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— Tenho de chegar a Porto Branco — disse. — Senhor, suplico-lhe, ajude-me.

O Lorde Godric começou a comer o trincho, partindo-o com as grandes mãos. O estufado amolecera o pão duro.

— Não sinto amor nenhum por nortenhos — anunciou. — Os meistres dizem que a Violação das Três Irmãs foi há mil anos, mas Vilirmãs não esqueceu. Antes disso éramos um povo livre, com os nossos reis a nos governar. Depois, tivemos de dobrar os joelhos ao Ninho de Águia para expulsar os nortenhos. O lobo e o falcão levaram mil anos lutando por nós até, entre os dois, terem roído toda a gordura e a carne de cima dos ossos destas pobres ilhas. Quanto ao seu Rei Stannis, quando foi mestre dos navios de Robert enviou uma frota para o meu porto sem a minha licença, e obrigou-me a enforcar uma dúzia de bons amigos. Homens como você. Chegou ao ponto de ameaçar enforcar a mim se encalhasse algum navio à costa por a Lâmpada da Noite se ter apagado. Tive de engolir a arrogância dele. — Comeu um pouco do trincho. — Agora vem para norte rebaixado, com o rabo entre as pernas. Porque haveria de lhe prestar alguma assistência? Respondei-me a isto.

Porque é o seu legítimo rei, pensou Davos. Porque é um homem forte e justo; o único homem que pode recuperar o reino e defendê-lo contra o perigo que se reúne a norte. Porque tem uma espada mágica que brilha com a luz do sol. As palavras ficaram-lhe presas na garganta. Nenhuma delas faria o Senhor da Irmã Doce mudar de idéia. Nenhuma o colocaria dez centímetros mais próximo de Porto Branco. Que resposta quer ele? Terei de lhe prometer ouro que não temos? Um marido bem nascido para a filha da filha? Terras, honrarias, títulos? O Lorde Alester Florent tentara jogar esse jogo, e o rei queimara-o por isso.

— A Mão perdeu a língua, parece. Ou não gosta do estufado das irmãs ou da verdade. — O Lorde Godric limpou a boca.

— O leão está morto — disse Davos, lentamente. — Aí tem a sua verdade, senhor. Tywin Lannister está morto.

— E se estiver?

— Quem governa agora em Porto Real? Tommen não é, ele não passa de uma criança. É Sor Kevan?

A luz das velas cintilou nos olhos negros do Lorde Godric.

— Se fosse, estaria acorrentado. Quem governa é a rainha.

Davos compreendeu. Ele alimenta dúvidas. Não quer dar por si do lado perdedor.

— Stannis defendeu Ponta Tempestade contra os Tyrell e os Redwyne. Tomou Pedra do Dragão aos últimos Targaryen. Esmagou a Frota de Ferro ao largo da Ilha Bela. Esta criança rei não prevalecerá contra ele.

— Esta criança rei controla a riqueza do Rochedo Casterly e o poder de Jardim de Cima. Tem os Bolton e os Frey. — O Lorde Godric esfregou o queixo. — Mesmo assim... Neste mundo só o inverno é certo. Ned Stark disse isso ao meu pai, precisamente aqui neste salão.

— Ned Stark esteve aqui?

— Na aurora da Rebelião de Robert. O Rei Louco tinha enviado uma mensagem ao Ninho de Águia exigindo a cabeça do Stark, mas Jon Arryn enviou-lhe o desafio em resposta. Mas Vila Gaivota permaneceu leal ao trono. Para chegar a casa e convocar os vassalos, o Stark teve de atravessar as montanhas até aos Dedos e arranjar um pescador que o levasse para o outro lado da Dentada. Uma tempestade apanhou-os no caminho. O pescador afogou-se, mas a filha fez o Stark chegar às Irmãs antes de o barco ir ao fundo. Diz-se que ele a deixou com um saco de prata e um bastardo na barriga. A moça chamou-lhe Jon Snow, em homenagem ao Arryn.

— Mas adiante. O meu pai estava sentado onde eu estou agora quando o Lorde Eddard veio a Vilirmãs. O nosso meistre incentivou-nos a enviar a Aerys a cabeça do Stark, para provar a nossa lealdade. Isso teria implicado uma rica recompensa. O Rei Louco era generoso com aqueles que lhe agradavam. Mas por essa altura já sabíamos que Jon Arryn tinha tomado Vila Gaivotas. Robert foi o primeiro homem a ultrapassar a muralha, e matou Marq Grafton com as próprias mãos. Este Baratheon é destemido, disse eu. Combate como um rei deve combater. O nosso meistre riu-se de mim e disse-nos que o Príncipe Rhaegar ia com certeza derrotar aquele rebelde. Foi então que o Stark disse: Neste mundo só o inverno é certo. Podemos perder as cabeças, é verdade... Mas e se prevalecermos? O meu pai mandou-o embora ainda com a cabeça sobre os ombros. Se perderdes, disse ao Lorde Eddard, Nunca estiveste aqui.

—Tal como eu nunca estive — disse Davos Seaworth.

JON

Trouxeram o Rei-para-lá-da-Muralha com as mãos atadas por corda de cânhamo e um laço em volta do pescoço.

A outra ponta da corda estava enrolada em volta do grande arção da sela do corcel de Sor Godry Farring. Mata-Gigantes e a sua montaria estavam couraçados de aço prateado com embutidos de nigelo. Mance Rayder usava apenas uma túnica fina que lhe deixava os membros expostos ao frio. Podiam ter deixado que ficasse com o manto, pensou Jon Snow, aquele que a mulher selvagem remendou com faixas de seda carmesim.

Pouco admirava que a Muralha estivesse chorando.

— Mance conhece melhor a floresta assombrada do que qualquer patrulheiro — disse Jon ao Rei Stannis, num último esforço para convencer Sua Graça de que o Rei-para-lá-da-Muralha lhes seria mais útil vivo do que morto. — Ele conhece Tormund Terror dos Gigantes. Combaseu os Outros. E tinha o Corno de Joramun e não o soprou. Não derrubou a Muralha quando podia tê-lo feito.

As suas palavras caíram em orelhas moucas. Stannis permanecera inabalável. A lei era simples; a vida de um desertor estava perdida.

Por baixo da Muralha chorosa, a Senhora Melisandre ergueu as pálidas mãos brancas.

— Todos temos de escolher — proclamou. — Homem ou mulher, jovem ou velho, senhor ou camponês, as nossas escolhas são as mesmas. — A voz dela fazia Jon Snow pensar em anis, noz-moscada e cravinho. Estava ao lado do rei em cima de um patíbulo de madeira erguido acima do fosso. — Ou escolhemos a luz ou escolhemos a escuridão. Ou escolhemos o bem ou escolhemos o mal. Ou escolhemos o deus verdadeiro ou o falso.

O espesso cabelo castanho-acinzentado de Mance Rayder soprou em volta do rosto enquanto caminhava. Afastou-o dos olhos com ambas as mãos, sorrindo. Mas quando viu a gaiola, a coragem falhou-lhe. Os homens da rainha tinham-na feito com as árvores da floresta assombrada, com árvores jovens e ramos flexíveis, com galhos de pinheiro pegajosos de seiva, e com os dedos brancos como ossos dos represeiros. Tinham-nos dobrado e torcido em volta e através uns dos outros a fim de tecer um gradeado de madeira, e depois tinham-no pendurado bem alto por cima de um profundo fosso cheio de madeiros, folhas e gravetos.

O rei selvagem recuou ao ver aquilo.

— Não — gritou — misericórdia. Isto não está certo, eu não sou o rei, eles...

Sor Godry deu um puxão à corda. O Rei-para-lá-da-Muralha não teve alternativa a não ser tropeçar atrás dele, com a corda estrangulando-lhe as palavras. Quando perdeu o apoio dos pés, Godry o arrastou pelo resto do caminho. Mance estava ensanguentado quando os homens da rainha o enfiaram na gaiola, em parte empurrando-o, em parte carregando com ele. Uma dúzia de homens-de-armas esforçou-se para içá-lo no ar.

A Senhora Melisandre viu-o subir.

— POVO LIVRE! Aqui está o seu rei de mentiras. E aqui está o corno que ele promeseu que derrubaria a Muralha. — Dois dos homens da rainha apresentaram o Corno de Joramun, negro e reforçado com ouro antigo, com dois metros e meio de ponta a ponta. Estavam esculpidas runas nas faixas de ouro, a escrita dos Primeiros Homens. Joramun morrera havia milhares de anos, mas Mance encontrara a sua sepultura sob um glaciar, no alto dos Colmilhos de Gelo. E Joramun soprou o Corno do Inverno e despertou gigantes da terra. Ygritte dissera a Jon que Mance não chegara a encontrar o corno. Ela mentiu, ou então Mance manteve o fato em segredo mesmo para com os seus.