— Há cerveja para empurrar isto para baixo?
Mormont entregou-lhe uma caneca.
— A maior parte de Volantis está se embebedando, porque não você?
A cerveja também era uma doçura. Sabia a fruta. Tyrion bebeu um saudável trago e soltou um arroto feliz. Esvazio-a e atiro-a à cabeça, pensou. Se tiver sorte talvez lhe rache o crânio. Se tiver muita sorte, falho a pontaria e ele espanca-me até à morte com os punhos. Bebeu outro gole.
— Hoje é algum dia santo?
— É o terceiro dia das eleições deles. Duram dez. Dez dias de loucura. Marchas à luz dos archotes, discursos, saltimbancos, menestréis e dançarinos, espadachins travando duelos até à morte pela honra dos seus candidatos, elefantes com os nomes de aspirantes a triarcas pintados nos flancos. Aqueles malabaristas estão a atuar por Methyso.
— Faça-me lembrar para votar noutro qualquer. — Tyrion lambeu gordura dos dedos. Lá em baixo, a multidão atirava moedas aos malabaristas. — Todos estes aspirantes a triarcas oferecem espetáculos de saltimbancos?
— Fazem o que quer que julguem trazer-lhes votos — disse Mormont. — Comida, bebida, espetáculo... Alios mandou uma centena de escravas bonitas para as ruas para se deitarem com votantes.
— Estou por ele — decidiu Tyrion. — Traga-me uma escrava.
— As escravas são para volantenos livres com propriedades suficientes para votar. Há pouquíssimos votantes a oeste do rio.
— E prolonga-se por dez dias? — Tyrion riu-se. — Eu talvez gostasse disso, se bem que três reis sejam dois a mais. Estou tentando imaginar como seria governar os Sete Reinos com a minha querida irmã e o meu valente irmão a meu lado. Um de nós mataria os outros dois em menos de um ano. Surpreende-me que estes triarcas não façam o mesmo.
— Alguns tentaram. Talvez sejam eles os espertos e nós os parvos. Volantis conheceu o seu quinhão de loucuras, mas nunca teve de aguentar um rapaz triarca. Sempre que um louco é eleito, os colegas contêm-no até que o seu ano chega ao fim. Pensa nos mortos que ainda podiam estar vivos se ao menos o Louco Aerys tivesse dois colegas reis para partilhar o governo.
Em vez disso, tinha o meu pai, pensou Tyrion.
— Nas Cidades Livres há quem pense que somos todos selvagens do nosso lado do mar estreito — prosseguiu o cavaleiro. — Aqueles que não pensam que somos crianças, chorando pela mão forte de um pai.
— Ou de uma mãe? — Cersei adorará isso. Especialmente quando ele a presentear com a minha cabeça. — Parece conhecer bem esta cidade.
— Passei aqui a maior parte de um ano. — O cavaleiro sacudiu as borras no fundo da caneca. — Quando Ned Stark me levou ao exílio, fugi para Lys com a minha segunda esposa. Braavos teria sido mais conveniente para mim, mas Lynesse queria um lugar quente. Em vez de servir os bravosianos, combati-os no Roine, mas por cada moeda de prata que ganhava a minha esposa gastava dez. Quando regressei a Lys, tinha arranjado um amante, que me disse alegremente que seria escravizado por dívidas, a menos que abrisse mão dela e abandonasse a cidade. Foi assim que vim para Volantis... um passo à frente da escravidão, sem possuir nada além da minha espada e da roupa que tinha no corpo.
— E agora quer fugir para casa.
O cavaleiro emborcou o resto da cerveja.
— Amanhã arranjarei um navio para nós. A cama é minha. Pode ficar com qualquer bocado de chão a que as correntes te deixem chegar. Dorme se puder. Se não, conta os seus crimes. Isso deve dar-te até de manhã.
Você tem os seus crimes pelos quais responder; Jorah Mormont, pensou o anão, mas parecia mais sensato guardar esse pensamento para si.
Sor Jorah pendurou o cinturão da espada numa coluna da cama, fez voar as botas, puxou a cota de malha pela cabeça e saiu de dentro da lã, do couro e da túnica interior manchada de suor para revelar um torso musculoso e cheio de cicatrizes coberto de pelos escuros. Se conseguisse esfolá-lo podia vender aquela pelagem fazendo-a passar por um casaco de peles, pensou Tyrion enquanto Mormont se deixava cair no conforto ligeiramente malcheiroso do seu colchão descaído.
Não demorou tempo algum até o cavaleiro estar ressonando, deixando o prisioneiro sozinho com as suas correntes. Com ambas as janelas escancaradas, a luz da Lua minguante derramava-se pelo quarto. Sons subiam da praça lá em baixo; trechos de canções ébrias, os miados de uma gata no cio, o ressoar distante de aço em aço. Alguém está prestes a morrer, pensou Tyrion.
O pulso latejava onde ele rasgara a pele, e as grilhetas tornavam impossível sentar-se, quanto mais deitar-se. O melhor que conseguiu fazer foi torcer-se para o lado para se encostar à parede, e não demorou muito tempo a perder toda a sensibilidade nas mãos. Quando se mexeu para aliviar a tensão, a sensibilidade regressou num jorro de dor. Teve de ranger os dentes para não gritar. Perguntou a si próprio quanto doera ao pai quando o dardo lhe mergulhara nas virilhas, o que Shae sentira quando torcera a corrente em volta da sua garganta mentirosa, o que Tysha sentira enquanto a violavam. O seu sofrimento nada era comparado com os deles, mas isso não fazia com que doesse menos. Só quero que pare.
Sor Jorah rolara para um lado, de modo que tudo o que Tyrion conseguia ver dele eram umas costas largas, peludas e musculosas. Mesmo se conseguisse escapar-me a estas correntes, precisava de amarinhar por cima dele para chegar ao cinturão da espada. Talvez se conseguisse libertar o punhal... Ou então podia tentar chegar à chave, destrancar a porta, esgueirar-se pela escada abaixo e através da sala comum... e ir para onde? Não tenho amigos, não tenho dinheiro, nem sequer falo a língua local.
A exaustão finalmente derrotou as dores e Tyrion deixou-se cair num sono irregular. Mas de todas as vezes que mais uma cãibra se enraizava na barriga de uma perna e a torcia, o anão gritava no sono, tremendo nas correntes. Acordou com dores em todos os músculos, e foi encontrar a manhã a jorrar pelas janelas, brilhante e dourada como o leão de Lannister. Vindos lá de baixo, conseguia ouvir os gritos de peixeiros e o trovejar de rodas orladas de ferro no empedrado.
Jorah Mormont estava em pé por cima dele.
— Se te tirar da argola, fazes o que te disser?
— Isso irá incluir dança? Posso achar difícil dançar. Não consigo sentir as pernas. Pode ser que tenham caído. Fora isso, sou sua criatura. Pela minha honra de Lannister.
— Os Lannister não têm honra. — Sor Jorah soltou-lhe as correntes. Tyrion deu dois passos vacilantes e caiu. O sangue que lhe regressava às mãos levou-lhe lágrimas aos olhos. Mordeu o lábio e disse:
— Seja qual for o local para onde vamos, terá de me rolar até lá.
Mas em vez disso, o grande cavaleiro carregou-o, içando-o pelas correntes que lhe prendiam os pulsos.
A sala comum da Casa dos Mercadores era um labirinto mal iluminado de nichos e recantos construído em volta de um pátio central onde uma latada de trepadeiras em flor gerava padrões intrincados no chão de lajes e musgos verdes e purpúreos cresciam entre as pedras. Moças escravas corriam entre a luz e a sombra, transportando jarros de cerveja e vinho e uma bebida verde gelada que cheirava a menta. Uma mesa em vinte estava ocupada àquela hora da manhã.
Uma dessas mesas estava ocupada por um anão. Escanhoado e de bochechas cor-de-rosa, com uma cabeleira castanha clara, uma testa pesada e um nariz metido para dentro, empoleirava-se num banco elevado com uma colher de madeira na mão, contemplando uma tigela de papas de aveia arroxeadas com olhos debruados de vermelho. Bastardinho feio, pensou Tyrion.