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Duas vintenas de cativos permaneciam junto da paliçada. Quatro gigantes estavam entre eles, criaturas monumentais e peludas com ombros inclinados, pernas tão grandes como troncos de árvore, e enormes pés chatos. Apesar de serem tão grandes, talvez ainda conseguissem atravessar a Muralha, mas um deles não queria abandonar o seu mamute e os outros não queriam deixá-lo. Os outros que permaneciam eram todos de estatura humana. Alguns estavam mortos e alguns moribundos; mais eram familiares ou companheiros próximos daqueles, nada dispostos a abandoná-los mesmo que em troca de uma tigela de sopa de cebolas.

Alguns tremendo, outros muito entorpecidos para tremer, escutaram quando a voz do rei ecoou na Muralha, trovejante.

— São livres de partir — disse-lhes Stannis. — Conte ao seu povo o que testemunharam. Conte-lhes que viram o verdadeiro rei, e que são bem-vindos ao seu reino, desde que mantenham a paz. Se assim não for, é melhor que fujam ou se escondam. Não tolerarei mais ataques contra a minha Muralha.

— Um reino, um deus} um rei! — gritou a Senhora Melisandre.

Os homens da rainha repetiram o grito, batendo com os cabos das lanças nos escudos.

—Um reino, um deus, um rei! STANNIS! STANNIS! UM REINO, UM DEUS, UM REI!

Jon reparou que Val não se juntara ao cântico. Nem os irmãos da Patrulha da Noite. Durante o tumulto, os poucos selvagens que restavam dissolveram-se entre as árvores. Os gigantes foram os últimos a partir, dois montados sobre o dorso do mamute, os outros dois a pé. Só os mortos foram deixados para trás. Jon viu Stannis descer da plataforma, com Melisandre a seu lado. A sua sombra vermelha. Nunca sai do seu lado durante muito tempo. A guarda de honra do rei tomou posições à volta deles; Sor Godry, Sor Clayton e uma dúzia de outros cavaleiros, todos homens da rainha. O luar cintilou nas suas armaduras e o vento sacudiu-lhes os mantos.

— Senhor Intendente — disse Jon a Marsh — quebre aquela paliçada, use-a para lenha e atire os cadáveres às chamas.

— Às ordens, senhor. — Marsh ladrou ordens, e um enxame dos seus intendentes abandonou as fileiras para atacar as muralhas de madeira. O Senhor Intendente observou-os, franzindo o semblante. — Aqueles selvagens... acha que vão cumprir o prometido, senhor?

— Alguns cumprirão. Todos não. Nós temos os nossos covardes e os nossos velhacos, os nossos fracotes e os nossos idiotas, tal como eles os têm.

— Os nossos votos... Juramos proteger o reino...

— Depois do povo livre se instalar na Dádiva, se tornarão parte do reino — fez Jon notar. — Vivemos dias desesperados, e que provavelmente se tornarão mais desesperados. Vimos o rosto do nosso verdadeiro inimigo, um rosto morto e branco com brilhantes olhos azuis. O povo livre também viu esse rosto. Stannis não está errado nisto. Temos de fazer causa comum com os selvagens.

— Causa comum contra um inimigo comum, eu podia concordar com isso — disse Bowen Marsh. — Mas isso não quer dizer que devamos deixar que dezenas de milhares de bárbaros meio mortos de fome atravessem a Muralha. Eles que voltem para as suas aldeias e combatam lá os Outros, enquanto nós selamos os portões. Não será difícil, segundo Othell me diz. Só precisamos encher os túneis com pedra e de despejar água pelos alçapões. A Muralha faz o resto. O frio, o peso... Numa volta de Lua seria como se nunca nenhum portão tivesse existido. Qualquer inimigo teria de abrir caminho à machadada.

— Ou de trepar.

— Improvável — disse Bowen Marsh. — Estes homens não são salteadores, tentando roubar uma mulher e algum saque. Tormund terá consigo velhas, crianças, rebanhos de ovelhas e cabras, até mamutes. Precisa de um portão e só restam três. E se enviasse trepadores, bem, nos defender contra trepadores é tão simples como aguilhoar peixes numa panela.

Os peixes nunca trepam para fora da panela nem te espetam uma lança na barriga. O próprio Jon trepara a Muralha.

Marsh prosseguiu.

— Os arqueiros de Mance Rayder devem ter disparado dez mil setas contra nós, ajuizando pelo número de hastes que recolhemos. Foram menos de cem as que chegaram aos nossos homens no topo da Muralha, a maioria das quais elevadas por uma rajada casual de vento. O Alyn Vermelho da Mata de Rosas foi o único homem a morrer lá em cima e foi a queda que o matou, não a seta que lhe atingiu a perna. Donal Noye morreu defendendo o portão. Um ato galante, sim... Mas se o portão tivesse estado selado, o nosso corajoso amieiro podia ainda estar entre nós. Quer enfrentemos cem inimigos quer cem mil, desde que estejamos no topo da Muralha, e eles lá em baixo, não nos podem fazer mal.

Ele não está errado. A hoste de Mance Rayder quebrara-se contra a Muralha como uma onda numa costa pedregosa, embora os defensores não fossem mais do que um punhado de velhos, rapazes inexperientes e aleijados. Mas o que Bowen estava sugerindo contrariava todos os instintos de Jon.

— Se selarmos os portões não podemos enviar patrulheiros — fez notar. — Estaremos, na prática, cegos.

— A última patrulha do Lorde Mormont custou à Patrulha um quarto dos seus homens, senhor. Precisamos conservar as forças que nos restam. Todas as mortes nos diminuem, e estamos já tão no limite... Ocupar o terreno elevado e vencer a batalha, como o meu tio costumava dizer. Não há terreno mais elevado do que a Muralha, senhor comandante.

— Stannis promete terras, comida e justiça a todos os selvagens que dobrem o joelho. Nunca nos permitiria selar os portões.

Marsh hesitou.

— Lorde Snow, não sou homem para contar histórias, mas tern-se andado a dizer que você está tornando-se muito... Muito amigável com o Lorde Stannis. Alguns sugerem mesmo que é... Um...

Um rebelde e um vira-casaca, pois, e, além disso, um bastardo e um warg. Janos Slynt podia ter morrido, mas as suas mentiras sobreviviam.

— Eu sei o que eles dizem. — Jon ouvira os murmúrios, vira homens virar-lhe as costas quando atravessava o pátio. — O que querem eles que eu faça, que pegue em armas tanto contra Stannis como contra os selvagens? Sua Graça tem o triplo de combatentes que nós temos, e além disso é nosso hóspede. As leis da hospitalidade protegem-no. E temos uma dívida para com ele e os seus.

— O Lorde Stannis ajudou-nos quando precisamos de ajuda — disse Marsh, obstinado — mas continua a ser um rebelde, e a sua causa está condenada. Tão condenada como nós estaremos, se o Trono de Ferro nos marcar como traidores. Temos de nos assegurarmos de que não escolhemos o lado perdedor.

— Não é minha intenção escolher nenhum lado — disse Jon — mas não estou tão certo do resultado desta guerra como você parece estar, senhor. Especialmente com o Lorde Tywin morto.

— Se era possível crer nas histórias que subiam a estrada de rei, o Mão do Rei foi assassinado pelo filho anão enquanto estava sentado numa latrina. Jon conheceu brevemente Tyrion Lannister. Ele pegou-me na mão e chamou-me amigo. Era difícil acreditar que o homenzinho tivesse em si o necessário para assassinar o próprio pai, mas o falecimento do Lorde Tywin parecia estar fora de dúvida. — O leão em Porto Real não passa de uma cria e o Trono de Ferro é conhecido por fazer adultos em tiras.

— Ele pode ser um rapaz, senhor, mas... O Rei Robert era bem amado, e a maior parte dos homens ainda aceita que Tommen é seu filho. Quanto mais vêem o Lorde Stannis menos gostam dele, e são menos ainda os que têm simpatia pela Senhora Melisandre com as suas fogueiras e este seu severo Deus Vermelho.