Talvez algum lorde com mel na língua pudesse ter feito o príncipe pirata liseno mudar de ideia, mas Davos era um cavaleiro de cebolas e as suas palavras só tinham levado Salla a nova indignação.
— Em Pedra do Dragão tive paciência — dissera — quando a mulher vermelha queimou deuses de madeira e homens aos gritos. Ao longo de todo o caminho até à Muralha, tive paciência. Em Atalaialeste, tive paciência e frio, tanto frio. Bah, digo eu. Bah para a tua paciência, e bah para o seu rei. Os meus homens têm fome. Estão desejando voltar a foder as mulheres, contar os filhos, ver os Degraus e os jardins de prazer de Lys. Gelo e tempestades e promessas vazias, isto não estão desejando. Este norte é frio demais, e está ficando mais frio.
Eu sabia que este dia chegaria, pensou Davos. Gostava do velho patife, mas nunca fui suficientemente tolo para confiar nele.
— Tempestades. — O Lorde Godric pronunciou a palavra com tanto carinho como outro homem poderia pronunciar o nome da sua amante. — As tempestades já eram sagradas nas Irmãs antes da chegada dos ândalos. Os nossos deuses de antigamente eram a Senhora das Ondas e o Senhor dos Céus. Faziam tempestades sempre que acasalavam. — Inclinou-se para frente. — Esses reis nunca se incomodam com as Irmãs. Porque haveriam de se incomodar? Somos pequenos e pobres. E, no entanto, está aqui. Entregue em minhas mãos pelas tempestades.
Entregue a ti por um amigo, pensou Davos.
O Lorde Godric virou-se para o seu capitão.
— Deixa este homem comigo. Ele nunca esteve aqui. — Não, senhor. Nunca. — O capitão retirou-se, deixando com as botas molhadas pegadas úmidas no tapete. Por baixo do chão, o mar estava rumorejante e desassossegado, arremetendo contra os pés do castelo. A porta exterior fechou-se com um som que era como um trovão distante, e de novo surgiu o relâmpago, como que em resposta.
— Senhor — disse Davos — se me enviar para Porto Branco, Sua Graça contaria tal ato como um ato de amizade.
— Podia enviar-vos para Porto Branco — concedeu o senhor. — Ou então podia enviar-vos para qualquer inferno úmido e frio.
Vilirmãs é inferno que chegue. Davos temeu o pior. As Três Irmãs eram umas cabras volúveis, leais apenas a si mesmas. Supostamente, estavam juramentadas aos Arryn do Vale, mas o domínio do Ninho de Águia sobre as ilhas era no máximo tênue.
— Sunderland quereria que eu o entregasse, se soubesse de tí. — Os Borrell recebiam vassalagem da Irmã Doce, tal como os Longthorpe da Irmã Longa e os Torrent da Irmã Pequena; todos estavam juramentados a Triston Sunderland, o Senhor das Três Irmãs. — O venderia à rainha, por um pote daquele ouro Lannister. O pobre do homem precisa de cada dragão, com sete filhos todos decididos a serem cavaleiros. — O lorde pegou numa colher de pau e voltou a atacar o estufado. — Eu costumava amaldiçoar os deuses que só me deram filhas, até ouvir Triston lamentar o custo de cavalos de guerra. Ficaria surpreendido por saber quantos peixes são precisos para comprar um conjunto decente de armadura de placas de aço e cota de malha.
— Eu também tive sete filhos, mas quatro estão queimados e mortos.
— O Lorde Sunderland está juramentado ao Ninho de Águia — disse Davos. — Pelo direito, devia entregar-me à Senhora Arryn. — Julgava que teria melhores hipóteses com ela do que com os Lannister. Embora não tivesse participado na Guerra dos Cinco Reis, Lysa Arryn era filha de Correrrio e tia do Jovem Lobo.
— Lysa Arryn está morta — disse o Lorde Godric — assassinada por um cantor qualquer. Quem governa agora o vale é o Lorde Mindinho. Onde estão os piratas? — quando Davos não respondeu, deu uma pancada na mesa com a colher. — Os lisenos. O Torrent viu-lhes as velas da Irmã Pequena, e antes dele os Flint também as viram da Atalaia da Viúva. Velas cor de laranja, verdes e cor-de-rosa. Salladhor Saan. Onde está ele?
— No mar. — Salla deveria estar velejando em volta dos Dedos e ao longo do mar estreito. Ia regressar aos Degraus com os poucos navios que lhe restavam. Talvez adquirisse mais alguns no caminho, se deparasse com mercadores promissores. Um pouco de pirataria para ajudar as léguas a passar. — Sua Graça mandou-o para sul, para incomodar os Lannister e os seus amigos. — A mentira tinha sido ensaiada, enquanto remava através da chuva na direção de Vilirmãs. Mais tarde ou mais cedo, o mundo ficaria sabendo que Salladhor Saan abandonara Stannis Baratheon, deixando-o sem frota, mas não o ouviria dos lábios de Davos Seaworth.
O Lorde Godric mexeu o estofado.
— Esse velho pirata do Saan o obrigou a nadar até à costa?
— Vim para terra num bote, senhor. — Salla esperara até que o feixe da Lâmpada da Noite brilhasse a bombordo da proa da Valiriana antes de o pôr fora do navio. A amizade entre ambos, pelo menos, valera isso. Reconhecia que o liseno o teria levado de bom grado para sul com ele, mas Davos recusara. Stannis precisava de Wyman Manderly, e confiara nele para conquistá-lo. Dissera a Salla que não trairia essa confiança.
— Bah — respondera o príncipe pirata — ele vai matar-te com essas honrarias, velho amigo. Ele vai matar-te.
— Nunca antes tinha tido um Mão do Rei debaixo do meu teto — disse Lorde Godric. — Me pergunto se Stannis o resgataria.
Resgataria? Stannis dera a Davos terras, títulos e cargos, mas pagaria bom ouro para comprar a sua vida de volta? Ele não tem ouro. Se tivesse ainda teria o Salla.
— Encontrará Sua Graça em Castelo Negro, se quiser lhe perguntar isso.
Borrell soltou um grunhido. — O Duende também está em Castelo Negro?
— O Duende? — Davos não compreendeu a pergunta. — O Duende está em Porto Real, condenado a morrer pelo assassinato do sobrinho.
— O meu pai costumava dizer que a Muralha é a última a saber. O anão fugiu. Enfiou-se por entre as barras da sua cela e rasgou o pai em pedaços com as mãos nuas. Um guarda o viu fugir, vermelho dos pés à cabeça, como se tivesse tomado banho em sangue. A rainha fará um senhor de qualquer homem que o mate.
Davos lutou por acreditar naquilo que estava ouvindo.
— Está a me dizer que Tywin Lannister está morto?
— Está me dizendo que Tywin Lannister está morto?
— Pelas mãos do filho, pois sim. — O senhor bebeu um gole de cerveja. — Quando havia reis nas Irmãs não tolerávamos que anões sobrevivessem. Atirávamo-los todos ao mar, como oferenda aos deuses. Os septões nos fizeram parar com isso. Uma matilha de idiotas piedosos. Porque haveriam os deuses de dar uma tal forma a um homem, se não fosse para o identificar como monstro?
O Lorde Tywin morto. Isto muda tudo.
— Senhor, me dá licença para enviar um corvo para a Muralha? Sua Graça vai querer saber da morte do Lorde Tywin.
— Ele saberá. Mas não por mim. Nem por você, enquanto estiver aqui debaixo do meu telhado esburacado. Não quero que se diga que dei a Stannis ajuda e conselhos. Os Sunderland arrastaram as Irmãs para duas das rebeliões Blackfyre, e todos sofremos bastante com isso. — O Lorde Godric indicou uma cadeira com um aceno de colher. — Sente-se. Antes que caia, sor. O meu salão é frio, úmido e escuro, mas não é desprovido de alguma cortesia. Arranjaremos roupa seca, mas primeiro comerá. — Soltou um grito e uma mulher entrou no salão. — Temos um hóspede para alimentar. Traz cerveja, pão e estufado das irmãs.