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Hesitou.

— Se o desejar, senhor.

— Oh, desejo.

Voltou a hesitar, perguntando se aquilo seria alguma armadilha cruel.

— Sim, senhor. Se te agradar. Ficaria honrado.

Então temos de te tirar daquela horrível masmorra. Voltar a te esfregar até ficar cor de rosa, te arranjar umas roupas limpas, alguma comida para comer. Umas papas de aveia, saborosas e moles, gostaria? Talvez uma torta de ervilhas enfeitada com bacon. Tenho uma tarefazinha para você, e vai precisar ter as forças de volta para me servir. Você quer me servir que eu sei.

— Sim, senhor. Mais do que qualquer coisa. — Foi percorrido por um arrepio. — Sou o seu Fedor. Por favor, me deixa te servir. Por favor.

— Já que pede com tanto jeitinho, como posso dizer que não? — Ramsay Bolton sorriu. — Parto para a guerra, Fedor. E você vai vir comigo, para me ajudar a trazer para casa a minha noiva virgem.

BRAN

Qualquer coisa no modo como o corvo gritou pôs um arrepio a percorrer a espinha de Bran. Sou quase um homem feito, teve de lembrar a si próprio. Agora tenho de ser corajoso.

Mas o ar estava penetrante e frio e cheio de medo. Mesmo Verão estava com medo. O pelo no seu pescoço estava eriçado. Sombras estendiam-se contra a vertente da colina, negras e esfomeadas. Todas as árvores estavam dobradas e torcidas pelo peso do gelo que suportavam. Algumas quase nem pareciam árvores. Enterradas das raízes às copas em neve congelada, aninhavam-se na colina como gigantes, criaturas monstruosas e deformadas, enroladas sobre si próprias contra o vento gélido.

— Eles estão aqui. — O patrulheiro puxou pela espada.

— Onde? — a voz de Meera soou murmurada.

— Perto. Não sei. Em algum lugar.

O corvo voltou a guinchar.

— Hodor — murmurou Hodor. Tinha as mãos enfiadas nos sovacos. Pingentes pendiam-lhe das raízes castanhas da barba e o seu bigode era um torrão de ranho congelado, reluzindo, vermelho, à luz do pôr-do-sol.

— Os lobos também estão próximos — avisou Bran. — Aqueles que têm nos seguido. Verão consegue cheirá-los sempre que o vento sopra na nossa direção.

— Lobos são o menor dos nossos problemas — disse Mãos-Frias. — Temos de subir. Ficará escuro em breve. Faremos bem em estar lá dentro antes de a noite chegar. O calor de vocês irá atraí-los. — Deu um relance para oeste, onde a luz do sol poente podia ser vista de uma forma pouco nítida através das árvores, como se fosse o brilho de uma fogueira distante.

— Esta é a única entrada? — perguntou Meera.

— A entrada de trás fica três léguas para norte, num poço natural.

Era tudo o que precisava dizer. Nem mesmo Hodor podia descer a um poço com Bran pesando em suas costas, e Jojen não seria mais capaz de caminhar três léguas do que de correr mil.

Meera examinou a colina por cima de si.

— O caminho parece livre.

— Parece — resmungou sombriamente o patrulheiro. — Sente o frio? Há qualquer coisa aqui. Onde estão eles?

— Dentro da gruta?-— sugeriu Meera.

— A gruta está protegida. Eles não podem passar. — O patrulheiro usou a espada para apontar. — Pode ver a entrada ali. A meio caminho do cume, entre os represeiros, aquela fenda na rocha.

— Estou vendo — disse Bran. Corvos estavam voando para dentro e para fora.

Hodor mudou o peso de uma perna para a outra.

— Hodor.

— Uma dobra na rocha, é tudo o que eu vejo — disse Meera.

— Há ali uma passagem. íngreme e retorcida a princípio, um canal estreito na rocha. Se conseguirem alcançá-la ficarão a salvo.

— E você?

— A gruta está protegida.

Meera estudou a fenda na vertente da colina.

— Não podem ser mais de novecentos metros daqui até lá.

Não, pensou Bran, mas todos esses metros são de subida. A colina era íngreme e densamente arborizada. A neve parara de cair três dias antes, mas nenhuma derretera. Sob as árvores, o chão estava atapetado de branco, ainda intocado e sem rastros.

— Não tem ninguém aqui — disse Bran com valentia. — Olhe para a neve. Não há pegadas.

— Os caminhantes brancos pisam levemente na neve — disse o patrulheiro. — Não encontrará pegadas mostrando a sua passagem. — Um corvo caiu desde o alto para ir se instalar no seu ombro. Só uma dúzia das grandes aves negras permanecia com eles. O resto desapareceu ao longo do caminho; a cada alvorada, quando acordavam, havia menos.

— Vem — crocitou a ave. — Vem, vem.

O corvo de três olhos, pensou Bran. O vidente verde.

— Não é assim tão longe — disse. — Uma subidazinha e ficaremos em segurança. Talvez possamos fazer uma fogueira. — Todos tinham frio, estavam molhados e com fome, exceto o patrulheiro, e Jojen Reed estava fraco demais para caminhar sem ajuda.

— Vai você. — Meera Reed abaixou-se ao lado do irmão. Este estava instalado no buraco de um carvalho, de olhos fechados, tremendo com violência. O pouco da sua cara que se conseguia ver sob o capuz e o cachecol estava tão incolor como a neve que os rodeava, mas a respiração ainda criava tênues baforadas de vapor sempre que ele exalava pelas narinas. Meera o carregou  o dia inteiro. Comida e um fogo o deixarão outra vez bom, tentou Bran dizer a si, embora não tivesse a certeza de isso ser verdade. — Não posso lutar ao mesmo tempo que carrego Jojen, a subida é muito íngreme —Meera disse. — Hodor, leve Bran para aquela gruta.

— Hodor. — Hodor baseu palmas.

— Jojen só precisa comer — disse Bran em tom infeliz. Tinham se passado doze dias desde que o alce caíra pela terceira e última vez, desde que Mãos-Frias ajoelhou a seu lado no banco de neve e murmurou uma bênção numa língua estranha qualquer enquanto lhe cortava a garganta. Bran chorou como uma menininha quando o sangue brilhante saiu em jorro. Nunca se sentiu mais aleijado do que nesse momento, observando impotente enquanto Meera Reed e  Mãos-Frias esquartejavam o corajoso animal que os transportara até tão longe. Disse a si próprio que não comeria, que passar fome seria melhor do que banquetear-se com um amigo, mas, por fim, comeu duas vezes, uma na sua própria pele, e outra na de Verão. Embora o alce estivesse magro e esfomeado, os bifes que o patrulheiro cortou do seu corpo tinham os sustentado durante sete dias, até acabarem com o último aninhados junto a uma fogueira nas ruínas de um velho cume fortificado.

— Ele precisa comer — concordou Meera, alisando a testa do irmão. — Todos nós precisamos, mas aqui não há comida. Vai.

Bran reprimiu uma lágrima, pestanejando, e sentiu a bochecha congelando. Mãos-Frias pegou num braço de Hodor.

— A luz está a sumindo. Se eles não estão aqui ainda, estarão em bre¬ve. Anda.

Sem palavras, para variar, Hodor sacudiu com palmadas a neve das pernas, e começou a subir através dos montes de neve acumulada pelo vento com Bran às costas. Mãos-Frias caminhava ao lado deles, com a espada numa mão negra. Verão vinha atrás. Em alguns locais, a neve era mais alta do que ele, e o grande lobo gigante tinha que parar e se sacudir antes de mergulhar através da fina crosta. Enquanto subiam, Bran virou-se desajeitadamente no cesto para ver Meera enfiar um braço sob o irmão para ajuda-lo a pôr-se em pé. Ele é pesado demais para ela. Está meio morta de fome, não é tão forte como era antes. A menina pegou a lança para rãs com a outra mão, espetando os dentes na neve a fim de obter um pouco mais de apoio. Meera tinha começado a subir esforçadamente a colina, trazendo o irmão mais novo entre arrastado e carregado, quando Hodor passou entre duas árvores e Bran os perdeu de vista.