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Mil cativos observaram através das barras de madeira da paliçada quando o corno foi erguido bem alto. Todos estavam esfarrapados e meio mortos de fome. Selvagens eram como os Sete Reinos lhes chamavam; eles chamavam a si próprios o povo livre. Não pareciam nem selvagens nem livres; só esfomeados, assustados, entorpecidos.

— O Corno de Joramun? — disse Melisandre. — Não. Chame-lhe o Corno das Trevas. Se a Muralha cair, a noite também cai, a longa noite que nunca termina. Isso não pode acontecer, não irá acontecer! O Senhor da Luz viu os seus filhos em perigo e enviou-lhes um campeão, Azor Ahai renascido. — Apontou com uma mão para Stannis e o grande rubi que trazia à garganta pulsou de luz.

Ele é pedra e ela é fogo. Os olhos do rei eram pisaduras azuis, profundamente afundadas numa cara encovada. Usava placa de aço cinzenta, com um manto de pano de ouro forrado de peles a escorrer dos largos ombros. A placa de peito tinha um coração flamejante embutido por cima do seu. Cingindo-lhe a testa encontrava-se uma coroa de ouro avermelhado com pontas que eram como chamas retorcidas. Val estava a seu lado, alta e bonita. Tinham-na coroado com um simples aro de bronze escuro, mas a mulher parecia mais régia com bronze do que Stannis com ouro. Os seus olhos eram cinzentos e destemidos, firmes. Sob um manto de arminho, usava branco e dourado. O cabelo louro como mel tinha sido preso numa grossa trança que lhe pendia por cima do ombro e descia até à cintura. O frio do ar pusera-lhe cor nas bochechas.

A Senhora Melisandre não usava coroa, mas todos os homens ali presentes sabiam que era a verdadeira rainha de Stannis Baratheon, em vez da feia mulher que ele deixara tremendo em Atalaialeste-do-Mar. Segundo se dizia, o rei não pretendia mandar buscar a Rainha Selyse e a filha de ambos até que Fortenoite ficasse pronto a habitar. Jon sentiu pena delas. A Muralha oferecia poucos dos confortos a que as senhoras do sul e as meninas bem nascidas estavam acostumadas, e Fortenoite não oferecia nenhum. Esse era um lugar sombrio, mesmo no melhor dos tempos.

— POVO LIVRE! — gritou Melisandre. — Contemple o destino daqueles que escolhem as trevas!

O Corno de Joramun rebentou em chamas.

Incendiou-se com um uuuch quando línguas rodopiantes de fogo verde e amarelo saltaram crepitando ao longo de todo o seu comprimento. O garrano de Jon recuou nervosamente, e ao longo das fileiras outros lutaram também por acalmar as montadas. Um gemido ergueu-se da paliçada quando o povo livre viu a sua esperança em chamas. Alguns começaram a gritar e a praguejar, mas a maioria ficou em silêncio. Durante meio segundo as runas gravadas nas faixas de ouro pareceram brilhar no ar. Os homens da rainha deram um balanço e atiraram o corno, rodopiando, para dentro do fosso.

Dentro da gaiola, Mance Rayder esgatanhou o laço em volta da garganta com as mãos atadas e soltou gritos incoerentes sobre traições e bruxarias, negando a sua condição de rei, renegando o seu povo, negando o seu nome, renegando tudo o que alguma vez fora. Guinchou por misericórdia, amaldiçoou a mulher vermelha e desatou a rir histericamente.

Jon observou sem pestanejar. Não se atrevia a parecer muito escrupuloso perante os seus irmãos. Ordenara a saída de duzentos homens, mais de metade da guarnição de Castelo Negro. Montados em solenes fileiras de negro com grandes lanças nas mãos, tinham erguido os capuzes para ocultar os rostos... E esconder o fato de tantos deles serem homens grisalhos ou inexperientes. O povo livre temia a Patrulha. Jon queria que levassem com eles esse medo para os seus novos lares a sul da Muralha.

O corno colidiu com o madeiramento, as folhas e os gravetos. Três segundos depois, todo o fosso estava em chamas. Agarrando-se às barras da gaiola com ambas as mãos, Mance soluçou e suplicou. Quando o fogo o atingiu fez uma pequena dança. Os seus gritos transformaram-se num longo guincho inarticulado de medo e dor. Esvoaçou no interior da sua gaiola como uma folha incendiada, uma traça apanhada na chama de uma vela.

Jon deu por si a se lembrar de uma canção.

"Irmãos, oh irmãos, os meus dias estão no fim,

o dornês minha vida desfez,

Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer;

e eu provei a mulher do dornês/"

Val mantinha-se de pé na plataforma, tão imóvel como se tivesse sido esculpida em sal. Ela não irá chorar nem irá desviar o olhar. Jon perguntou-se o que Ygritte teria feito no seu lugar. Fortes são as mulheres. Deu por pensar em Sam e no Meistre Aemon, em Goiva e no bebê. Ela vai me amaldiçoar com o seu último fôlego, mas eu vi que não havia outra maneira. Atalaialeste relatara tempestades violentas no mar estreito. Queria mante-los a salvo. Terei em vez disso dado eles de comer aos caranguejos? Na noite anterior sonhara com Sam se afogando, com Ygritte morrendo com a sua seta nela espetada (a seta não foi sua, mas nos seus sonhos era sempre), com Goiva chorando lágrimas de sangue.

Jon Snow viu o suficiente.

— Agora — disse.

O Ulmer da Mata Real espetou a lança no chão, pegou no arco que trazia a tiracolo e tirou da aljava uma seta negra. O Doce Donnel Hill atirou o capuz para trás para fazer o mesmo. Garth Greyfeather e o Ben Barbudo encaixaram setas, dobraram os arcos e largaram.

Uma seta atingiu Mance Rayder no peito, uma na barriga, uma na garganta. A quarta espetou-se numa das barras de madeira da gaiola e estremeceu por um instante antes de pegar fogo. Os soluços de uma mulher ecoaram na Muralha quando o rei selvagem deslizou sem forças para o chão da gaiola, engrinaldado de fogo.

— E agora a sua vigia está feita — murmurou Jon suavemente. Mance Rayder foi em tempos um homem da Patrulha da Noite, antes de trocar o manto negro por um manto cortado de brilhante seda vermelha.

Em cima da plataforma, Stannis estava com o aspecto carrancudo. Jon recusou-se a olhá-lo nos olhos. O fundo da gaiola de madeira caíra, e as barras estavam se desfazendo. De todas as vezes que o fogo saltava para o alto, mais ramos se libertavam, vermelhos-cereja e negros.

— O Senhor da Luz fez o Sol, a Lua e as estrelas para iluminar o nosso caminho e deu-nos o fogo para manter a noite afastada — disse Melisandre aos selvagens. — Ninguém pode suportar as suas chamas.

— Ninguém pode suportar as suas chamas — ecoaram os homens da rainha.

As vestes de profundo escarlate da mulher vermelha rodopiaram em volta dela, e o seu cabelo de cobre criou um halo em volta do rosto. Altas chamas amarelas dançaram das pontas dos seus dedos como garras.

— POVO LIVRE! Os seus falsos deuses não podem ajuda-los. O seu falso corno só os trouxe morte, desespero, derrota... Mas aqui está o verdadeiro rei. CONTEMPLAI A SUA GLÓRIA!

Stannis Baratheon puxou pela Luminífera.

A espada brilhou rubra, amarela e laranja, viva de luz. Jon já antes vira o espetáculo... Mas não assim, nunca antes assim. A Luminífera era o sol feito aço. Quando Stannis ergueu a lâmina acima da cabeça, os homens tiveram de virar as cabeças para tapar os olhos. Cavalos assustaram-se, e um derrubou o cavaleiro. O incêndio no fosso pareceu encolher-se perante aquela tempestade de luz, como um cão pequeno a retrair-se perante outro maior. A própria Muralha tornou-se vermelha, rósea e laranja quando ondas de cor dançaram pelo gelo fora.