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— Lorde Janos — Jon embainhou a espada. — Vou dar-lhe o comando de Guardagris.Aquilo surpreendeu Slynt.

— Guardagris… Guardagris foi onde subiu a Muralha com os seus amigos selvagens.

— Pois sim. O forte está num estado lastimável, admito. Irá restaurá-lo o melhor possível. Comece por desmatar a floresta junto à Muralha.Tire pedras das estruturas que ruíram para reparar as que continuam em pé. — O trabalho será duro e brutal, podia ter acrescentado. Vai dormir em cama de pedra, muito exausto para se queixar ou conspirar, e depressa se esquecerás de como era estar quente, mas pode ser que se lembre de como era ser um homem. — Terá trinta homens. Dez daqui, dez da Torre Sombria, e dez emprestados à Patrulha pelo Rei Stannis.

A cara de Slynt ficara da cor de uma ameixa. As suas papadas carnudas começaram a estremecer.

— Julga que eu não vejo o que estás fazendo? Janos Slynt não é homem para ser enganado assim tão facilmente. Fui encarregado da defesa de Porto Real quando você estava sujando as fraldas. Fica com a sua ruína, bastardo.

Estou a te dar uma hipótese, senhor. É mais do que dera ao meu pai.

— Está me compreendendo mal, senhor — disse Jon. — Aquilo foi uma ordem, não uma oferta. São quarenta léguas até Guardagris. Embale as armas e a armadura, faça as suas despedidas, e apronte-se para partir à primeira luz da aurora.

— Não. — O Lorde Janos pôs-se em pé de um salto, fazendo a cadeira cair para trás. — Eu não partirei docilmente para congelar e morrer. Nenhum bastardo de traidor dá ordens a Janos Slynt! Não sou desprovido de amigos, lhe aviso. Aqui, e também em Porto Real. Fui Senhor de Harrenhal! Dê a sua ruína a um dos idiotas cegos que depositaram uma pedra por ti, eu não a aceito. Está ouvindo-me, rapaz? Eu não a aceito!

— Aceitará.

Slynt não se dignou a responder aquilo e deu um pontapé para longe a cadeira ao partir.

Ainda me vê como um rapaz, pensou Jon, um rapazinho verde, intimidável por palavras zangadas. Só podia esperar que uma noite de sono trouxesse juízo ao Lorde Janos.

A manhã seguinte provou que essa esperança era vã.

Jon foi encontrar Slynt quebrando o jejum na sala comum. Sor Alliser Thorne estava com ele, bem como vários dos seus compinchas. Estavam rindo de qualquer coisa quando Jon desceu a escada com o Emmett de Ferro e o Edd Doloroso e, atrás, Mully, o Cavalo, o Jack Vermelho Crabb, RustyFlowers e o Owen Idiota. O Hobb Três-Dedos estava servindo conchadas de papas que tirava da panela. Homens da rainha, homens do rei e irmãos negros sentavam-se nas suas mesas separadas, alguns dobrados sobre tigelas de papas de aveia, outros enchendo as barrigas com pão frito e bacon. Jon viu Pyp e Grenn a uma mesa, Bowen Marsh a outra. O ar cheirava a fumo e gordura, e o tinir de facas e colheres ecoava no teto abobadado.

Todas as vozes morreram imediatamente.

— Lorde Janos — disse Jon — vou dar-lhe uma última chance. Pouse essa colher e vá aos estábulos. Mandei selar e ajaezar o seu cavalo. A estrada até Guardagris é longa e dura.

— Então é melhor por você a caminho, rapaz. — Slynt riu, fazendo pingar papas sobre o peito. — Estou aqui pensando que Guardagris é um bom lugar para gente como você. Bem longe das pessoas decentes e piedosas. Tem em você o sinal da besta, bastardo.

— Esta recusando obedecer à minha ordem?

— Pode enfiar a sua ordem no seu cu de bastardo — disse Slynt, com os queixos tremendo.

Alliser Thorne esboçou um fino sorriso, com os olhos negros fixos em Jon. Noutra mesa, o Godry Mata-Gigantes começou a rir.

— Como quiserdes. — Jon dirigiu um aceno ao Emmett de Ferro. —Por favor, leva o Lorde Janos para a Muralha…

… e confina-o a uma cela de gelo, poderia ele ter dito. Jon não duvidava de que um ou dez dias apertado dentro do gelo o deixaria tremendo, febril e suplicando libertação. E no momento em que sair, ele e Thorne recomeçarão a conspirar.

… e ata-o ao cavalo, poderia ele ter dito. Se Slynt não desejava ir para Guardagris como comandante, podia ir como cozinheiro. Mas então seria só uma questão de tempo até desertar. E quantos mais levaria consigo?

— … e enforque-o — concluiu Jon.

A cara de Janos Slynt ficou branca como leite. A colher deslizou-lhe de entre os dedos. Edd e Emmett atravessaram a sala, fazendo ressoar os passos no chão de pedra. A boca de Bowen Marsh abriu-se e se fechou, embora nenhuma palavra tivesse saído. Sor Alliser Thorne estendeu a mão para o cabo da espada. Continua, pensou Jon. Tinha Garralonga a tiracolo. Mostra o seu aço. Dá-me um motivo para fazer o mesmo.

Metade dos homens no salão estava de pé. Cavaleiros e homens-de-armas sulistas, leais do Rei Stannis ou à mulher vermelha ou a ambos, e Irmãos Juramentados da Patrulha da Noite. Alguns tinham escolhido Jon para ser o seu senhor comandante. Outros tinham depositado pedras por Bowen Marsh, por Sor Denys Mallister, por Cotter Pyke… e alguns por Janos Slynt. Centenas deles, se bem me lembro. Jon se perguntou quantos desses homens estariam na adega naquela altura. Por um momento, o mundo equilibrou-se no gume de uma espada.

Alliser Thorne tirou a mão da espada e afastou-se para deixar Edd Tollett passar.

O Edd Doloroso pegou em Slynt por um braço, o Emmett de Ferro pelo outro. Juntos içaram-no do banco.

— Não — protestou o Lorde Janos, com salpicos de papas de aveia voando dos lábios. — Não, largue-me. Ele é só um rapaz, um bastardo. O pai era um traidor. Tem nele o sinal da besta, aquele seu lobo… Largue-me! Vão se arrepender do dia em que puseram as mãos em Janos Slynt. Tenho amigos em Porto Real. Aviso-vos… — Ainda estava protestando quando o levaram, meio andando, meio arrastado, pelos degraus acima.

Jon seguiu-os até lá fora. Atrás de si, a cave esvaziou-se. Junto da gaiola, Slynt conseguiu soltar-se por um momento e tentou fugir, mas o Emmett de Ferro agarrou-o pela garganta e atirou-o contra as barras de ferro até que ele desistiu. Por essa altura, todo o Castelo Negro tinha vindo para fora a fim de assistir. Até Val estava à sua janela, com a longa trança dourada por sobre um ombro. Stannis estava em pé nos degraus da Torre do Rei, rodeado pelos seus cavaleiros.

— Se o rapaz julga que consegue assustar-me, está enganado — ouviram Lorde Janos dizer. — Ele não se atreverá a enforcar-me. Janos Slynt tem amigos, amigos importantes, verão… — O vento varreu o resto das suas palavras.

Isto está mal, pensou Jon.

— Pare. Emmett virou-se para trás, franzindo o sobrolho.

— Senhor?

— Não o quero enforcar — disse Jon. — Traga-o para aqui.

— Oh, que os Sete nos salvem — ouviu Bowen Marsh gritar.

O sorriso que o Lorde Janos Slynt fez então tinha toda a doçura de manteiga rançosa. Até que Jon disse:

— Edd, traga-me um cepo — e desembainhou Garralonga.

Durante o tempo que demoraram para encontrar um cepo adequado, o Lorde Janos foi recuando até se enfiar na gaiola do guincho, mas Emmett de Ferro entrou atrás dele e arrastou-o para fora.