— O Lorde Stark era um traidor que teve um fim de traidor.
— Vossa Graça — disse Selmy — Eddard Stark desempenhou um papel na queda do seu pai, mas não lhe tinha má vontade. Quando o eunuco Varys nos disse que estáva grávida, Robert quis que fôsse morta, mas o Lorde Stark interveio contra a ideia. Em vez de sancionar o assassato de crianças, disse a Robert para arranjar outra Mão.
— Esqueceu-se da Princesa Rhaenys e do Príncipe Aegon?
— Nunca. Isso foi obra dos Lannister, Vossa Graça.
— Lannister ou Stark, qual é a diferença? Viserys costumava chamar-lhes os cães do Usurpador. Se uma criança for atacada por uma matilha de cães, será que importa qual deles lhe rasga a goela? Todos os cães são igualmente culpados. A culpa... — A palavra ficou-lhe presa na garganta. Hazzea, pensou, e de súbito ouviu-se a dizer: — Tenho de ver o fosso — numa voz tão sumida como um sussurro de criança. — Leve-me lá abaixo, sor, por favor.
Um bruxuleio de desaprovação cruzou a cara do velho, mas não era seu costume questionar a sua rainha.
— Às suas ordens.
As escadas dos criados eram a maneira mais rápida de descer; não eram grandiosas, mas íngremes, diretas e estreitas, ocultas nas paredes. Sor Barristan levou uma lanterna, para que ela não caísse. Tijolos de vinte cores diferentes comprimiam-se, bem perto, à volta deles, desvanecendo-se para cinzento e negro para lá da luz da lanterna. Por três vezes passaram por guardas Imaculados, em pé como se tivessem sido esculpidos em pedra. O único som era o suave raspar dos pés nos degraus.
Ao nível do chão, a Grande Pirâmide de Meereen era um local silencioso, cheio de poeira e sombras. As suas paredes exteriores tinham nove metros de espessura. Lá dentro, os sons ecoavam em arcos de tijolos multicoloridos, e entre os estábulos, cocheiras e armazéns. Passaram sob três enormes arcos, desceram uma rampa iluminada por archotes até às caves por baixo da pirâmide, passando por cisternas, masmorras e câmaras de tortura onde escravos tinham sido açoitados, esfolados e queimados com rubros ferros em brasa. Por fim, chegaram a um par de enormes portas de ferro com dobradiças enferrujadas, guardadas por Imaculados.
Às suas ordens, um apresentou uma chave de ferro. A porta abriu-se, com as dobradiças guinchando. Daenerys Targaryen entrou no quente coração das trevas e parou à beira de um profundo fosso. Doze metros mais abaixo, os seus dragões ergueram as cabeças. Quatro olhos arderam através das sombras; dois de ouro derretido e dois de bronze.
Sor Barristan pegou-lhe pelo braço.
— Mais perto, não.
— Julga que eles fariam mal a mim?
— Não sei, Vossa Graça, mas preferia não arriscar a sua pessoa para saber a resposta.
Quando Rhaegal rugiu, um jorro de chamas amarelas transformou a escuridão em dia durante meio segundo. O fogo lambeu as paredes e Dany sentiu o calor na cara, como o sopro vindo de um forno. Do outro lado do fosso, as asas de Viserion desdobraram-se, agitando o ar parado. Tentou voar até ela, mas as correntes retesaram-se quando se ergueu e fizeram-no cair sobre a barriga. Elos tão grandes como o punho de um homem prendiam-lhe as patas ao chão. A coleira de ferro que lhe envolvia o pescoço estava presa à parede atrás de si. Rhaegal usava correntes iguais. À luz da lanterna de Selmy, as suas escamas reluziam como jade. Fumo ergueu-se de entre os seus dentes. Havia ossos espalhados pelo chão a seus pés, fendidos, carbonizados e lascados. O ar era desconfortavelmente quente e cheirava a enxofre e a carne esturricada.
— Estão maiores. — A voz de Dany ecoou nas chamuscadas paredes de pedra. Uma gota de suor escorreu-lhe pela testa e caiu-lhe no seio. — É verdade que os dragões nunca param de crescer?
— Se tiverem comida suficiente e espaço para crescer. Mas aqui acorrentados...
Os Grandes Mestres tinham usado o fosso como prisão. Era suficientemente grande para conter quinhentos homens... e mais do que amplo para dois dragões. Mas durante quanto tempo? O que acontecerá quando se tornarem grandes demais para o fosso? Irão virar-se um contra o outro com chamas e garras? Tornarão-se enfermiços e fracos com flancos enrugados e asas atrofiadas? Os seus fogos se apagarão antes do fim?
Que tipo de mãe deixa os filhos apodrecer nas trevas?
Se olhar para trás estou perdida, pensou Dany... mas como podia não olhar para trás? Devia ter visto que isto se aproximava. Terei sido assim tão cega ou será que fechei voluntariamente os olhos, para não ter de ver o preço do poder?
Viserys contara-lhe todas as histórias quando era pequena. Ele adorava falar de dragões. Dany sabia como Harrenhal caíra. Conhecia o Campo de Fogo e a Dança dos Dragões. Um dos seus antepassados, o terceiro Aegon, vira a sua própria mãe devorada pelo dragão do tio. E havia incontáveis canções sobre aldeias e reinos que viviam aterrorizados por dragões até que algum corajoso matador de dragões os salvava. Em Astapor, os olhos do escravagista tinham derretido. Na estrada para Yunkai, quando Daario despejara as cabeças de Sallor, o Calvo, e de Prendahl na Ghezn a seus pés, os seus filhos tinham-nas transformado num banquete. Os dragões não tinham medo dos homens. E um dragão suficientemente grande para se empanturrar de ovelhas podia capturar uma criança com igual facilidade.
O nome dela fora Hazzea. Tinha quatro anos. A menos que o pai tivesse mentido. Ele podia ter mentido. Ninguém viu o dragão além dele. A sua prova era ossos queimados, mas ossos queimados nada provavam. Ele próprio podia ter matado a menininha, queimando-a depois. O Tolarrapada afirmava que não teria sido o primeiro pai a livrar-se de uma filha indesejada. Os Filhos da Harpia podiam tê-lo feito e ter feito com que parecesse obra do dragão para levar a cidade a odiar-me. Dany desejava acreditar nisso... mas, se assim fosse, porque teria o pai de Hazzea esperado até que o salão de audiências estivesse quase vazio para avançar? Se o seu objetivo tivesse sido inflamar os meereeneses contra ela, teria contado a sua história quando o salão estivesse cheio de ouvidos para ouvir.
O Tolarrapada incentivara-a a mandar matar o homem.
Pelo menos lhe arranque a língua. A mentira deste homem podia destruir-nos a todos, Magnificência. — Mas Dany decidira pagar o preço de sangue. Ninguém podia- lhe dizer quanto valia uma filha, portanto definira-o como cem vezes o valor de um carneiro.
Eu lhe devolveria Hazzea se pudesse — dissera ao pai — mas há coisas que estão para lá até do poder de uma rainha. Os ossos dela jazerão no Templo das Graças, e cem velas arderão dia e noite em sua memória. Volta à minha presença todos os anos no dia do nome dela, e aos seus outros nada faltará... mas esta história não pode nunca mais voltar a cruzar-te os lábios.
— Os homens vão fazer perguntas — dissera o pai enlutado. — Vão-me perguntar onde está a Hazzea e como foi que ela morreu.
— Ela morreu da mordida de uma cobra — insistira Reznak mo Reznak. — Um lobo voraz levou-a. Foi acometida de uma doença súbita. Diz-lhes o que quiser, mas nunca fales de dragões.
As garras de Viserion esgravataram nas pedras, e as enormes correntes chacoalharam quando voltou a tentar chegar até ela. Quando não conseguiu, soltou um rugido, torceu a cabeça para trás o máximo que lhe foi possível e cuspiu chamas douradas sobre a parede atrás dele. Quanto tempo faltará até que o fogo que sopra seja suficientemente quente para rachar pedra e derreter ferro?