— Há muito tempo — interrompeu Jon. — E os Outros?
— Encontrei menções a vidro de dragão. Os filhos da floresta costumavam oferecer à Patrulha da Noite cem punhais de obsidiana todos os anos, durante a Era dos Heróis. A maior parte das histórias concorda que os Outros vêm quando está frio. Ou então fica frio quando eles vêm. Por vezes aparecem durante tempestades de neve e somem-se quando os céus limpam-se. Escondem-se da luz do sol e emergem à noite… ou então à noite cai quando emergem. Algumas histórias falam deles montados nos cadáveres de animais mortos. Ursos, lobos gigantes, mamutes, cavalos, não importa, desde que o animal esteja morto. Aquele que matou o Paul Pequeno estava montado num cavalo morto, portanto, essa parte é claramente verdade. Al-guns relatos falam também de aranhas gigantes de gelo. Não sei o que elas são. Homens que caem em batalha contra os Outros têm de ser queimados, caso contrário os mortos voltarão a erguer-se como seus servos.
— Já sabíamos tudo isso. A questão é: como os combatemos?
— A armadura dos Outros é à prova da maior parte das lâminas comuns, se é possível crer nas histórias, e as espadas que eles usam são tão frias que estilhaçam o aço. Mas o fogo desencoraja-os, e são vulneráveis à obsidiana. Encontrei um relato da Longa Noite que falava do último herói a matar Outros com uma lâmina de aço de dragão. Supostamente não conseguiam resistir-lhe.
— Aço de dragão? — o termo era novo para Jon. — Aço valiriano?
— Foi também essa a minha primeira ideia.
— Então se eu conseguir convencer os senhores dos Sete Reinos a darem-nos as suas lâminas valirianas, tudo será salvo? Isso não há de ser difícil. — Não será mais difícil do que pedir-lhes para entregarem o dinheiro e os castelos. Soltou uma gargalhada amarga. — Descobriu quem os Outros são, de onde vêm, o que querem?
— Ainda não, senhor, mas pode ser que tenha simplesmente andado lendo os livros errados. Há centenas que ainda não folheei. Dê-me mais tempo, e encontrarei tudo o que houver para encontrar.
— Não há mais tempo. Você tem de juntar as suas coisas, Sam. Vai com Goiva.
— Vou? — Sam olhou-o de boca aberta, como se não compreendesse o significado da palavra. — Eu vou? Para Atalaialeste, senhor? Ou… para onde…
— Vilavelha.
— Vilavelha? — repetiu Sam, num guincho agudo.
— Aemon também.
— Aemon? O Meistre Aemon? Mas… ele tem cento e dois anos de idade, senhor, ele não pode… está mandando ele e a mim? Quem tratará dos corvos? Se adoecerem ou se ferirem, quem…
— Clydas. Ele está com Aemon há anos.
— Clydas é só um intendente, e está perdendo a visão. Precisa de um meistre. O Meistre Aemon está tão fraco que uma viagem marítima… isso pode… ele é velho, e…
— A sua vida estará em risco. Estou consciente disso, Sam, mas o risco aqui é maior. Stannis sabe quem Aemon é. Se a mulher vermelha precisar de sangue real para os seus feitiços…
— Oh. — A cor pareceu escoar-se das bochechas gordas de Sam.
— Daeron juntará a você em Atalaialeste. A minha esperança é que as suas canções nos conquistem alguns homens no sul. O Melro os desembarcará em Braavos. A partir daí, arranjará você a passagem para Vilavelha. Se ainda quiser assumir o bebê de Goiva como seu bastardo, manda-a e à criança para Monte Chifre. Se não, Aemon encontrará para ela um lugar de criada na Cidadela.
— Meu b-b-bastardo. Sim, eu… a minha mãe e irmãs ajudarão Goiva a criar a criança. Daeron podia levá-la para Vilavelha tão bem como eu. Eu sou… tenho andado treinando o tiro com arco todas as tardes com Ulmer, conforme ordenou… bem, menos quando estou nas caves, mas disse-me para descobrir coisas sobre os Outros. O arco me faz doer os ombros e me faz crescer bolhas nos dedos. — Mostrou a mão a Jon. — Mas continuo treinando. Agora já são mais as vezes que acerto no alvo do que as que não acerto, mas continuo a ser o pior arqueiro que alguma vez curvou um arco. Mas gosto das histórias de Ulmer. Alguém tem de escrevê-las e de colocá-las num livro.
— Faça você isso. Têm pergaminhos e tinta na Cidadela, e também têm arcos. Conto que continue com o seu treino. Sam, a Patrulha da Noite tem centenas de homens capazes de disparar uma seta, mas só uma mão cheia sabe ler ou escrever. Preciso que se torne no meu novo meistre.
— Senhor, eu… o meu trabalho é aqui, os livros…
—… ainda aqui estarão quando voltar para nós. Sam levou uma mão à garganta.
— Senhor, a Cidadela… lá nos obrigam a cortar cadáveres. Não posso usar uma corrente.
— Pode. Usará. O Meistre Aemon está velho e cego. As suas forças estão abandonando-o. Quem tomará o seu lugar quando morrer? O Meistre Mullin, da Torre Sombria, é mais guerreiro do que erudito, e o Meistre Harmune de Atalaialeste passa mais tempo bêbado do que sóbrio.
— Se pedir mais meistres à Cidadela…
— Tenciono pedir. Teremos falta de todos os que nos mandarem. Mas não é assim tão fácil substituir Aemon Targaryen. — Isto não está correndo como eu esperava. Sabia que Goiva seria difícil, mas partiu do princípio de que Sam ficaria contente por trocar os perigos da Muralha pelo calor deVilavelha. — Estava convencido de que isto te agradaria — disse, confundido. — Há tantos livros na Cidadela que ninguém pode ter a esperança de ler a todos. Dar-se-á bem por lá, Sam. Eu sei que sim.
— Não. Podia ler os livros, mas… um m-meistre tem de ser um curandeiro e o s-s-sangue me faz desmaiar. — A mão tremeu-lhe para demonstrar a verdade do que dizia. — Sou Sam, o Assustado, não Sam, o Matador.
— Assustado? Com quê? As censuras de velhos? Sam, tu viu as criaturas atacarem o Punho, uma maré de mortos-vivos com mãos negras e brilhantes olhos azuis. Matou um Outro.
— Foi o vidro de d-d-d-dragão, não fui eu.
— Cale-se — exclamou Jon. Depois de Goiva, não tinha paciência para os medos do gordo. — Mentiu, maquinou e conspirou para fazer de mim senhor comandante. Irá me obedecer. Irá para a Cidadela e forjará uma corrente, e se tiver de abrir cadáveres, que seja. Pelo menos em Vilavelha os cadáveres não levantarão objeções.
— O senhor meu p-p-p-pai, o Lorde Randyll, ele, ele, ele, ele, ele… a vida de um meistre é uma vida de servidão. Nenhum filho da Casa Tarly alguma vez usará uma corrente. Os homens de Monte Chifre não se dobram nem se vergam perante senhores insignificantes. Jon, não posso desobedecer ao meu pai.
Mata o rapaz, pensou Jon. O rapaz em ti, e o rapaz nele. Mata-os ambos, maldito bastardo.
— Tu não tem pai. Só irmãos. Só tem a nós. A sua vida pertence à Patrulha da Noite, por isso, vai enfiar a sua roupa num saco, com o que quer que queira levar para Vilavelha. Partirá uma hora antes do nascer do Sol. E eis outra ordem. Deste dia em diante, não se chamará de covarde. Enfrentou mais coisas neste último ano do que a maioria dos homens enfrenta no tempo de uma vida. Pode enfrentar a Cidadela, mas irá enfrentá-la como Irmão Juramentado da Patrulha da Noite. Não te posso ordenar que seja valente, mas posso ordenar-te que esconda os seus medos. Proferiu as palavras, Sam. Lembras-se?
— Eu… eu vou tentar.