Deixe-os lutar — grunhia Belwas, o Forte, que foi em tempos um campeão nas arenas. Sor Barristan sugeria em alternativa um torneio; os seus órfãos podiam cavalgar contra anéis e combater um corpo-a-corpo com armas embotadas, dizia, uma sugestão que Dany sabia ser tão impraticável como bem intencionada. Era sangue que os meereeneses ansiavam por ver, não perícia. Se assim não fosse, os escravos combatentes teriam usado armaduras. Só a pequena escriba Missandei parecia partilhar das incertezas da rainha.
— Recusei-lhe por seis vezes — fez Dany lembrar a Hizdahr.
— Vossa Radiância tem sete deuses, portanto, talvez olhe a minha sétima súplica com favor. Hoje não venho sozinho. Aceite escutar os meus amigos? São também sete. — Apresentou-os um por um. — Este é Khrazz. Esta é Barsena Cabelopreto, sempre valente. Estes são Camarron da Contagem e Goghor, o Gigante. Este é o Gato Malhado, e este o Destemido Ithoke. Por fim Belaquo Quebra-Ossos. Vieram somar as suas vozes à minha, e pedir a Vossa Graça para permitir que as arenas de luta reabram.
Dany conhecia os sete dele, de nome mesmo que não de vista. Todos tinham estado entre os mais afamados dos escravos de combate de Meereen... e tinham sido os escravos de combate, libertados das grilhetas pelas suas ratazanas de esgoto, que tinham liderado a revolta que a levara à conquista da cidade. Devia-lhes uma dívida de sangue.
— Escutar-lhes-ei — concedeu.
Um por um, todos lhe pediram para deixar que as arenas de combate reabrissem.
— Porquê? — perguntou depois de Ithoke terminar. — Vocês já não são escravos, condenados a morrer segundo o capricho de um amo. Eu libertei-os. Porque haveriam de desejar terminar as suas vidas nas areias vermelhas?
— Eu treinei desde os três anos — disse Goghor, o Gigante. — Mato desde os seis. Mãe dos Dragões diz: eu sou livre. Porque não livre para lutar?
— Se é lutar que queres, lute por mim. Ajuramentem as suas espadas aos Homens da Mãe, aos Irmãos Livres ou aos Escudos Vigorosos. Ensine a outros libertos como combater.
Goghor abanou a cabeça.
— Antes, eu luto para um mestre. Você diz: lutae para você. Eu digo: lute para mim. — O enorme homem baseu no peito com um punho grande como um presunto. — Por ouro. Por glória.
— Goghor fala por todos nós. — O Gato Malhado usava uma pele de leopardo sobre um ombro. — Da última vez que fui vendido, o preço foi trezentas mil honras. Quando era escravo dormia em peles e comia carne de primeira. Agora que sou livre, durmo em palha e como peixe salgado, quando consigo arranjá-lo.
Hizdahr jura que os vencedores partilharão metade de todo o dinheiro recolhido à porta — disse Khrazz. — Metade, jura ele, e Hizdahr é um homem de honra.
Não, é um homem de astúcia. Daenerys sentiu-se encurralada.
— E os perdedores? O que receberão eles?
— Os seus nomes serão gravados nos Portões do Destino entre os outros valentes caídos — declarou Barsena. Dizia-se que durante oito anos ela matara todas as outras mulheres enviadas contra si. — Todos os homens têm de morrer, e as mulheres também... mas nem todos serão recordados.
Dany não tinha resposta a dar àquilo. Se for realmente isto que o meu povo deseja terei eu o direito de lhes negar? Esta cidade era deles antes de ser minha, e são as suas próprias vidas que querem malbaratar.
— Levarei em conta tudo o que disseram. Obrigada pelos seus conselhos. — Levantou-se. — Reataremos amanhã.
— Ajoelhem todos para Daenerys Filha da Tormenta, a Não-Queimada, Rainha de Meereen, Rainha dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Khaleesi do Grande Mar de Erva, Quebradora de Correntes e Mãe de Dragões — gritou Missandei.
Sor Barristan escoltou-a de volta aos seus aposentos.
— Conte-me uma história, sor — disse Dany enquanto subiam. — Uma história de valor com final feliz. — Sentia-se necessitada de finais felizes. — Conte-me como escapaste ao Usurpador.
— Vossa Graça. Não há valor em fugir para conservar a vida.
Dany sentou-se numa almofada, cruzou as pernas, e ergueu os olhos para ele.
— Por favor. Foi o Jovem Usurpador que o demitiu da Guarda Real...
— Joffrey, sim. Apresentaram a minha idade como motivo, embora a verdade fosse outra. O rapaz queria um manto branco para o seu cão, Sandor Clegane, e a mãe queria que o Regicida fosse o seu Senhor Comandante. Quando me disseram, eu... eu despi o manto como me ordenaram, atirei a espada aos pés de Joffrey e falei insensatamente.
— O que disseste?
— A verdade... mas a verdade nunca foi bem-vinda naquela corte. Saí da sala do trono de cabeça erguida, embora não soubesse para onde iria. Não tinha um lar que não fosse a Torre da Espada Branca. Sabia que os meus primos arranjariam lugar para mim em Solar de Colheitas, mas não tinha qualquer desejo de fazer cair sobre eles o desprazer de Joffrey. Estava juntando as minhas coisas quando me ocorreu que foi eu a causar que aquilo me acontecesse, por aceitar o perdão de Robert. Ele foi um bom cavaleiro, mas um mal rei, porque não tinha direito ao trono em que se sentava. Foi nesse momento que compreendi que, para me redimir, teria de encontrar o verdadeiro rei e de servi-lo lealmente com todas as forças que ainda me restavam.
— O meu irmão Viserys.
— Era essa a minha intenção. Quando cheguei aos estábulos, os de manto dourado tentaram capturar-me. Joffrey oferecera-me uma torre onde morrer, mas eu desdenhara essa oferta, por isso agora pretendia oferecer-me uma masmorra. Foi o próprio comandante da Patrulha da Cidade que me enfrentou, encorajado pela minha bainha vazia, mas ele só tinha três homens consigo e eu ainda possuía a minha faca. Abri a cara de um homem quando ele me pôs as mãos em cima, e atropelei os outros à cavalo. Enquanto o esporeava na direção dos portões, ouvi Janos Slynt gritar-lhes para irem atrás de mim. Depois de sair da Fortaleza Vermelha, as ruas estavam congestionadas; se assim não fosse poderia ter escapado sem problemas. Em vez disso, apanharam-me junto do Portão do Rio. Os homens de mantos dourados que me tinham perseguido desde o castelo gritaram àqueles que estavam no portão para me pararem, de modo que cruzaram as lanças para me obstruir o caminho.
— E você sem espada? Como foi que passaou por eles?
— Um verdadeiro cavaleiro vale dez guardas. Os homens ao portão foram apanhados de surpresa. Atropelei um deles, arranquei-lhe a lança das mãos, e espetei-a na garganta do perseguidor mais próximo. O outro desistiu depois de eu atravessar o portão, portanto, esporeei o cavalo pondo-o a galope e cavalguei implacavelmente ao longo do rio até a cidade ficar perdida de vista atrás de mim. Nessa noite troquei o cavalo por um punhado de moedas e uns trapos, e na manhã seguinte juntei-me à corrente de plebeus que se dirigia a Porto Real. Tinha saído pelo Portão da Lama, e regressei através do Portão dos Deuses, com sujeira na cara, a barba por fazer e nenhuma arma além de um bastão de madeira. Com roupa de tecido grosseiro e botas cobertas de lama, era apenas mais um velho qualquer fugindo da guerra. Os homens de mantos dourados receberam um veado de mim e deixaram-me entrar. Porto Real estava repleta de plebeus que tinham vindo em busca de refúgio contra os combates. Perdi-me entre eles. Tinha alguma prata, mas precisava dela para pagar a passagem para o outro lado do mar estreito, por isso, dormi em septos e vielas e tomei as refeições em casas de pasto. Deixei a barba crescer e ocultei-me na idade. No dia em que o Lorde Stark perdeu a cabeça eu estava lá, observando. Depois entrei no Grande Septo e agradeci aos sete deuses por Joffrey ter me tirado o manto.