacerdotisas de vermelho.

A grande praça na frente deles estava cheia com uma multidão quase sólida. Eram mais que muitos os adoradores que usavam um farrapo de tecido vermelho pregado às mangas ou atado em volta da cabeça. Todos os olhos estavam postos no alto sacerdote menos os deles.

— Deixe passar — rosnou o cavaleiro enquanto o seu cavalo abria caminho por entre a multidão. — Abram caminho. — Os volantenos davam passagem com relutância, com resmungos e olhares zangados.

A voz sonora de Benerro projetava-se bem. Alto e magro, tinha uma cara crispada e a pele era branca como leite. Chamas tinham-lhe sido tatuadas nas bochechas, no queixo e na cabeça rapada para criar uma máscara vermelha viva que crepitava em volta dos seus olhos e se lhe enrolava em redor da boca desprovida de lábios.

— Aquilo é uma tatuagem de escravo? — perguntou Tyrion.

O cavaleiro confirmou com a cabeça.

— O Templo Vermelho compra-os em crianças e faz deles sacerdotes, prostitutas do templo ou guerreiros. Olha ali. — Apontou para os degraus, onde uma fileira de homens envergando armaduras ornamentadas e mantos cor de laranja se mantinham em frente das portas do templo, agarrando lanças com pontas que eram como chamas que se contorciam. — A Mão Fogosa. Os soldados sagrados do Senhor da Luz, defensores do templo.

Cavaleiros de fogo.

— E quantos dedos tem esta mão, diga-me?

— Mil. Nunca mais, nunca menos. Uma nova chama é acendida por cada uma que se apaga.

Benerro brandiu um dedo à Lua, fez um punho, abriu muito as mãos. Quando a sua voz se ergueu num crescente, chamas saltaram dos seus dedos com um súbito uoosh que fez a multidão prender a respiração. O sacerdote também era capaz de desenhar letras de fogo no céu. Glifos valirianos. Tyrion reconheceu talvez dois em dez. Um era Perdição, o outro Escuridão.

Gritos irromperam da multidão. Mulheres choravam e homens sacudiam os punhos. Tenho um mau pressentimento sobre isto. O anão recordou-se do dia em que Myrcella zarpara para Dorne, e do tumulto que arrebentara em fervor quando se dirigiam para a Fortaleza Vermelha.

Tyrion recordou-se de que Haldon Semimeistre falara em usar o sacerdote vermelho para benefício do Jovem Griff. Agora que vira e ouvira pessoalmente o homem, essa pareceu-lhe ser uma ideia muito má. Esperava que Griff tivesse mais sensatez. Há alguns aliados que são mais perigosos do que inimigos. Mas Lorde Connington terá de entender isso sozinho. Eu é provável que me transforme numa cabeça num espigão.