O outro anão sentiu o seu olhar. Quando ergueu a cabeça e viu Tyrion, a colher escorregou-lhe da mão.
— Ele viu-me — disse Tyrion a Mormont, num aviso.
— E depois?
— Ele conhece-me. Sabe quem sou.
— Quer que te enfie num saco para que ninguém te veja? — o cavaleiro tocou o cabo da espada. — Se pretende tentar capturar-te, que tente à vontade.
Que morra à vontade, quer dizer, pensou Tyrion. Que ameaça pode ele constituir para um grandalhão como você? É só um anão.
Sor Jorah ocupou uma mesa num canto sossegado e pediu comida e bebida. Quebraram o jejum com pão folha mole e quente, ovas cor-de-rosa, salsichas com mel e gafanhotos fritos, empurrados para baixo com uma cerveja preta agridoce. Tyrion comeu como um homem meio morto de fome.
—Tem um saudável apetite hoje de manhã — observou o cavaleiro.
— Ouvi dizer que a comida no inferno é uma desgraça. — Tyrion deitou um olhar à porta, por onde um homem acabara de entrar. Alto e corcovado, a sua barba pontiaguda estava pintada de um púrpura sujo. Um mercador tyroshi qualquer. Uma rajada de som chegou com ele do exterior; os gritos de gaivotas, um riso de mulher, as vozes dos peixeiros. Durante meio segundo, Tyrion pensou ter vislumbrado Illyrio Mopatis, mas era só um dos elefantes anões brancos passando pela porta da frente.
Mormont espalhou um pouco de ovas de peixe numa fatia de pão folha e deu-lhe uma dentada.
— Estás à espera de alguém?
Tyrion encolheu os ombros.
— Nunca se sabe quem o vento pode trazer. O meu verdadeiro amor, o fantasma do meu pai, um pato. — Enfiou um gafanhoto na boca e esmagou-o. — Não é mau. Para bicho.
— Na noite passada só se conversava aqui sobre Westeros. Um senhor exilado qualquer contratou a Companhia Dourada para lhe reconquistar as terras. Metade dos capitães de Volantis estão correndo rio acima para Volon Therys para lhe oferecer os navios.
Tyrion acabara de engolir outro gafanhoto. Quase se engasgou com ele. Estará a troçar de mim? Quanto poderá ele saber sobre Griffe Aegon?
— Merda — disse. — Queria contratar a Companhia Dourada para me conquistar o Rochedo Casterly. — Poderá isto ser algum estratagema de Griff, notícias falsas espalhadas deliberadamente? A menos que... Poderia o principelho bonito ter engolido a isca? Poderia tê-los virado para oeste e não para leste, abandonando a esperança de casar com a Rainha Daenerys? Abandonando os dragões... permitiria Griff tal coisa? — De bom grado lhe contrataria também, sor. O domínio do meu pai é legitimamente meu. Ajuramente-me a sua espada, e quando o reconquistar o afogarei em ouro.
— Eu uma vez vi um homem afogado em ouro. Não foi uma cena bonita. Se alguma vez tiver a minha espada será espetada nas tripas.
— Uma cura segura para a prisão de ventre — disse Tyrion. — Pergunte ao meu pai. — Estendeu a mão para a caneca e bebeu lentamente, para ajudar a ocultar o que quer que pudesse estar deixando transparecer na cara. Tinha de ser um estratagema, destinado a acalmar as suspeitas volantenas. Pôr os homens a bordo com este falso pretexto e capturar os navios quando a frota estiver no mar. Será esse o plano de Griff? Poderia resultar. A Companhia Dourada tinha dez mil homens, experientes e disciplinados. Mas nenhum deles é marinheiro. Griff terá de manter uma espada em cada garganta, e se chegarem à Baía dos Escravos e tiverem de lutar...
A criada regressou.
— A viúva recebe-o em seguida, nobre sor. Trouxe-lhe um presente?
— Sim. Obrigado. — Sor Jorah enfiou uma moeda na palma da mão da mulher e mandou-a embora.
Tyrion franziu o sobrolho.
— Quem é esta viúva?
— A viúva da borda d’agua. A leste do Roine ainda lhe chamam a rameira de Vogarro, embora nunca o façam na frente dela.
O anão não se sentiu esclarecido.
— E Vogarro era...?
— Um elefante, sete vezes triarca, muito rico, um poder nas docas. Enquanto outros homens construíam os navios e os manobravam, ele construiu cais e armazéns, intermediou cargas, trocou dinheiro, segurou armadores contra os perigos do mar. Também negociava com escravos. Quando se perdeu de amores por uma delas, uma escrava de cama treinada em Yunkai no caminho dos sete suspiros, foi um grande escândalo... e um escândalo maior quando a libertou e a tomou como esposa. Depois de ele morrer, ela continuou os seus negócios. Nenhum liberto pode viver no interior da Muralha Negra, portanto, foi obrigada a vender a mansão de Vogarro. Estabeleceu residência na Casa dos Mercadores. Isso foi há trinta e dois anos, e permanece aqui até hoje. É ela que está atrás de você, perto do pátio, a conceder audiências na sua mesa habitual. Não, não olhe. Está alguém com ela agora. Quando ele acabar, será a nossa vez.
— E esta velha pega vai ajuda-lo como?
Sor Jorah pôs-se em pé.
— Espera e verá. Ele está indo embora.
Tyrion saltou de cima da cadeira com um retinir de ferro. Isto deve ser esclarecedor.
Havia algo de vulpino no modo como a mulher se sentava no seu canto junto ao pátio, algo de reptiliano nos seus olhos. O cabelo branco era tão fino que o rosado do couro cabeludo se via através dele. Sob um olho ainda ostentava ténues cicatrizes no local onde uma faca lhe cortara as lágrimas. Os restos da refeição matinal juncavam a mesa; cabeças de sardinha, caroços de azeitona, bocados de pão folha. Tyrion não deixou de reparar em como a sua "mesa do costume" era bem escolhida; pedra sólida nas costas, um nicho cheio de folhas a um lado para as entradas e saídas, uma perfeita vista da porta dianteira da estalagem, mas tão embebida em sombras que a própria viúva era praticamente invisível.
Vê-lo fez a velha sorrir.
— Um anão — ronronou, numa voz tão sinistra como suave. Falava o idioma comum com não mais que um vestígio de sotaque. — Volantis parece ter sido invadida por anões nos últimos tempos. Este faz truques?
Sim, quis Tyrion dizer. Dá-me uma besta, e eu mostro-te o meu truque favorito.
— Não — respondeu Sor Jorah.
—É uma pena. Em tempos tive um macaco que conseguia fazer todos os tipos de truques inteligentes. O seu anão me faz lembrar dele. É um presente?
— Não. Trouxe isto. — Sor Jorah apresentou o par de luvas e baseu com elas na mesa, ao lado dos outros presentes que a viúva recebera naquela manhã; uma taça de prata, um leque ornamentado, esculpido em folhas de jade tão finas que se tornavam translúcidas, e um antigo punhal de bronze marcado com runas. Ao lado de tais tesouros, as luvas pareciam baratas e de mau gosto.
— Luvas para as minhas pobres mãos velhas e enrugadas. Que bom. — A viúva não fez nenhum movimento para lhes tocar.
— Comprei-as na Ponte Longa.
— Um homem consegue comprar quase qualquer coisa na Ponta Longa. Luvas, escravos, macacos. — Os anos tinham-lhe dobrado a espinha e posto uma corcova de bruxa nas costas, mas os olhos da viúva eram brilhantes e negros. — Agora diga a esta velha viúva como é que ela lhe pode ser útil.
— Precisamos de passagem rápida para leste, para Meereen.