O meu ódio, quis Tyrion dizer. Mas em vez disso abriu tanto as mãos quanto as grilhetas consentiam.
— Qualquer coisa que ela queira obter de mim. Conselhos sábios, humor selvagem, um pouco de acrobacia. A minha pica, se a quiser. Se não quiser, a minha língua. Liderarei os seus exércitos ou esfregarei os pés, como desejar. E a única recompensa que peço é poder ser autorizado a violar e matar a minha irmã.
Aquilo devolveu o sorriso à cara da velha.
— Este, pelo menos, é honesto — anunciou — mas você, sor... conheci uma dúzia de cavaleiros de Westeros e um milhar de aventureiros da mesma laia, mas nenhum tão puro como você pinta. Os homens são animais, egoístas e brutais. Por suaves que sejam as palavras, há sempre motivos mais tenebrosos por baixo. Não confio em você, sor. — Enxotou-os com o leque, como se não passassem de moscas a zumbir em volta da sua cabeça. — Se quer chegar a Meereen, nade. Não tenho ajuda para lhe dar.
Nesse momento, os sete infernos arrebentaram em simultâneo.
Sor Jorah começou a levantar-se, a viúva fechou o leque num movimento brusco, o seu homem coberto de cicatrizes deslizou para fora das sombras... e atrás deles uma moça gritou. Tyrion girou sobre si mesmo a tempo de ver o anão a precipitar-se para ele. É uma menina, percebeu-se de repente, uma menina vestida com roupa de homem. E quer me espetar com aquela faca.
Durante meio segundo, Sor Jorah, a viúva e o homem coberto de cicatrizes ficaram imóveis como pedras. Gente ociosa observava de mesas próximas, bebendo cerveja e vinho, mas ninguém fez um movimento para interferir. Tyrion teve de mover ambas as mãos ao mesmo tempo, mas as suas correntes tinham folga apenas suficiente para alcançar o jarro que estava na mesa. Fechou a mão em volta dele, olhou, atirou o conteúdo à cara da anã em arremetida, e depois atirou-se para o lado a fim de evitar a faca dela. O jarro estilhaçou-se por baixo dele quando o chão subiu para atingi-lo na cabeça. Depois, a menina caiu de novo sobre ele. Tyrion rolou para um lado quando ela enterrou a lâmina da faca nas tábuas do soalho, a soltou, voltou a erguê-la...
... E de repente perdeu contato com o chão, com as pernas a sacu- direm-se violentamente enquanto lutava contra as mãos de Sor Jorah, que a agarravam.
— Não! — gemeu, no idioma comum de Westeros. — Larga-me! — Tyrion ouviu a túnica da menina a rasgar-se enquanto ela lutava por se libertar.
Mormont pegou-lhe pelo colarinho com uma mão. Com a outra arrancou-lhe o punhal dos dedos.
— Basta.
O dono do estabelecimento fez então a sua aparição, com uma moca na mão. Quando viu o jarro partido, proferiu uma praga cáustica e exigiu saber o que tinha acontecido ali.
— Luta de anões — respondeu o tyroshi da barba púrpura, entre risinhos.
Tyrion olhou, pestanejando, a menina que pingava e se contorcia no ar.
— Porquê? — perguntou. — O que eu lhe fiz?
— Eles mataram-no. — Quando disse aquilo, toda a luta se lhe escoou do corpo. Deixou-se pender sem forças das mãos de Mormont, enquanto os olhos se lhe enchiam de lágrimas. — O meu irmão. Apanharam-no e mataram-no.
— Quem foi que o matou? — perguntou Mormont.
— Marinheiros. Marinheiros vindos dos Sete Reinos. Eram cinco, bêbados. Viram-nos a justar na praça e seguiram-nos. Quando perceberam de que eu era uma menina, deixaram-me ir, mas levaram o meu irmão e mataram-no. Cortaram-lhe a cabeça.
Tyrion sentiu um súbito choque de reconhecimento. Eles viram-nos a justar na praça. Compreendeu então quem a menina era.
— Montava o porco? — perguntou-lhe. — Ou o cão?
— O cão — soluçou a anã. — Era sempre Oppo a montar o porco.
Os anões do casamento de Joffrey. Foi o espetáculo deles que dera início a todos os problemas naquela noite. Que estranho voltar a encontrá-los a meio mundo de distância. Embora talvez não fosse assim tão estranho. Se tivessem metade dos miolos do porco, teriam fugido de Porto Real na noite em que Joffrey morrera, antes de Cersei poder atribuir-lhes alguma parte da culpa pela morte do filho.
— Ponha-a no chão, sor — disse a Sor Jorah Mormont. — Ela não nos fará nenhum mal.
Sor Jorah deixou cair a anã ao chão.
— Lamento pelo seu irmão... mas não participamos no seu assassínato.
— Ele participou. — A menina pôs-se de joelhos, apertando a túnica rasgada e ensopada em vinho aos seus pequenos seios pálidos. — Era a ele que queriam encontrar. Julgaram que Oppo era ele. — A menina estava agora chorando, suplicando ajuda a qualquer pessoa que lhe quisesse dar ouvidos. — Ele devia morrer, como o meu pobre irmão morreu. Por favor. Alguém que me ajude. Alguém que o mate. — O proprietário agarrou-a rudemente por um braço e a pôs em pé, gritando em volanteno, exigindo saber quem ia pagar por aqueles danos.
A viúva da borda dagua deu a Mormont um olhar frio.
— Dizem que os cavaleiros defendem os fracos e protegem os inocentes. E eu sou a mais bela donzela de toda Volantis. — A gargalhada dela estava cheia de escárnio. — Que nome te dão, pequena?
— Centava.
A velha gritou ao proprietário na língua da Velha Volantis. Tyrion sabia o suficiente para compreender que lhe estava dizendo para levar a anã para os seus aposentos, lhe dar vinho e lhe arranjar alguma roupa para usar.
Quando se foram embora, a viúva estudou Tyrion com os olhos negros a brilhar.
— Os monstros deviam ser maiores, parece-me. Você vale uma senhoria em Westeros, homenzinho. Aqui, temo bem, o seu valor é algo menor. Mas acho que afinal é melhor que lhe ajude. Volantis não é lugar seguro para anões, segundo parece.
— É muito bondosa. — Tyrion dirigiu-lhe o seu sorriso mais simpático. — Talvez tem também a gentileza de me tirar estas encantadoras pulseiras de ferro? Este monstro só tem meio nariz, e ele dá uma comichão abominável. As correntes são curtas demais para coçá-lo. Posso fazer delas um presente para vós, e de bom grado.
— Que bondade. Mas já usei ferro nos meus tempos, e descobri que agora prefiro ouro e prata. E, entristece-me dizer, isto é Volantis, onde grilhetas e correntes são mais baratas do que pão do dia anterior e é proibido ajudar um escravo a fugir.
— Eu não sou escravo nenhum.
— Todos os homens capturados por escravagistas cantam precisamente essa triste canção. Não me atrevo a ajudar-lo... aqui. — Voltou a inclinar-se para a frente. — Daqui a dois dias, a coca Selaesori Qhoran zarpará para Qarth via Nova Ghis, transportando estanho e ferro, fardos de lã e de renda, cinquenta tapetes de Myr, um cadáver em salmoura, vinte jarras de pimentão e um sacerdote vermelho. Esteja lá dentro quando ela zarpar.
— Estaremos — disse Tyrion — e obrigado.
Sor Jorah franziu o sobrolho.
— O nosso destino não é Qarth.
— A coca nunca chegará a Qarth. Benerro viu-o nas suas fogueiras. — A velha fez um sorriso vulpino.
— É como disse. — Tyrion sorriu. — Se eu fosse volanteno, e livre, e tivesse o sangue, teria meu voto para triarca, senhora.