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A colina tornou-se mais íngreme. Montes de neve rangiam sob as botas de Hodor. Uma vez, uma pedra mexeu-se sob o seu pé e ele deslizou para trás, e quase caiu às cambalhotas pela colina abaixo. O patrulheiro o pegou pelo braço e o salvou.

— Hodor — disse Hodor. Cada rajada de vento enchia o ar com um fino pó branco que brilhava como vidro à última luz do dia. Corvos esvoaçavam à volta deles. Um voou em frente e desapareceu dentro da gruta. Só faltam setenta metros, pensou Bran, não é nada longe.

Verão parou de súbito na base de uma íngreme extensão de alva neve intocada. O lobo gigante virou a cabeça, farejou o ar, depois rosnou. Com a pelagem eriçada, começou a recuar.

— Hodor, para — disse Bran. — Hodor. Espera. — Havia algo de errado. Verão cheirava-o, e ele também. Algo de mal. Algo próximo. — Hodor, não, volta para trás.

Mãos-Frias continuava a subir, e Hodor queria acompanhá-lo.

— Hodor, hodor, hodor — resmungou sonoramente, a fim de subjugar as queixas de Bran. A respiração tornou-se cansada. Uma névoa pálida enchia o ar. Subiu um passo e depois outro. Ali, a neve chegava quase à cintura, e a encosta era muito íngreme. Hodor estava se inclinando para frente, agarrando-se a pedras e árvores com as mãos enquanto subia. Outro passo. Outro. A neve que Hodor perturbava deslizava pela colina abaixo, dando início a uma pequena avalanche abaixo deles.

Cinquenta metros. Bran esticou-se para o lado para ver melhor a gruta. Então viu outra coisa.

— Uma fogueira! — Na pequena fenda entre os represeiros via-se um brilho tremeluzente, uma luz avermelhada que chamava entre a escuridão que se aprofundava. — Olhe, alguém...

Hodor gritou. Torceu-se, tropeçou, caiu.

Bran sentiu o mundo deslizar para o lado quando o grande moço de estrebaria deu uma violenta volta sobre si próprio. Um forte impacto deixou-o sem fôlego. Sentiu a boca cheia de sangue e Hodor agitou os braços e rolou, esmagando o rapaz aleijado debaixo de si.

Qualquer coisa lhe prendeu a perna. Durante meio segundo, Bran pensou que talvez uma raiz tivesse se emaranhado em volta do seu tornozelo... até que a raiz se mexeu. Uma mão, viu ele, na altura em que o resto da criatura irrompeu de debaixo da neve.

Hodor pontapeou-a, atirando um calcanhar coberto de neve em cheio contra a cara da coisa, mas o morto nem sequer pareceu senti-lo. Depois, os dois engalfinharam, esmurrando e arranhando, deslizando pela colina abaixo. Neve encheu a boca e o nariz de Bran quando os outros rolaram, e meio segundo depois viu-se outra vez rolando para cima. Qualquer coisa lhe baseu na cabeça, uma pedra, um bocado de gelo ou o punho de um morto, não soube dizer, e deu por si fora do cesto, estatelado na vertente da colina, cuspindo neve, com a mão enluvada cheia de cabelo que arrancou da cabeça de Hodor.

A toda a sua volta, criaturas estavam erguendo-se de debaixo da neve.

Duas, três, quatro. Bran perdeu a conta. Saltavam violentamente por entre súbitas nuvens de neve. Algumas usavam mantos negros, algumas peles esfarrapadas, algumas nada. Todas tinham pele pálida e mãos pretas. Os seus olhos brilhavam como estrelas azuis claras.

Três delas caíram sobre o patrulheiro. Bran viu Mãos-Frias golpeando uma na cara. A coisa continuou avançando como se nada fosse, empurrando-o para os braços de outra. Outras duas estavam dirigindo-se para Hodor, avançando desajeitadamente pela ladeira abaixo. Com uma sensação doentia de terror impotente, Bran percebeu que Meera ia subir para o meio daquilo. Baseu na neve e gritou um aviso.

Algo o agarrou.

Foi nessa altura que o grito se transformou num berro. Bran encheu um punho de neve e atirou-o, mas a criatura nem sequer pestanejou. Uma mão preta tateou a sua cara, outra a barriga. Os dedos da coisa pareciam ferro. Ele vai arrancar minhas tripas.

Mas, de súbito, Verão interpôs-se entre eles. Bran viu pele rasgando como tecido barato, ouviu o estilhaçar de ossos. Viu uma mão e um pulso soltando, dedos pálidos contorcendo, a manga de tecido grosseiro desbotado de negro. Negro, pensou, ele está vestido de negro, era um membro da Patrulha. Verão jogou o braço fora, torceu-se e mergulhou os dentes no pescoço do morto, sob o queixo. Quando o grande lobo cinzento se soltou, arrancou a maior parte da garganta da criatura numa explosão de carne pálida e podre.

A mão cortada continuava se mexendo. Bran rolou para longe dela. Deitado de barriga, arranhando a neve, viu as árvores lá em cima, pálidas e cobertas de neve, com o brilho cor de laranja entre elas.

Quarenta metros. Se conseguisse a se arrastar quarenta metros, eles não conseguiriam apanhá-lo. A umidade infiltrou em suas luvas enquanto ele se agarrava a raízes e pedras, rastejando na direção da luz. Um pouco mais, só um pouco mais. Depois pode descansar ao lado do fogo.

Por essa altura a última luz já desaparecia entre as árvores. A noite caiu. Mãos-Frias golpeava e dilacerava o círculo de mortos que o rodeava. Verão rasgava aquele que matou, com a cara da criatura entre os dentes. Ninguém estava prestando nenhuma atenção a Bran. Rastejou para um pouco mais alto, arrastando as pernas inúteis atrás de si. Se conseguir chegar áquela gruta...

— Hoooodor — soou um lamento, vindo de algum lugar mais abaixo.

E, de súbito, ele deixou de ser Bran, o rapaz quebrado que rastejava pela neve, passando a ser Hodor, a meio da vertente, com a criatura tentando arranhar seus olhos. Rugindo, pôs-se hesitantemente em pé, atirando com violência a coisa para o lado. Ela caiu sobre um joelho, recomeçou a se levantar. Bran tirou a espada longa de Hodor do seu cinto. Lá muito no fundo, ainda ouvia o pobre Hodor choramingando, mas por fora era dois metros e dez de fúria com ferro antigo na mão. Ergueu a espada e a fez cair sobre o morto, grunhindo quando a lâmina rasgou lã úmida, cota de malha enferrujada e couro apodrecido, penetrando profundamente nos ossos e na carne que havia por baixo.

— HODOR! — berrou, e deu outro golpe. Desta vez cortou a cabeça da criatura pelo pescoço, e por meio momento se alvoroçou... até que um par de mãos mortas tentou às apalpadas cegas agarrar a sua  garganta.

Bran recuou, sangrando, e Meera Reed apareceu lá, espetando profundamente a lança para rãs nas costas da criatura.

— Hodor — voltou a rugir Bran, fazendo sinal para ela subir a colina. — Hodor; hodor. — Jojen estava contorcendo-se debilmente onde ela o colocou. Bran foi ao seu encontro, largou a espada, recolheu o rapaz no braço de Hodor, e voltou a pôr-se em pé. — HODOR! — berrou.

Meera liderou o avanço pela colina acima, atirando estocadas às criaturas quando se aproximavam. As coisas não podiam ser feridas, mas eram lentas e desajeitadas.

— Hodor — dizia Hodor a cada passo. — Hodor, hodor. — Perguntou a si próprio o que pensaria Meera se lhe dissesse de repente que a amava.

Acima deles, silhuetas em chamas estavam dançando na neve.