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O sacerdote apontava para a Muralha Negra por trás do templo, gesticulando para as suas ameias, onde uma mancheia de guardas couraçados estava olhando para baixo.

— O que está ele a dizer? — perguntou Tyrion ao cavaleiro.

— Que Daenerys está em perigo. O olho escuro caiu sobre ela e os lacaios da noite estão planejando a sua destruição, rezando aos seus falsos deuses em templos de enganos... conspirando traições com estrangeiros sem deus...

Os pelos da nuca de Tyrion começaram a pôr-se em pé. O Príncipe Aegon não encontrará aqui nenhum amigo. O sacerdote vermelho falava de uma antiga profecia, de uma profecia que previa a chegada de um herói para arrancar o mundo às trevas. Um herói, não dois. Daenerys tem dragõesy Aegon não os tem. O anão não precisava de ser profeta para prever como Benerro e os seus seguidores poderiam reagir a um segundo Targaryen. Griff também compreenderá isso, certamente, pensou, surpreendido por descobrir como aquilo lhe importava.

O cavaleiro conseguira abrir caminho através da maior parte da multidão ao fundo da praça, ignorando as pragas que lhes eram atiradas enquanto passavam. Um homem pôs-se na frente deles, mas o captor de Tyrion agarrou o cabo da espada e puxou-a só o suficiente para mostrar trinta centímetros de aço nu. O homem desvaneceu-se e, de repente, abriu-se uma viela na frente deles. O cavaleiro pôs a montaria a trote e deixaram a multidão para trás. Durante algum tempo Tyrion continuou a ouvir a voz de Benerro a tornar-se mais fraca nas suas costas, e os rugidos que as palavras provocavam, súbitos como trovões.

Chegaram a um estábulo. O cavaleiro desmontou e depois baseu com força a uma porta até que um escravo fatigado com uma cabeça de cavalo na bochecha apareceu correndo. O anão foi tirado rudemente da sela e atado a um poste enquanto o seu captor acordava o dono do estábulo e regateava com ele um preço para o cavalo e a sela. É mais barato vender um cavalo do que embarcá-lo mundo fora. Tyrion detectou a presença de um navio no seu futuro imediato. Afinal talvez fosse mesmo um profeta.

Quando o regateio terminou, o cavaleiro pôs ao ombro as armas, o escudo e o alforge e pediu para lhe indicarem onde ficava o ferreiro mais próximo. Este também estava fechado, mas abriu-se com bastante rapidez com o grito do cavaleiro. O ferreiro deitou uma olhadela enviesada a Tyrion, após o que anuiu e aceitou um punhado de moedas.

— Vem cá — disse o cavaleiro ao prisioneiro. Puxou pelo punhal e cortou-lhe as amarras.

— Muito agradecido — disse Tyrion enquanto esfregava os pulsos, mas o cavaleiro limitou-se a rir e disse:

— Guarda a gratidão para alguém que a mereça, Duende. Não vai gostar do próximo bocado.

Não se enganava.

As grilhetas eram de ferro negro, grossas e pesadas, pesando cada uma um bom quilo, se o anão sabia algo sobre avaliar pesos. As correntes acrescentavam ainda mais peso.

— Devo ser mais temível do que julgava — confessou Tyrion enquanto os últimos elos eram fechados à martelada. Cada golpe transmitia-lhe um choque pelo braço acima, quase até ao ombro. — Ou está com medo que eu largue numa correria em cima destas minhas perninhas atrofiadas?

O ferreiro nem sequer ergueu os olhos do seu trabalho, mas o cavaleiro soltou uma risada sombria.

— É a tua boca que me preocupa, não as tuas pernas. A ferros, é um escravo. Ninguém dará ouvidos a uma palavra que digas, nem mesmo aqueles que falam a língua de Westeros.

— Não há necessidade disto — protestou Tyrion. — Eu serei um bom prisioneirozinho, serei, serei.

— Então prove e fecha a boca.

De modo que ele baixou a cabeça e mordeu a língua enquanto as correntes eram fixadas; pulso com pulso, pulso com tornozelo, tornozelo com tornozelo. Estas malditas coisas pesam mais do que eu. Em todo o caso, pelo menos continuava a respirar. O seu captor podia ter-lhe cortado a cabeça com igual facilidade. Afinal de contas, a cabeça era tudo o que Cersei exigia. Não a cortar imediatamente fora o primeiro erro do seu captor. Há meio mundo entre Volantis e Porto Real e podem acontecer muitíssimas coisas no caminho, sor.

Percorreram a pé o resto do caminho, com Tyrion a ressoar e a retinir enquanto lutava por acompanhar os longos e impacientes passos do seu captor. Sempre que ameaçava ficar para trás, o cavaleiro agarrava-lhe nas correntes e puxava-as com rudeza, pondo o anão aos tropeções e aos saltos a seu lado. Podia ser pior. Ele podia estar me incentivando a avançar com um chicote.

Volantis cobria a foz do Roine, onde o rio beijava o mar, com as suas duas metades unidas pela Ponte Longa. A parte mais antiga e mais rica da cidade ficava a leste do rio, mas mercenários, bárbaros e outros rudes estrangeiros não eram lá bem-vindos, portanto tinham de atravessar para oeste.

A entrada da Ponte Longa era um arco de pedra preta esculpido com esfinges, mantícoras, dragões e criaturas ainda mais estranhas. Atrás do arco estendia-se a grande ponte que os valirianos tinham construído no auge da sua glória, cuja estrada de pedra fundida era suportada por enormes pilares. A estrada tinha apenas largura suficiente para duas carroças lado a lado, e sempre que uma carroça que se dirigia para oeste passava por outra que vinha para leste, ambas tinham de abrandar até quase pararem.

Ainda bem que estavam a pé. A um terço do caminho, uma carroça carregada de melões ficara com as rodas presas noutra carregada com uma grande pilha de tapetes de seda, e tinham imobilizado todo o tráfego de carroças. Muito do tráfego apeado tinha também parado, para ver os condutores gritar e amaldiçoarem-se um ao outro, mas o cavaleiro agarrou na corrente de Tyrion e abriu caminho à força através da multidão. No meio do aglomerado, um rapaz tentou chegar-lhe à bolsa, mas um cotovelo duro pôs fim à tentativa, e espalhou o nariz ensanguentado do ladrão por metade da sua cara.

Edifícios erguiam-se de ambos os lados; lojas e templos, tabernas e estalagens, casas de cyvasse e bordéis. A maioria tinha três ou quatro andares de altura, com cada andar mais largo do que o inferior. Os andares superiores quase se beijavam. Atravessar a ponte era como passar por um túnel iluminado por archotes. Ao longo da estrutura havia lojas e barracas de todos os tipos; tecelões e fabricantes de rendas exibiam os seus artigos ao lado de sopradores de vidro, fabricantes de velas e peixeiros que vendiam enguias e ostras. Cada ourives tinha um guarda à porta, e cada vendedor de especiarias tinha dois, pois os seus bens tinham o dobro do valor. Aqui e ali, por entre as lojas, um viajante podia ter um vislumbre do rio que estava a atravessar. Ao norte, o Roine era uma larga fita negra brilhante de estrelas, com cinco vezes a largura da Torrente da Água Negra, em Porto Real. Ao sul da ponte, o rio abria-se para abraçar o mal salgado.

No vão central da ponte, as mãos cortadas de ladrões e carteiristas pendiam como réstias de cebolas de postes de ferro ao longo da estrada. Três cabeças também estavam em exibição; dois homens e uma mulher, cujos crimes estavam escrevinhados em tabuletas penduradas por baixo. Um par de lanceiros fazia-lhes companhia, envergando elmos polidos e lorigões de cota de malha prateada. Nas bochechas tinham riscas de tigre tão verdes como jade. De tempos a tempos, os guardas brandiam as lanças para espantar os francelhos, gaivotas e gralhas pretas que cortejavam os falecidos. As aves regressavam às cabeças momentos depois.

— O que fizeram eles? — inquiriu Tyrion com inocência.

O cavaleiro deitou uma olhadela às inscrições.