Выбрать главу

A ideia deixou Jon inquieto.

— É melhor não.

— Ele não me fará mal. Chama-o de Fantasma, certo?

— Sim, mas...

— Fantasma. — Melisandre fez da palavra uma canção.

O lobo gigante avançou para ela. Cauteloso, rodeou-a num círculo, farejando. Quando ela estendeu a mão também a cheirou, após o que lhe encostou o focinho aos dedos.

Jon soltou uma expiração branca.

— Ele não é sempre tão...

— ... Caloroso? O calor chama calor, Jon Snow. — Os olhos dela eram duas estrelas vermelhas, brilhando no escuro. À sua garganta o rubi cintilava, um terceiro olho que brilhava mais vivamente do que os outros. Jon viu os olhos de Fantasma ardendo, vermelhos, como ardiam quando captavam a luz da forma certa.

— Fantasma — chamou. — A mim.

O lobo gigante olhou-o como se fosse um estranho.

Jon franziu as sobrancelhas, incrédulo.

— Isto é... estranho.

— Acha que sim? — ela ajoelhou e coçou Fantasma atrás da orelha. — A sua Muralha é um lugar estranho, mas há aqui poder, se quiser usá-lo. Poder em você e neste animal. Você resiste contra ele, e é esse o seu erro. Aceite-o. Use-o.

Eu não sou um lobo, pensou.

— E como faria eu tal coisa?

— Eu posso mostrar-lhe. — Melisandre envolveu Fantasma num braço esguio, e o lobo gigante lambeu-lhe a cara. — O Senhor da Luz, na sua sabedoria, fez-nos macho e fêmea, duas partes de um todo maior. Na nossa junção existe poder. Poder para criar vida. Poder para criar luz. Poder para deitar sombras.

— Sombras. — O mundo pareceu mais escuro quando proferiu a palavra.

— Todos os homens que caminham pela terra deitam uma sombra sobre o mundo. Algumas são esguias e fracas, outras longas e escuras. Devía olhar para trás de você, Lorde Snow. A Lua beijou-lhe e lançou a sua sombra sobre o gelo a uma altura de seis metros.

Jon olhou por sobre o ombro. A sombra estava lá, tal como ela dissera, delineada em luar sobre a Muralha. Uma menina de cinza num cavalo moribundo, pensou. Vindo para cá, para você. Arya. Voltou a virar-se para a sacerdotisa vermelha. Jon conseguia sentir o calor que ela emanava. Ela tem poder. O pensamento chegou sem ser chamado, capturando-o com dentes de ferro, mas aquela não era uma mulher à qual quisesse ficar devedor, nem mesmo pela irmã mais nova.

— Dalla disse-me um dia uma coisa. A irmã de Val, a mulher de Mance Rayder. Disse que a feitiçaria era uma espada sem cabo. Não há maneira segura de lhe pegar.

— Uma sábia mulher. — Melisandre levantou-se, com as vestes vermelhas a agitarem-se ao vento. — Mas uma espada sem cabo continua a ser uma espada, e uma espada é uma bela coisa para se ter quando se está rodeado de inimigos. Escute-me, Jon Snow. Nove corvos voaram para a floresta branca para encontrar os seus inimigos. Três deles estão mortos. Ainda não morreram, mas a morte está lá fora à sua espera, e eles cavalgam ao seu encontro. Você os enviou para serem os seus olhos nas trevas, mas estarão sem olhos quando regressarem para junto de você. Vi as suas caras pálidas e mortas nas minhas chamas. Órbitas vazias, chorando sangue. — Empurrou o cabelo vermelho para trás, e os seus olhos vermelhos brilharam. — Não acredita em mim. Acreditará. O custo dessa crença será três vidas. Um pequeno preço a pagar pela sabedoria, dirão alguns... mas não um preço que terá de pagar. Lembre-se disso quando contemplar as caras cegas e devastadas dos seus mortos. E quando chegar esse dia, aceite a minha mão. — A névoa erguia-se da sua pele alva, e por um momento pareceu que chamas pálidas e feiticeiras estavam brincando entre os seus dedos. — Aceite a minha mão — voltou ela a dizer — e deixe-me salvar a sua irmã.

DAVOS

Mesmo na escuridão do Covil do Lobo, Davos Seaworth conseguia sentir que havia algo de errado naquela manhã.

Acordou com o som de vozes e rastejou até à porta da cela, mas a madeira era muito grossa e não conseguiu distinguir as palavras. A alvorada chegara, mas não as papas de aveia que Garth lhe trazia todas as manhãs para quebrar o jejum. Isso o deixou ansioso. Todos os dias eram muito iguais dentro do Covil do Lobo, e as mudanças eram normalmente para pior. Pode ser este o dia em que eu morro. Garth pode estar agora mesmo sentado com uma pedra de amolar, para pôr um fio na Senhora Lu.

O Cavaleiro da Cebola não esquecera as últimas palavras que Wyman Manderly lhe dissera. Leve esta criatura para o Covil do Lobo e corte a cabeça e as mãos, ordenara o gordo senhor. Não conseguirei comer nem uma dentada até ver a cabeça deste contrabandista num espigão, com uma cebola enfiada entre os seus dentes mentirosos. Davos adormecia todas as noites com aquelas palavras na cabeça, e acordava todas as manhãs a ouvi-las. E se esquecesse, Garth ficava sempre contente por lhas fazer lembrar. "Morto" era o nome que dava a Davos. Quando aparecia de manhã, era sempre: "Toma, papas para o morto" À noite era: "Apaga a vela, ó morto”.

Uma vez, Garth trouxera as suas senhoras para apresentá-las ao morto.

— A Rameira não tem grande ar — dissera, afagando um bastão de frio ferro negro — mas quando a aquecer até ficar ao rubro e deixar que ela te toque na pica, você há de gritar pela sua mãe. E aqui esta é a minha Senhora Lu. Vai ser ela que te vai cortar a cabeça e as mãos, quando Lorde Wyman enviar a ordem. — Davos nunca vira um machado maior do que a Senhora Lu, nem um machado com um fio mais aguçado. Os outros guardas diziam que Garth passava os dias o afiando. Não suplicarei por misericórdia, decidiu Davos. Iria para a morte como um cavaleiro, pedindo apenas que lhe cortassem a cabeça antes das mãos. Esperava que nem mesmo Garth fosse tão cruel que lhe negasse tal coisa.

Os sons que atravessavam a porta eram tênues e abafados. Davos se levantou e percorreu a cela. Enquanto tal, era grande e estranhamente confortável. Davos suspeitava que podia ter sido em tempos o quarto de algum fidalgo. Era três vezes maior do que a sua cabine de capitão na Betha Negra, e até era maior do que a cabine de que Salladhor Saan desfrutara na sua Valiriana. Embora a única janela tivesse sido tapada com tijolos anos antes, uma parede ainda ostentava uma lareira suficientemente grande para conter uma panela, e havia uma verdadeira latrina embutida num recanto. O chão era feito de tábuas torcidas cheias de lascas, e a cama em que dormia cheirava a bolor, mas esses desconfortos eram brandos quando comparados com o que Davos esperara.

A comida também fora uma surpresa. Em lugar de papas de aveia diluídas, pão duro e carne podre, a habitual comida de masmorra, os seus guardas traziam-lhe peixe acabado de pescar, pão ainda quente do forno, carneiro temperado, nabos, cenouras, até caranguejos. Garth não ficava nada contente com isso.

— Os mortos não deviam comer melhor que os vivos — protestara, e por mais de uma vez. Davos tinha peles para mantê-lo quente à noite, lenha para alimentar a lareira, roupa limpa, uma gordurosa vela de sebo. Quando pediu papel, penas e tinta, Therry trouxe-os no dia seguinte. Quando pediu um livro, para poder treinar a leitura, Therry apareceu com A Estrela de Sete Pontas.

Apesar de todo o seu conforto, porém, a cela não deixava de ser uma cela. As suas paredes eram de pedra sólida, tão grossa que nada conseguia ouvir do mundo exterior. A porta era de carvalho e ferro, e os guardas mantinham-na trancada. Quatro conjuntos de pesados grilhões de ferro pendiam do teto, à espera do dia em que Lorde Manderly decidisse acorrentá-lo e entregá-lo à Rameira. Hoje pode ser esse dia. Da próxima vez que Garth abrir a minha porta, pode não ser para me trazer papas.