— Dê-os ao Tolarrapada. — Skahaz, nos mantém separados uns dos outros e interroge-os.
— Será feito, Vossa Reverência. Quer que os interrogue suavemente ou com dureza?
— Suavemente, para começar. Ouve as histórias que eles contam e que nomes lhe fornecem. Pode ser que não tenham desempenhado nenhum papel nisto. — Hesitou. — O nobre Reznak disse nove. Quem mais?
— Três libertos, assassinados em suas casas — disse o Tolarrapada. — Um prestamista, um sapateiro e a harpista Rylona Rhee. Cortaram-lhe os dedos antes de a matarem.
A rainha estremeceu. Rylona Rhee tocara harpa tão docemente como a Donzela. Quando fora escrava em Yunkai, tocara para todas as famílias bem-nascidas da cidade. Em Meereen tornara-se uma líder entre os libertos de Yunkai, a voz deles nos conselhos de Dany.
— Não temos cativos além desse vendedor de vinho?
— Nenhum, dói a este confessar. Pedimos-vos perdão.
Misericórdia, pensou Dany. Eles terão a misericórdia do dragão.
— Skahaz, mudei de ideias. Interroga o homem com dureza.
— Podia fazê-lo. Ou podia interrogar as filhas com dureza enquanto o pai vê. Isso iria arrancar-lhe alguns nomes.
— Faz o que achar melhor, mas traga-me nomes. — A sua fúria era um fogo na barriga. — Não quero mais Imaculados massacrados. — Verme Cinzento, recolhe os seus homens nas casernas. De hoje em diante, eles que guardem as minhas muralhas, os meus portões e a minha pessoa. Deste dia em diante, caberá aos meereeneses manter a paz em Meereen. Skahaz, cria-me uma nova patrulha, composta em partes iguais de tolarrapadas e libertos.
— Às suas ordens. Quantos homens?
— Tantos quantos julgue necessário.
Reznak mo Reznak soltou um arquejo.
— Magnificência, de onde virá o dinheiro para pagar salários a tantos homens?
— Das pirâmides. Chame-lhes um imposto de sangue. Quero cem peças de ouro de cada pirâmide por cada liberto que os Filhos da Harpia mataram.
— Aquilo trouxe um sorriso à cara do Tolarrapada.
— Assim será feito — disse — mas Vossa Radiância deve saber que os Grandes Mestres de Zhak e Merreq estão fazendo preparativos para abandonar as suas pirâmides e sair da cidade.
Daenerys estava mortalmente farta de Zhak e Merreq; estava farta de todos os meereeneses, tanto grandes como pequenos.
— Deixe-os ir, mas assegura-te de que não levam mais do que a roupa que têm vestida. Assegure-se de que todo o seu ouro fique aqui conosco. E as suas reservas de comida também.
— Magnificência — murmurou Reznak mo Reznak — não podemos ter certeza de que esses grandes nobres pretendem juntar-se aos seus inimigos. É mais provável que estejam simplesmente dirigindo-se para as suas propriedades nos montes.
— Nesse caso não se importarão que mantenhamos o seu ouro a salvo. Nos montes não há nada para comprar.
— Têm medo pelos seus filhos — disse Reznak.
Sim, pensou Daenerys, e eu também.
— Teremos também de mante-los a salvo. Quero duas crianças de cada um deles. E das outras pirâmides também. Um rapaz e uma moça.
— Reféns — disse Skahaz, feliz.
— Pajens e copeiras. Se os Grandes Mestres levantarem objeções, explique-lhes que em Westeros é uma grande honra que uma criança seja escolhida para servir na corte. — Deixou o resto por dizer. — Vá e faça o que eu ordenei. Tenho os meus mortos a chorar.
Quando regressou aos seus aposentos no topo da pirâmide, encontrou Missandei chorando baixinho na sua enxerga, tentando abafar o melhor possível o som dos soluços.
— Vem dormir comigo — disse ela à pequena escriba. — A alvorada não chegará ainda durante horas.
— Vossa Graça é bondosa comigo. — Missandei enfiou-se entre os lençóis. — Ele era um bom irmão.
Dany envolveu a menina nos braços.
— Fala-me dele.
— Ensinou-me a subir a uma árvore quando éramos pequenos. Conseguia apanhar peixe com as mãos. Uma vez fui encontrá-lo dormindo no nosso jardim com cem borboletas em cima dele. Parecia tão lindo naquela manhã, esta... Quer dizer, eu amava-o.
— Tal como ele te amava. — Dany afagou o cabelo da menina.
— Basta dizer, querida, e eu mando-lhe embora deste lugar horrível. Arranjarei uma maneira de encontrar um navio, e mando-lhe para casa. Para Naath.
— Preferia ficar com você. Em Naath teria medo. E se os caçadores de escravos voltassem? Sinto-me segura quando estou contigo.
Segura. A palavra fez os olhos de Dany encherem-se de lágrimas.
— Quero manter-lhe segura. — Missandei não passava de uma criança. Com ela, sentia-se como se também pudesse ser uma criança. — Nunca ninguém me manteve segura quando eu era pequena. Bem, Sor Willem o fez, mas depois morreu, e Viserys... Eu quero proteger-te, mas... É tão difícil. Ser forte. Nem sempre sei o que devo fazer. Mas tenho de saber. Sou tudo o que eles têm. Sou a rainha... a... a...
—... mãe — sussurrou Missandei.
— Mãe de dragões. — Dany estremeceu.
— Não. Mãe de todos nós. — Missandei abraçou-a com mais força. — Vossa Graça devia dormir. A alvorada chegará em breve, e a corte também.
— Vamos as duas dormir e sonhar com dias melhores. Feche os olhos.
Quando ela o fez, Dany beijou-lhe as pálpebras e a fez soltar um risinho.
Porém, os beijos chegavam mais facilmente do que o sono. Dany fechou os olhos e tentou pensar em casa, em Pedra do Dragão e em Porto Real e em todos os outros lugares de que Viserys lhe falara, numa terra mais gentil do que aquela... mas os seus pensamentos não paravam de regressar à Baía dos Escravos, como se fossem navios presos por um vento amargo. Quando Missandei adormeceu profundamente, Dany soltou-se dos seus braços e saiu para o ar que antecedia a alvorada, para ir se encostar ao frio parapeito de tijolos e observar a cidade. Mil telhados estendiam-se abaixo dela, pintados em tons de marfim e prata pela Lua.
Em algum lugar, sob esses telhados, os Filhos da Harpia estavam reunidos congeminando maneiras de a matar e a todos os que a amavam e de voltarem a pôr os seus filhos a ferros. Em algum lugar, lá em baixo, uma criança faminta chorava por leite. Em algum lugar, uma velha jazia, morrendo. Em algum lugar, um homem e uma donzela abraçavam-se e remexiam as roupas um do outro com mãos ávidas. Mas, ali em cima, só havia os reflexos do luar em pirâmides e fossos, sem qualquer sugestão do que haveria por baixo. Ali em cima só havia ela, sozinha.
Era do sangue do dragão. Podia matar os Filhos da Harpia, e os filhos dos filhos, e os filhos dos filhos dos filhos. Mas um dragão não podia alimentar uma criança com fome nem atenuar a dor de uma moribunda. E quem se atreveria algum dia a amar um dragão?
Deu por pensar uma vez mais em Daario Naharis, Daario com o seu dente de ouro e a barba em tridente, as mãos fortes repousando nos cabos do arakh e punhal, cabos trabalhados em ouro na forma de mulheres nuas. No dia em que se despedira dela, enquanto ela lhe dizia adeus, ele esfregara levemente os cabos com o polegar, de um lado para o outro. Estou com ciúmes do cabo de uma espada, compreendera, de mulheres feitas de ouro. Enviá-lo aos Homens Ovelha fora sensato. Ela era uma rainha, e Daario Naharis não era do material de que se faziam os reis.