Uma palavra. O mundo de Tyrion Lannister virou-se do avesso.
Uma palavra. Meereen. Ou teria ouvido mal?
Uma palavra. Meereen, ele disse Meereen, vai levar-me para Meereen. Meereen queria dizer vida. Ou esperança de vida, pelo menos.
— Por que vir falar comigo? — disse a viúva. — Não possuo navios.
— Tem muitos capitães como devedores.
Entregar-me à rainha, diz ele. Pois, mas qual rainha? Não está me vendendo a Cersei. Está a oferecer-me a Daenerys Targaryen. Foi por isso que não me cortou a cabeça. Vamos para leste, e Griff e o seu príncipe vão para oeste, os malditos idiotas.
Oh, aquilo tudo era muito. Planos dentro de planos, mas todas as estradas descem pela goela do dragão. Uma gargalhada jorrou dos seus lábios, e de súbito Tyrion deixou de conseguir parar de rir.
— O vosso anão está a ter um ataque — observou a rainha.
— O meu anão vai calar-se, senão tratarei de amordaçá-lo.
Tyrion tapou a boca com as mãos. Meereen!
A viúva da borda dagua decidiu ignorá-lo.
— Bebemos um pouco? — perguntou. Grãozinhos de poeira flutuaram pelo ar quando uma criada encheu dois copos de vidro verde para Sor Jorah e para a viúva. A garganta de Tyrion estava seca, mas não lhe foi oferecido nenhum copo. A viúva bebeu um gole, fez rolar o vinho na boca, engoliu. — Todos os outros exilados partem para oeste, ou pelo menos foi o que estes velhos ouvidos ouviram dizer. E todos esses capitães devedores estão caindo uns sobre os outros para levá-los para lá e sugar um pouco de ouro dos cofres da Companhia Dourada. Os nossos nobres triarcas prometeram à causa uma dúzia de navios de guerra, para levar a frota em segurança até aos Degraus. Até o velho Doniphos deu o seu assentimento. Que gloriosa aventura. E, no entanto, você quer ir para o outro lado, sor.
— Os meus negócios estão a leste.
— Me pergunto que negócios serão esses. Não são escravos, a rainha prateada pôs fim a isso. Também fechou as arenas de combate, por isso não pode ser gosto por sangue. O que mais poderia Meereen oferecer a um cavaleiro de Westeros? Tijolos? Azeitonas? Dragões? Ah, aí está. — O sorriso da velha tornou-se ferino. — Ouvi dizer que a rainha prateada os alimenta com a carne de bebês, enquanto ela se banha no sangue de virgens e escolhe um amante diferente todas as noites.
A boca de Sor Jorah endurecera.
— Os yunkaitas estão a despejar-lhe veneno nos ouvidos. A senhora não devia acreditar em tais imundícies.
— Eu não sou nenhuma senhora, mas até a rameira de Vogarro conhece o sabor da falsidade. Mas isto é verdade: a rainha dos dragões tem inimigos... Yunkai, Nova Ghis, Tolos, Qarth... sim, e Volantis, muito em breve. Quer viajar para Meereen? Espere um pouco, sor. Bem depressa se irão pedir espadas, quando os navios de guerra dobrarem os remos para leste a fim de derrubar a rainha prateada. Os tigres adoram usar as suas garras, e mesmo os elefantes matarão se forem ameaçados. Malaquo anseia por provar a glória, e Nyessos deve muita da sua riqueza ao tráfico de escravos. Se Alios, Parquello ou Belicho conquistarem a triarquia, as frotas zarparão.
Sor Jorah franziu-o cenho.
— Se Doniphos for reeleito...
— Vogarro será reeleito primeiro, e o meu querido senhor está morto há trinta anos.
Atrás deles, um marinheiro qualquer estava a berrar ruidosamente.
— Chamam a isto cerveja? Foda-se! Um macaco era capaz de mijar uma cerveja melhor.
— E você a beberia — replicou outra voz.
Tyrion virou-se para olhar, esperando contra a esperança que estivesse a ouvir Pato ou Haldon. Em vez disso, viu dois estranhos... e o anão, que estava em pé a alguns metros de distância, fitando-o intensamente. Parecia de algum modo familiar.
A viúva beberricou delicadamente o vinho.
— Alguns dos primeiros elefantes foram mulheres — disse — aqueles que derrubaram os tigres e puseram fim às velhas guerras. Trianna foi reeleita quatro vezes. Infelizmente isso foi há trezentos anos. Volantis não tem triarcas do sexo feminino desde essa altura, embora algumas mulheres tenham direito de voto. Mulheres de bom nascimento que habitam em antigos palácios por trás das Muralhas Negras, não criaturas como eu. O Sangue Antigo terá os seus cães e as suas crianças a votar antes de algum liberto faze-lo. Não, será Belicho ou talvez Alios, mas de qualquer maneira haverá guerra. Pelo menos é o que eles julgam.
— O que julga você? — perguntou Sor Jorah.
Muito bem, pensou Tyrion. É a pergunta certa.
— Oh, eu também julgo que haverá guerra, mas não da maneira que eles querem. — A velha debruçou-se para frente, com os olhos negros reluzindo. — Julgo que aquele R'hllor vermelho tem mais adoradores nesta cidade do que todos os outros deuses juntos. Ouviu Benerro pregar?
— Ontem à noite.
— Benerro consegue ver o amanhã nas chamas — disse a viúva. — O Triarca Malaquo tentou contratar a Companhia Dourada, sabia? Queria limpar o templo vermelho e passar Benerro pela espada. Não se atreve a usar os mantos de tigre. Metade deles também adoram o Senhor da Luz. Oh, estes são dias terríveis na Velha Volantis, mesmo para velhas viúvas encarquilhadas. Mas não são nem de perto tão terríveis como em Meereen, me parece. Portanto, diga-me, sor... porque vai em busca da rainha prateada?
— Isso é problema meu. Posso pagar pela nossa passagem, e pagar bem. Tenho prata suficiente.
Parvo, pensou Tyrion. O que ela quer não é dinheiro, é respeito. Não ouviste uma palavra do que disse? Voltou a dar uma olhada por sobre o ombro. O anão aproximara-se da mesa deles. E parecia ter uma faca na mão. Os pelos na sua nuca começaram a eriçar-se.
— Fique com a sua prata. Eu tenho ouro. E poupe-me aos olhares sombrios, sor. Sou velha demais para me deixar assustar por uma carranca. É um homem duro, bem vejo, e sem dúvida que usa com perícia essa longa espada que tem à cintura, mas estes são os meus domínios. Basta-me dobrar um dedo, e talvez dê por sí a viajar para Meereen acorrentado a um remo no porão de uma galé. — Ergueu o leque de jade e abriu-o. Ouviu-se o restolhar de folhas, e um homem deslizou da arcada coberta de vegetação, pondo-se à esquerda dela. A sua cara era uma massa de cicatrizes, e tinha uma espada na mão, curta e pesada como um cutelo. — Alguém lhe disse: Procura a viúva da borda d agua, mas também deviam tê-lo avisado: Cuidado com os filhos da viúva. Mas a manhã está tão boa que vou voltar a perguntar. Porque procura Daenerys Targaryen, a qual meio mundo quer ver morta?
A cara de Jorah Mormont estava repleta de ira, mas respondeu.
— Para servi-la. Para defendê-la. Para morrer por ela, se tiver de ser.
Aquilo fez a viúva rir.
— Quer salvá-la, é isso? De mais inimigos do que consigo nomear, com espadas sem conta... é nisso que quer levar a pobre viúva a crer? Que é um fiel e cavaleiresco cavaleiro de Westeros a atravessar meio mundo para ir em auxílio desta... bem, ela não é donzela alguma, embora ainda possa ser bela. — Voltou a rir-se. — Julga que o seu anão lhe irá agradar? Julga que ela irá querer banhar-se no sangue dele, ou se contentará em lhe cortar a cabeça?
Sor Jorah hesitou.
— O anão é...
— ... Eu sei quem é o anão, e o que ele é. — Os olhos negros da velha viraram-se para Tyrion, duros como pedra. — Assassino de parentes, regicida, homicida, vira-casaca. Lannister. — Transformou a última palavra numa praga. — O que planeja você oferecer à rainha dos dragões, homenzinho?