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Davos folheou lentamente as cartas, lendo cada uma até ao fim por várias vezes, perguntando a si próprio se devia alterar uma palavra aqui ou acrescentar uma ali. Pensou que um homem devia ter mais a dizer quando fitava o fim da sua vida, mas as palavras custavam a chegar. Não me saí assim tão mal, tentou dizer a si próprio. Subi do Fundo das Pulgas a Mão de um Rei e aprendi a ler e a escrever.

Ainda estava debruçado sobre as cartas quando ouviu o som de chaves de ferro a retinir num aro. Meio segundo mais tarde, a porta da sua cela abriu-se.

O homem que entrou não era um dos seus carcereiros. Era alto e macilento, com uma cara profundamente enrugada e uma juba castanha acinzentada. Uma espada longa pendia-lhe da cintura, e o seu manto tingido de escarlate estava preso ao ombro com um pesado broche de prata com a forma de um punho revestido de cota de malha.

— Lorde Seaworth — disse — não temos muito tempo. Por favor, venha comigo.

Davos olhou o desconhecido com prudência. O "por favor" confundia-o. Tais cortesias não eram concedidas com frequência a homens prestes a perder a cabeça e as mãos.

— Quem é você?

— Robett Glover, se agradar ao senhor.

— Glover. O seu domínio era Bosque Profundo.

— O domínio do meu irmão Galbart. Era e é, graças ao seu Rei Stannis. Ele recuperou Bosque Profundo das mãos da cadela de ferro que o roubou, e se oferece para devolver o castelo aos seus legítimos donos. Aconteceram muitíssimas coisas enquanto esteve confinado no interior destas muralhas, Lorde Davos. Fosso Cailin caiu, e Roose Bolton regressou ao Norte com a filha mais nova de Ned Stark. Uma hoste de Freys veio com ele. Bolton enviou corvos, convocando todos os senhores do Norte a Vila Acidentada. Exige obediência e reféns... e testemunhas para o casamento de Arya Stark com o seu bastardo Ramsay Snow, através de cuja união os Bolton pretendem avançar com uma pretensão a Winterfell. E agora vem comigo ou não?

— Que alternativa tenho, senhor? Ir com você ou permanecer com Garth e a Senhora Lu?

— Quem é a Senhora Lu? Uma das lavadeiras? — Glover estava ficando impaciente. — Tudo será explicado se vier.

Davos pôs-se em pé.

— Se eu morrer, peço-lhe que estas cartas sejam entregues.

— Tem a minha palavra quanto a isso... se bem que se morrer não será às mãos dos Glover, nem às do Lorde Wyman. Agora depressa, comigo.

Glover levou-o ao longo de um corredor obscurecido e por um lance de degraus gastos. Atravessaram o bosque sagrado do castelo, onde a árvore coração se tornara tão gigantesca e emaranhada que sufocara todos os carvalhos, ulmeiros e bétulas, e colidira com os ramos nas paredes e janelas que davam para ela. As suas raízes tinham o diâmetro da cintura de um homem, e o tronco era tão largo que a cara nele esculpida parecia gorda e zangada. Atrás do represeiro, Glover abriu um portão de ferro enferrujado e parou para acender um archote. Quando este começou a arder rubro e quente, levou Davos por mais escadas abaixo até uma cave abobadada onde as paredes repletas de umidade estavam brancas de sal, e a água do mar chapinhava em volta dos seus pés a cada passo. Passaram por várias caves e por fileiras de celas úmidas, pequenas e malcheirosas, muito diferentes da sala onde Davos foi confinado. Depois apareceu uma parede lisa de pedra que se virou quando Glover a empurrou. Atrás dela ficava um longo túnel estreito e ainda mais degraus. Estes subiam.

— Onde estamos? — perguntou Davos enquanto subiam. As suas palavras ecoaram levemente nas trevas.

— Nos degraus por baixo dos degraus. Esta passagem fica por baixo da Escada do Castelo, que leva ao Castelo Novo. Um caminho secreto. Não seria bom que fosse visto, senhor. Supostamente está morto.

Papas para o morto. Davos continuou a subir.

Saíram por outra parede, mas a parte de trás desta era de estuque e ripas. A sala do outro lado era aconchegada e estava quente e mobilada com conforto, com um tapete de Myr no chão e velas de cera de abelha ardendo numa mesa. Davos ouviu flautas e rabecas serem tocadas, não muito longe. Da parede pendia uma pele de ovelha com um mapa do Norte nela pintado em cores desbotadas. Sob o mapa estava sentado Wyman Manderly, o colossal Senhor de Porto Branco.

— Sente-se, por favor. — Lorde Manderly estava ricamente trajado. O seu gibão de veludo era de um suave verde-azulado, bordado em fio de ouro na bainha, nas mangas e no colarinho. O manto era de arminho, preso ao ombro com um tridente dourado. — Tem fome?

— Não, senhor. Os seus carcereiros alimentaram-me bem.

— Há vinho se tiver sede.

— Eu negociarei com você senhor. O meu rei ordenou-me. Não tenho de beber contigo.

Lorde Wyman suspirou.

Tratei-lhe de forma muito vergonhosa, bem sei. Tive os meus motivos, mas... por favor, sente-se e beba, suplico-lhe. Beba ao regresso do meu rapaz em segurança. Wyllis, o meu filho mais velho e herdeiro. Está em casa. Aquilo que ouve é o banquete de boas-vindas. Na Corte do Tritão come-se torta de lampreia e veado com castanhas assadas. Wynafryd está dançando com o Frey com quem vai casar. Os outros Frey estão erguendo taças de vinho para brindar à nossa amizade.

Sob a música, Davos conseguia ouvir o murmúrio de muitas vozes, o retinir de copos e bandejas. Nada disse.

— Acabei de vir da mesa elevada — prosseguiu o Lorde Wyman. — Comi muito, como sempre, e todo o Porto Branco sabe que tenho más tripas. Os meus amigos Frey não estranharão uma demorada visita à latrina, esperamos. — Emborcou a taça. — Pronto, você beberá e eu não. Sente-se. O tempo é curto e há muito para dizer. Robett, vinho para a Mão, se tiver a bondade. Lorde Davos, você não sabe, mas está morto.

Robett Glover encheu uma taça de vinho e a ofereceu a Davos. Este a aceitou, a cheirou, e bebeu.

— Como foi que morri, se posso perguntar?

— Pelo machado. A sua cabeça e as mãos foram montadas acima do Portão das Focas, com a cara virada de maneira que os olhos fitassem o porto. Por esta altura está bem podre, embora tenhamos mergulhado a cabeça em alcatrão antes de monta-la no espigão. Diz-se que gralhas pretas e aves aquáticas lutaram pelos seus olhos.

Davos mexeu-se desconfortavelmente na cadeira. Estar morto dava-lhe uma sensação estranha.

— Se o senhor puder  dizer, quem morreu no meu lugar?

— E isso importa? Tem uma cara comum, Lorde Davos. Espero que dizer-lhe isto não o ofenda. O homem tinha as suas cores, um nariz com a mesma forma, duas orelhas que não eram muito diferentes, uma longa barba que podia ser aparada e esculpida como a suaa. Pode ter certeza de que o enchemos bem de alcatrão, e a cebola enfiada entre os seus dentes serviu para retorcer as feições. Sor Bartimus assegurou-se de que os dedos da sua mão esquerda fossem encurtados, tal como os seus. O homem era um criminoso, se isso lhe serve de consolação. A sua morte pode causar mais bem do que qualquer coisa que ele tenha feito enquanto esteve vivo. Senhor, não lhe tenho má vontade. O rancor que lhe mostrei na Corte do Tritão foi uma representação para agradar aos nossos amigos Frey.

— O senhor devia lançar-se numa vida de saltimbanco — disse Davos. — Você e os seuss foram muito convincentes. A sua nora parecia querer-me muito seriamente morto, e a menininha...