— Wylla. — O Lorde Wyman sorriu. — Viu como ela foi valente? Mesmo quando ameacei cortar-lhe a língua, fez-me lembrar da dívida que Porto Branco tem para com os Stark de Winterfell, uma dívida que nunca poderá ser paga. Wylla falou com o coração, tal como a Senhora Leona. Perdoa-lhe se puder, senhor. É uma mulher tola e assustada, e Wylis é a sua vida. Nem todos os homens têm em si o que é preciso para serem o Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, ou Symeon Olhos de Estrela, e nem todas as mulheres podem ser tão corajosas como a minha Wylla e a irmã Wynafryd... a qual sabia, mas desempenhou o seu papel destemidamente.Quando lida com mentirosos, até um homem honesto tem de mentir. Não me atrevi a desafiar Porto Real enquanto o meu único filho sobrevivente continuasse cativo. Lorde Tywin Lannister escreveu-me pessoalmente para dizer que tinha Wylis em seu poder. Se eu quisesse que ele fosse libertado incolume, disse-me, tinha de me arrepender da minha traição, render a cidade, declarar lealdade ao rei rapaz no Trono de Ferro... e dobrar o joelho a Roose Bolton, o seu Protetor do Norte. Se recusasse, Wyllis morreria uma morte de traidor, Porto Branco seria assaltado e saqueado, e a minha gente sofreria o mesmo destino dos Reyne de Castamere. Eu sou gordo, e muitos julgam que isso me torna fraco e tolo. Talvez Tywin Lannister fosse um desses homens. Enviei-lhe em resposta um corvo para dizer que dobraria o joelho e abriria os portões depois de o meu filho me ser devolvido, mas não antes. O assunto estava nesse pé quando Tywin morreu. Depois, os Frey apareceram com os ossos de Wendel... para fazer a paz e selá-la com um pacto de casamento, segundo afirmaram, mas eu não lhes ia dar o que queriam até ter Wylis, em segurança e inteiro, e eles não me iam dar Wylis até que eu provasse a minha lealdade. A vossa chegada deu-me os meios para o fazer. Foi esse o motivo da descortesia que mostrei a você na Corte do Tritão, e da cabeça e mãos a apodrecer por cima do Portão das Focas.
— Correu um grande risco, senhor — disse Davos. — Se os Frey tivessem compreendido o seu logro...
— Não corri risco algum. Se algum Frey tivesse decidido escalar o meu portão para examinar de perto o homem com a cebola na boca, eu teria culpado os carcereiros pelo erro e o apresentaria para os apaziguar.
Davos sentiu um arrepio subir-lhe a espinha.
— Estou vendo.
— Espero que sim. Disse que tínha filhos seus.
Três, pensou Davos, embora tenha gerado sete.
— Em breve terei de regressar ao banquete para fazer um brinde aos meus amigos Frey — prosseguiu Manderly. — Eles vigiam-me, sor. Têm os olhos postos em mim de dia e de noite, com os narizes farejando alguma baforada de traição. Você viu-os, o arrogante Sor Jared e o irmão Rhaegar, aquele verme afetado que usa um nome de dragão. Atrás de ambos está Symond, fazendo tinir moedas. Esse comprou e pagou vários dos meus criados e dois dos meus cavaleiros. Uma das aias da mulher conseguiu enfiar-se na cama do meu bobo. Se Stannis se interroga sobre o motivo por que as minhas cartas dizem tão pouco, é porque nem sequer me atrevo a confiar no meu meistre. Theomore é todo cabeça e nada de coração. Ouviu-o no meu salão. Os meistres devem pôr de lado as antigas lealdades quando envergam as suas correntes, mas não me consigo esquecer de que Theomore nasceu entre os Lannister de Lanisporto, e tem um distante parentesco com os Lannister do Rochedo Casterly. Tenho inimigos e falsos amigos a toda a volta, Lorde Davos. Infestam a minha cidade como baratas, e à noite sinto-os a rastejar por cima de mim. — Os dedos do gordo enrolaram-se num punho, e todos os seus queixos tremeram. — O meu filho Wendel entrou nas Gêmeas como hóspede. Comeu do pão e do sal do Lorde Walder, e pendurou a espada na parede para festejar com amigos. E assassinaram-no. Assassinaram-no, digo eu, e que os Frey sufoquem nas suas fábulas. Eu bebo com Jared, gracejo com Symond, prometo a Rhaegar a mão da minha querida neta... mas nunca julgue que isso quer dizer que me esqueci. O Norte lembra-se, Lorde Davos. O Norte lembra-se, e a farsa está quase no fim. O meu filho está em casa.
Algo no modo como o Lorde Wyman disse aquilo congelou Davos até aos ossos.
— Se é justiça que quer, senhor, vire os olhos para o Rei Stannis. Não há homem mais justo.
Robett Glover interveio para acrescentar:
— A sua lealdade honra-o, senhor, mas Stannis Baratheon continua a ser o seu rei, não o nosso.
— O seu rei está morto — fez-lhes lembrar Davos — assassinado no Casamento Vermelho ao lado do filho do Lorde Wyman.
— O Jovem Lobo está morto — concedeu Manderly — mas esse valente rapaz não era o único filho do Lorde Eddard. Robett, traga o moço.
— Imediatamente, senhor. — Glover deslizou porta fora.
O moço? Seria possível que um dos irmãos de Robb Stark tivesse sobrevivido à ruína de Winterfell? Teria Manderly um herdeiro Stark escondido no seu castelo? Um moço encontrado ou um moço fingido? Suspeitava que o Norte se levantaria por qualquer um... mas Stannis Baratheon nunca faria causa comum com um impostor.
O moço que entrou atrás de Robett Glover não era um Stark e nunca poderia ter esperança de passar por um Stark. Era mais velho do que os irmãos assassinados do Jovem Lobo, pelo aspecto teria uns catorze ou quinze anos, e os seus olhos eram ainda mais velhos. Sob um emaranhado de cabelo castanho escuro, a sua cara era quase ferina, com uma boca larga, um nariz aguçado e um queixo pontiagudo.
— Quem é você? — perguntou Davos.
O rapaz olhou para Robett Glover.
— Ele é um mudo, mas temos andado ensinando-lhe as letras. Aprende depressa. — Glover tirou um punhal do cinto e deu-o ao rapaz. — Escreve o seu nome para o Lorde Seaworth.
Não havia pergaminho no aposento. O rapaz entalhou as letras numa trave de madeira na parede. W... E... X. Empurrou a faca com força no X. Quando acabou, atirou o punhal ao ar, apanhou-o, e pôs-se a admirar a sua obra.
— Wex é nascido no ferro. Era escudeiro de Theon Greyjoy. Wex esteve em Winterfell. — Glover sentou-se. — O que sabe o Lorde Stannis sobre o que sucedeu em Winterfell?
Davos tentou lembrar-se das histórias que tinham ouvido.
— Winterfell foi capturado por Theon Greyjoy, que tinha sido protegido do Lorde Stark. Ele mandou matar os dois filhos mais novos do Stark e montou as suas cabeças por cima das muralhas do castelo. Quando os nortenhos vieram escorraçá-lo, passou o castelo inteiro pela espada, até à última criança, antes de ser morto pelo bastardo do Lorde Bolton.
— Morto, não — disse Glover. — Capturado e levado para o Forte do Pavor. O Bastardo tem andado a esfolá-lo.
O Lorde Wyman confirmou com a cabeça.
— A história que contou é aquela que todos ouvimos, tão cheia de mentiras como um bolo está cheio de passas. Foi o Bastardo de Bolton quem passou Winterfell pela espada... Ramsay Snow, como se chamava nessa altura, antes de o rei rapaz fazer dele um Bolton. Snow não os matou a todos. Poupou as mulheres, prendeu-as umas às outras com cordas, e fê-las marchar até ao Forte do Pavor por esporte.
— Por esporte?
— Ele é um grande caçador — disse Wyman Manderly — e as mulheres são as suas presas preferidas. Despe-as por completo e solta-as na floresta. Tem um avanço de meio dia antes dele partir atrás delas com cães de caça. De vez em quando, uma mulher qualquer escapa e sobrevive para contar a história. A maioria tem menos sorte. Quando Ramsay as apanha, viola-as, esfola-as, dá os seus cadáveres de comer aos cães e traz as peles para o Forte do Pavor como troféus. Se lhe deram boa luta, corta-ihes as gargantas antes de esfolá-las. Se não, é ao contrário.