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Tempos atrás, não muito distantes, o dragão seguira empoleirado no seu ombro com a cauda enrolada no seu braço. Tempos atrás, ela alimentara-o à mão com porções de carne esturricada. Fora o primeiro a ser acorrentado. Fora à própria Daenerys a levá-lo para o fosso e a fechá-lo lá dentro com vários bois. Depois de se empanturrar ficara sonolento. Tinham-no acorrentado enquanto dormia.

Rhaegal fora mais difícil. Talvez conseguisse ouvir o irmão enfurecendo-se no fosso, apesar das paredes de tijolo e pedra que se interpunham entre ambos. No fim tinham tido de cobri-lo com uma rede de pesada malha de ferro enquanto ele apanhava sol no terraço, e o dragão lutara com tal ferocidade que tinham demorado três dias a levá-lo pelas escadas dos criados, contorcendo-se e tentando morder. Seis homens tinham ficado queimados na luta.

E Drogon...

A sombra alada, chamara-lhe o pai enlutado. Era o maior dos três de Dany, o mais feroz, o mais violento, com escamas negras como a noite e olhos que eram como poços de fogo.

Drogon caçava até bem longe, mas quando estava saciado gostava de se aquecer ao sol no topo da Grande Pirâmide, onde, em tempos, se erguera a harpia de Meereen. Por três vezes o tinham tentado apanhar aí, e por três vezes tinham falhado. Duas dezenas dos seus homens mais corajosos tinham-se posto em risco tentando capturá-lo. Quase todos tinham sofrido queimaduras, e quatro tinham morrido. A última vez que vira Drogon fora ao pôr-do-sol do dia da terceira tentativa. O dragão negro estivera voando para norte por cima do Shahazadhan, na direção das altas ervas do mar dothraki. Não regressara.

Mãe de dragões, pensou Daenerys. Mãe de monstros. O que foi que deixei à solta no mundo? Sou uma rainha, mas o meu trono é feito de ossos queimados e está assentado em areias movediças. Sem dragões, como podia ter esperança de manter o controle de Meereen, já para não falar de reconquistar Westeros? Sou do sangue do dragão, pensou. Se eles são monstros, eu também sou.

FEDOR

A ratazana guinchou quando a mordeu, esperneando violentamente em suas mãos, num frenesi para fugir. A barriga era a parte mais mole. Rasgou a carne doce, com o sangue quente escorrendo pelos lábios. Era tão bom que lhe trouxe lágrimas aos olhos. A sua barriga trovejou e ele engoliu. À terceira dentada a ratazana parou de lutar, e ele estava sentindo-se quase satisfeito.

Então ouviu o som de vozes do outro lado da porta da masmorra.

Aquietou-se de imediato, temendo até mastigar. A sua boca estava cheia de sangue, carne e pelos, mas não se atrevia a cuspir ou a engolir. Escutou aterrorizado, duro como pedra, o raspar de botas e o tilintar de chaves de ferro. Não, pensou, não, por favor, deuses, agora não, agora não. Levara tanto tempo até apanhar a ratazana. Se me apanharem agora com ela vão leva-la e depois vão contar, e o Lorde Ramsay vai me magoar.

Sabia que devia esconder a ratazana, mas tinha tanta fome. Tinham-se passado dois dias desde que comera, ou talvez três. Ali em baixo, no escuro, era difícil saber. Apesar dos seus braços e pernas estarem magros como juncos, tinha a barriga inchada e oca e doía-lhe tanto que descobrira que não conseguia dormir. Sempre que fechava os olhos dava se lembrar-se da Senhora Hornwood. Depois do casamento de ambos, o Lorde Ramsay a trancara numa torre e a matara de  fome. No fim, ela comera os próprios dedos.

Agachou-se a um canto da cela, agarrando a presa sob o queixo. Sangue escorreu pelos cantos da boca enquanto mordiscava a ratazana com o que restava dos seus dentes, tentando devorar o máximo da carne morna que pudesse antes de a cela ser aberta. A carne era fibrosa, mas tão rica que pensou que talvez fosse ficar mal disposto. Mastigou e engoliu, tirando pequenos ossos dos buracos nas gengivas de onde dentes tinham sido arrancados. Doía mastigar, mas ele tinha tanta fome que não conseguia parar.

Os sons estavam ficando mais fortes. Por favor, deuses, ele não vem me buscar, rezou, arrancando uma das patas da ratazana. Passara-se muito tempo desde que alguém viera buscá-lo. Havia outras celas, outros prisioneiros. Às vezes ouvia-os gritando, mesmo através das espessas paredes de pedra. São sempre as mulheres que gritam mais alto. Chupou a carne crua e tentou cuspir o osso da pata, mas este se limitou a escorregar sobre o lábio inferior e a emaranhar-se na barba. Vai embora, rezou, vai embora, passa por mim, por favor, por favor.

Mas os passos pararam precisamente quando eram mais ruidosos, e as chaves tilintaram mesmo junto da porta. A ratazana caiu dos seus dedos. Limpou os dedos ensanguentados nas calças.

— Não — resmungou — nããããão. — Os seus calcanhares procuraram na palha quando tentou se empurrar para o canto, para dentro das paredes frias e úmidas de pedra.

O som da tranca girando foi o mais terrível de todos. Quando a luz atingiu-o em cheio na cara, soltou um guincho. Teve de cobrir os olhos com as mãos. Podia tê-los arrancado com as unhas se se atrevesse, de tanto que a cabeça doía.

— Leve-a daqui, faça no escuro, por favor, oh por favor.

— Aquilo não é ele — disse uma voz de rapaz. — Olha para ele. Temos a cela errada.

— Última cela da esquerda — respondeu outro rapaz. — Esta é a última cela da esquerda, não é?

— Sim. — Uma pausa. — O que ele está dizendo?

Acho que não gosta da luz.

— E você gostaria, se tivesse aquele aspecto? — o rapaz puxou um escarro e cuspiu-o. — E o fedor que tem. Ainda sufoco.

— Tem andado comendo ratazanas — disse o segundo rapaz. — Olha.

O primeiro rapaz riu.

— Pois é. É engraçado.

Tinha que comê-las. As ratazanas o mordiam quando dormia, roendo seus dedos das mãos e dos pés, roendo mesmo a cara, por isso quando conseguira apanhar uma não hesitara. Comer ou ser comido, eram essas as únicas alternativas.

— É verdade — resmungou — é verdade, é mesmo, comi, elas me fazem o mesmo, por favor...

Os rapazes aproximaram-se mais, esmagando suavemente a palha sob os seus pés.

— Fala comigo — disse um deles. Era o menor dos dois, um rapaz magro, mas esperto. — Se lembra de quem é?

O medo se ergueu a borbulhar dentro dele, e gemeu.

— Fala comigo. Diga-me o seu nome.

O meu nome. Um grito se prendeu na garganta. Eles tinham-lhe ensinado o seu nome, tinham mesmo, tinham mesmo, mas foi a tanto tempo que se esquecera. Se o disser errado, ele vai tirar outro dedo, ou pior, vai... vai... Não queria pensar nisso, não podia pensar nisso. Havia agulhas no seu queixo, nos olhos. Tinha a cabeça latejando.

— Por favor —-guinchou, com a voz fina e fraca. Soava como se tivesse cem anos. Talvez tivesse. Há quanto tempo estou eu aqui? — Vai — resmungou por entre dentes quebrados e dedos quebrados, com os olhos bem fechados contra a terrível luz brilhante — por favor, pode ficar com a ratazana, não me faça mal...

— Fedor — disse o maior dos rapazes. — O seu nome é Fedor. Lembra? — Era o que tinha o archote. O rapaz menor tinha o aro de chaves de ferro.

— Fedor? Lágrimas escorreram pela cara.