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Apesar de todo o seu conforto, porém, a cela não deixava de ser uma cela. As suas paredes eram de pedra sólida, tão grossa que nada conseguia ouvir do mundo exterior. A porta era de carvalho e ferro, e os guardas mantinham-na trancada. Quatro conjuntos de pesados grilhões de ferro pendiam do teto, à espera do dia em que Lorde Manderly decidisse acorrentá-lo e entregá-lo à Rameira. Hoje pode ser esse dia. Da próxima vez que Garth abrir a minha porta, pode não ser para me trazer papas.

Tinha a barriga trovejando, um sinal seguro de que a manhã estava passando e continuava a não haver sinal de comida. A pior parte não é morrer,mas não saber quando ou como. Davos vira o interior de alguns cárceres e masmorras nos seus dias de contrabando, mas esses tinham sido partilhados com outros prisioneiros, portanto havia sempre alguém com quem falar, com quem partilhar medos e esperanças. Ali não. À parte os guardas, Davos Seaworth tinha o Covil do Lobo para si.

Sabia que havia masmorras verdadeiras nas caves do castelo; oublittes salas de tortura e poços úmidos onde enormes ratazanas negras esgravatavam nas trevas. Os carcereiros afirmavam que estavam todas desocupadas de momento.

— Só aqui estamos nós, Cebolas — dissera-lhe Sor Bartimus. Este era o carcereiro-chefe, um cavaleiro cadavérico e perneta com uma cara coberta de cicatrizes e um olho cego. Quando Sor Bartimus estava com os copos (e Sor Bartimus estava com os copos quase todos os dias), gostava de se gabar de como salvara a vida do Lorde Wyman na Batalha do Tridente. O Covil do Lobo era a sua recompensa.

O resto de "nós" consistia num cozinheiro que Davos nunca viu, seis guardas na caserna do piso térreo, um par de lavadeiras e os dois carcereiros que vigiavam o prisioneiro. Therry era o mais novo, filho de uma das lavadeiras, um rapaz de catorze anos. O mais velho era Garth, enorme, careca e taciturno, que usava todos os dias o mesmo gorduroso justilho de couro e parecia ter sempre uma carranca na cara.

Os seus anos de contrabandista tinham dado a Davos Seaworth um instinto para quando um homem não era certo, e Garth não era certo. O Cavaleiro das Cebolas tinha o cuidado de ter tento na língua na sua presença. Com Therry e Sor Bartimus era menos reticente. Agradecia-lhes pela comida, encorajava-os a falar das respetivas esperanças e histórias, respondia educadamente às perguntas que lhe faziam, e nunca pressionava muito com suas perguntas. Quando fazia pedidos, eram pedidos pequenos; uma bacia de água e um pouco de sabão, um livro para ler, mais velas. A maioria de tais favores era concedida, e Davos sentia-se devidamente agradecido.

Nenhum dos dois homens queria falar sobre o Lorde Manderly, o Rei Stannis ou os Frey, mas falavam de outras coisas. Therry queria partir para a guerra quando tivesse idade para isso, para combater em batalhas e tornar-se cavaleiro. Gostava também de se queixar da mãe. Ela andava dormindo com dois dos guardas, confidenciara. Os homens estavam em turnos diferentes e nenhum sabia do outro, mas, um dia, um ou outro dos homens iria deduzir o que se passava, e nessa altura haveria sangue. Havia noites em que o rapaz até trazia um odre de vinho para a cela e fazia a Davos perguntas sobre a vida de contrabandista enquanto bebiam.

Sor Bartimus não tinha qualquer interesse no mundo exterior, ou, na verdade, sobre o que quer que tivesse acontecido desde que um cavalo sem cavaleiro e uma serra de meistre lhe tinham levado a perna. Contudo, acabara por se apaixonar pelo Covil do Lobo e não havia nada de que mais gostasse do que de falar sobre a sua longa e sangrenta história. O Covil era muito mais antigo do que Porto Branco, dissera o cavaleiro a Davos. Fora construído pelo Rei Jon Stark para defender a foz da Faca Branca contra atacantes vindos do mar. Muitos filhos mais novos do Rei no Norte tinham tido aí os seus domínios, muitos irmãos, muitos tios, muitos primos. Alguns tinham passado o castelo aos seus próprios filhos e netos, e assim haviam surgido ramos laterais da Casa Stark; os Greystark tinham sido os que haviam perdurado durante mais tempo, mantendo-se na posse do Covil do Lobo durante cinco séculos, até terem tido a ousadia de se juntar ao Forte do Pavor em rebelião contra os Stark de Winterfell.

Depois da queda dos Greystark, o castelo passara por muitas outras mãos. A Casa Flint defendera-o durante um século, a Casa Locke durante quase dois. Slates, Longs, Holts e Ashwoods tinham ali tido domínio, encarregados por Winterfell de manter o rio seguro. Piratas das Três Irmãs tinham tomado o castelo uma vez, transformando-o na sua testa de ponta no norte. Durante as guerras entre Winterfell e o Vale, fora cercado por Osgood Arryn, o Velho Falcão, e incendiado pelo filho deste, aquele que era lembrado como Garra. Quando o velho Rei Edrick Stark se tornara muito fraco para defender o seu reino, o Covil do Lobo fora capturado por escravagistas oriundos dos Degraus. Marcavam os cativos com ferros quentes e quebravam-nos à chicotada antes de os enviarem para o outro lado do mar, e tinham sido aquelas mesmas paredes negras de pedra a testemunhá-lo.

— Depois caiu um longo e cruel inverno — dissera Sor Bartimus. — O Faca Branca congelou por completo, e até a baía estava coberta de gelo. Os ventos chegaram aos uivos do norte, e empurraram os escravagistas para dentro, aglomerando-os em volta dos seus fogos, e enquanto eles se aqueciam, o novo rei caiu sobre eles. Foi este o Brandon Stark, bisneto de Edrick Barba-de-Neve, aquele a quem os homens chamavam Olhos de Gelo. Ele recuperou o Covil do Lobo, despiu os escravagistas, e entregou-os aos escravos que encontrou acorrentados nas masmorras. Diz-se que penduraram as entranhas deles nos ramos da árvore coração, como oferenda aos deuses. Aos deuses antigos, não a estes novos vindos do sul. Os seus Sete não conhecem o inverno, e o inverno não conhece a eles.

Davos não podia contestar a verdade daquilo. E, pelo que vira em Atalaialeste-do-Mar, não queria conhecer o inverno.

— A que deuses ora? — perguntara ao cavaleiro perneta.

— Aos antigos. — Quando Sor Bartimus sorria era tal e qual um crânio. — Eu e os meus estávamos aqui antes dos Manderly. O mais provável é que tenham sido os meus antepassados a enrolarem essas entranhas na árvore.

— Nunca tinha ouvido dizer que os nortenhos faziam sacrifícios de sangue às suas árvores coração.

— Há muitas coisas que vocês, os do Sul, não sabem sobre o Norte — respondera Sor Bartimus.

Não se enganava. Davos sentou-se ao lado da vela e olhou para as cartas que arranhara, palavra por palavra, durante os dias do seu confinamento. Fui melhor contrabandista do que cavaleiro, escrevera à esposa, melhor cavaleiro do que Mão do Rei, melhor Mão do Rei do que marido. Tenho tanta pena. Marya, eu te amei. Por favor, perdoa as desfeitas que lhe fiz. Se Stannis perder a sua guerra, as nossas terras também estarão perdidas. Leva os rapazes para Bravos, do outro lado do mar estreito; e ensina-lhes a pensar em mim com gentileza, se quiser. Se Stannis conquistar o Trono de Ferro, a Casa Seaworth sobreviverá e Devan permanecerá na corte. Ele lhe ajudará a colocar os outros rapazes junto de nobres senhores, onde possam servir como pajens e escudeiros e conquistar os seus graus de cavaleiros. Era o melhor conselho que tinha para lhe dar, embora desejasse que ele soasse mais sábio.

Escrevera também a cada um dos seus três filhos sobreviventes, para ajudá-los a se lembrar do pai que lhes comprara nomes com as pontas dos dedos. As notas para Steffon e para o jovem Stannis eram curtas, rígidas e desajeitadas; em boa verdade, não os conhecia nem de perto tão bem como conhecera os rapazes mais velhos, os que tinham ardido ou tinham se afogado na Água Negra. A Devan escrevera mais, dizendo-lhe como se sentia orgulhoso de ver o filho como escudeiro de um rei e fazendo-lhe lembrar de que, na condição de filho mais velho, era seu dever proteger a senhora sua mãe e os irmãos mais novos. Diz a Sua Graça que fiz o melhor que pude, terminava. Lamento por ter lhe falhado. Perdi a sorte quando perdi os ossos dos dedos, no dia em que o rio ardeu á sombra de Porto Real.