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— Snow — voltou a Lua a chamar, casquinando. O lobo branco avançou ao longo do trilho de homem por baixo do penhasco branco. Tinha sabor de sangue na língua, e os ouvidos ressoavam com a canção dos cem primos. Em tempos tinham sido seis, cinco a ganir, cegos, na neve junto da mãe morta, enquanto ele se afastara sozinho. Restavam quatro… e um deles o lobo branco deixara de conseguir detectar.

— Snow — insistiu a Lua.

O lobo branco fugiu dela, correndo na direção da gruta da noite onde o Sol se escondera, com a respiração gelando no ar. Em noites sem estrelas, o grande penhasco era tão negro como pedra, uma escuridão quese erguia bem alto acima do vasto mundo, mas quando a Lua emergia cintilava branco e gélido como um ribeiro congelado. A pelagem do lobo era grossa e expessa, mas quando o vento soprava ao longo do gelo não havia pelos capazes de manter o frio afastado. O lobo sentia que do outro lado o vento era ainda mais frio. Era alí que estava o irmão, o irmão cinzento que cheirava a verão.

— Snow. — Um pingente caiu de um ramo. O lobo branco virou-se e descobriu os dentes — Snow! — a sua pelagem ergueu-se, eriçada, enquanto a floresta se dissolvia à volta. — Snow, snow, snow! — Ouviu o bater de asas. Através das sombras um corvo voou.

Aterrou no peito de Jon Snow com estrondo e um raspar de garras.

— SNOW! — gritou-lhe na cara.

— Estou te ouvindo. — O quarto estava escuro, a sua enxergadura. Uma luz cinzenta infiltrava-se através das janelas, prometendo outro dia lúgubre e frio. — Era assim que acordava o Mormont? Tire as penas da minha cara. — Jon contorceu um braço para fora das mantas para enxotar o corvo. Era um pássaro grande, velho, ousado e com mau aspeto, totalmente desprovido de medo.

— Snow — gritou, esvoaçando até o poste da cama. — Snow, snow.

— Jon encheu o punho com uma almofada e arremessou-a, mas a ave levantou voo. A almofada atingiu a parede e arrebentou, espalhando enchimento por todo o lado no preciso momento em que a cabeça de Edd Tollett assomava na porta.

— Perdão — disse, ignorando a confusão de penas — devo ir buscar um pouco de desjejum para o senhor?

— Grão — gritou o corvo. — Grão, grão.

— Corvo assado — sugeriu Jon. — E meio quartilho de cerveja. —Ter um intendente para lhe ir buscar coisas e o servir ainda lhe parecia estranho; não havia muito tempo, teria sido ele a buscar o desjejum para o Senhor Comandante Mormont.

— Três grãos e um corvo assado — disse o Edd Doloroso. — Muito bem, senhor, só que Hobb fez ovos cozidos, morcela e maçãs estufadas com ameixas secas. As maçãs estufadas com ameixas estão excelentes, à parte as ameixas. Eu não como ameixas secas. Bem, houve uma vez que Hobb as cortou com castanhas e cenouras e as escondeu numa galinha. Nunca confie num cozinheiro, senhor. Deixam você engalinhado quando menos esperar. — Mais tarde. — O desjejum podia esperar; Stannis não. —Algum problema nas paliçadas ontem à noite?

— Desde que pusemos guardas guardando os guardas não há problemas, senhor.

— Ótimo. — Mil selvagens tinham sido encurralados do lado de lá da Muralha, os cativos que Stannis Baratheon fizera quando os seus cavaleiros esmagaram a hoste em retalhos de Mance Rayder. Muitos dos prisioneiros eram mulheres, e alguns dos guardas tinham andado fazendo-as sair sorrateiramente para lhes aquecerem as camas. Homens do rei, homens da rainha, não parecia fazer diferença; alguns irmãos negros tinham tentado o mesmo. Homens são homens, e aquelas eram as únicas mulheres em mil léguas.

— Apareceram mais dois selvagens para se renderem — prosseguiu Edd. — Uma mãe com uma criança agarrada às saias. Tinha também um bebê, todo enfaixado em peles, mas estava morto.

— Morto — disse o corvo. Era umas das palavras favoritas da ave. —Morto, morto, morto.

Aparecia do povo livre quase todas as noites, criaturas esfaimadas e meio congeladas que tinham fugido da batalha junto à Muralha só para rastejarem de volta depois de perceberem de que não havia lugar seguro para onde fugir.

 A mãe foi interrogada? — perguntou Jon. Stannis Baratheon tinha esmagado a hoste de Mance Rayder e tornara o Rei-para-lá-da-Muralha seu cativo… mas os selvagens continuavam lá fora, Chorão, e Tormund Terror dos Gigantes e milhares de outros.

 Sim, senhor — disse Edd — mas só sabe que fugiu durante a batalha e se escondeu depois na floresta. A enchemos de papas de aveia, a mandamos para os currais e queimamos o bebê.

Queimar crianças mortas já deixara de perturbar Jon Snow; as vivas eram outra coisa. Dois reis para despertar o dragão. Primeiro o pai e depois o filho, para que ambos morram reis. As palavras tinham sido murmuradas por um dos homens da rainha enquanto o Meistre Aemon lhe costurava os ferimentos. Jon tentara ignorá-las julgando-as conversa febril. Aemon se contrapôs.

— Há poder no sangue de um rei — avisara o velho meistre — e homens melhores do que Stannis fizeram coisas piores do que esta. — O rei pode ser duro e implacável, sim, mas um bebê ainda de peito? Só um monstro entregaria às chamas uma criança viva.

Jon mijou na escuridão, enchendo o penico enquanto o corvo do Velho Urso resmungava queixas. Os sonhos de lobo tinham andado se tornando mais fortes, e dava por si a se lembrar deles mesmo acordado. Fantasma sabe que o Vento Cinzento está morto. Robb morrera nas Gêmeas, traído por homens que julgava amigos, e o seu lobo perecera com ele. Bran e Rickon tinham também sido assassinados, decapitados por ordem de Theon Greyjoy, que fora em tempos protegido do senhor seu pai… mas seus sonhos não mentiam, os lobos selvagens de ambos tinham escapado. Em Coroadarrainha, um deles saíra das trevas para salvar a vida de Jon. Tinha de ter sido Verão. A sua pelagem era cinzenta, e a de Cão-Felpudo é preta. Perguntou-se alguma parte dos seus irmãos mortos continuaria a viver dentro dos respetivos lobos.

Encheu a bacia a partir do jarro de água que tinha ao lado da cama, lavou a cara e as mãos, vestiu um conjunto limpo de lãs negras, atou um justilho negro de couro e calçou um par de botas bem usadas. O corvo de Mormont observou com astutos olhos negros, após o que esvoaçou até à janela.

— Me toma por seu servo? — quando Jon abriu a janela com as grossas vidraças em forma de diamante de vidro amarelo, o frio da manhã baseu-lhe no rosto. Respirou fundo para afastar as teias de aranha da noite enquanto o corvo batia as asas e se afastava. Aquela ave é muito mais esperta do que deveria ser. Foi o companheiro do Velho Urso durante longos anos, mas isso não o impedira de comer o rosto de Mormont quando este morrera.

Fora do seu quarto, um lance de escadas descia até uma sala maior mobilada com uma mesa de pinho cheia de marcas e uma dúzia de cadeiras de carvalho e couro. Com Stannis na Torre do Rei e a Torre do Senhor Comandante transformada numa casca por um incêndio, Jon instalara-se nos modestos aposentos de Donal Noye por trás do armeiro. A seu tempo, sem dúvida, precisaria de instalações maiores, mas de momento aquelas serviriam, enquanto se acostumava ao comando.

A outorga que o rei lhe apresentara para assinar estava na mesa por baixo de uma taça de prata que fora em tempos de Donal Noye. O ferreiro maneta deixara poucos objetos pessoais: a taça, seis dinheiros e uma estrela de cobre, um broche de nigelo com o pregador partido, um gibão mofado de brocado que ostentava o veado de Ponta Tempestade. Os tesouros dele eram as ferramentas e as espadas e facas que fazia. A sua vida residia na forja. Jon pôs a taça de lado e voltou a ler o pergaminho. Se eu apuser o meu selo a isto, serei para sempre lembrado como o senhor comandante que entregou a Muralha, pensou, mas se recusar…