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As criaturas, compreendeu Bran. Alguém incendiou as criaturas. Verão rosnava e atirava dentadas enquanto dançava em volta da mais próxima das criaturas, uma grande ruína de um homem envolta em chamas rodopiantes. Ele não devia se aproximar tanto, que está fazendo? Depois viu-se a si próprio, estatelado na neve de cara para baixo. Verão estava tentando afastar a coisa de si. O que acontecerá se a coisa me matar? perguntou o rapaz a si próprio. Serei Hodor para sempre? Voltarei para a pele de Verão? Ou ficarei simplesmente morto?

O mundo moveu-se rapidamente à sua volta. Árvores brancas, céu negro, chamas vermelhas, estava tudo rodopiando, alterando, girando. Sentiu-se tropeçar. Conseguia ouvir Hodor gritando: "Hodor hodor hodor hodor. Hodor hodor hodor hodor. Hodor hodor hodor hodor hodor." Uma nuvem de corvos estava jorrando da gruta, e viu uma menininha com um archote na mão correndo de um lado para o outro. Por um momento, Bran pensou que fosse a irmã, Arya... loucamente, pois sabia que a irmã estava a mil léguas de distância, ou morta. E, no entanto, ali estava ela, rodopiando, uma coisinha magricela, esfarrapada, selvagem, com o cabelo todo emaranhado. Lágrimas encheram os olhos de Hodor e congelaram lá.

Tudo se virou ao contrário e de pernas para o ar, e Bran deu por si de volta à própria pele, meio enterrado na neve. A criatura incendiada erguia-se acima dele, delineado, alto, contra as árvores e os sudários nevados que as tapavam. Bran viu que era uma das criaturas nuas um instante antes de a árvore mais próxima largar a neve que a cobria e deixá-la cair, toda, em cima da sua cabeça.

Quando voltou a si, estava deitado numa cama de agulhas de pinheiro sob um escuro teto de pedra. A gruta. Estou na gruta. A boca ainda sangrava onde mordeu a língua, mas uma fogueira estava ardendo à sua direita, com o calor cobrindo a sua cara, e nunca sentiu nada tão bom. Verão estava lá, farejando à sua volta, e Hodor também, completamente ensopado. Meera embalava a cabeça de Jojen no colo. E a coisa Arya estava em pé por cima deles, agarrada ao archote.

— A neve — disse Bran. — Caiu em cima de mim. Me enterrou.

— Te escondeu. Eu te puxei para fora. — Meera indicou a menina com um aceno. — Mas foi ela que nos salvou. O archote... o fogo mata-os.

— O fogo queima-os. O fogo está sempre com fome.

Aquela não era a voz de Arya, nem de nenhuma criança. Era uma voz de mulher, aguda e doce, dotada de uma estranha música que não se assemelhava a nenhuma que Bran tivesse ouvido, e uma tristeza que achou que talvez lhe quebrasse o coração. Bran semicerrou os olhos para vê-la melhor. Era uma menina, mas menor do que Arya, com a pele sarapintada como a de uma corça sob um manto de folhas. Os seus olhos eram estranhos; grandes e líquidos, dourados e verdes, fendidos como os olhos de um gato. Ninguém tem olhos como aqueles. O seu cabelo era um emaranhado de castanho, vermelho e dourado, cores de outono, com trepadeiras, gravetos e flores murchas a ele atadas.

— Quem é você? —Meera Reed perguntou.

Bran sabia.

— É uma criança. Uma filha da floresta. — Estremeceu, tanto de espanto como de frio. Tinham caído numa das histórias da Velha Nan.

— Os Primeiros Homens nos deram esse nome — disse a mulherzinha. — Os gigantes chamavam-nos woh dak naggran, o povo esquilo, porque éramos pequenos e rápidos e gostávamos de árvores, mas não somos nem esquilos nem crianças. O nosso nome no idioma verdadeiro significa aqueles que cantam a canção da terra. Antes de o seu idioma antigo começar a ser falado, já cantávamos as nossas canções há dez mil anos.

Meera disse:

— Agora fala o idioma comum.

— Por ele. O rapaz Bran. Nasci no tempo do dragão, e percorri o mundo dos homens durante duzentos anos, para observar, escutar e aprender. Podia ainda estar percorrendo, mas as minhas pernas estavam cansadas e o meu coração cansado, portanto virei os pés para casa.

— Duzentos anos?— disse Meera.

A criança sorriu.

— Homens, são eles as crianças.

— Tem nome? — perguntou Bran.

— Quando preciso de um. — Indicou com o archote a fenda negra na parede do fundo da gruta. — O nosso caminho é para baixo. Tem que vir comigo agora.

Bran voltou a estremecer.

— O patrulheiro...

— Ele não pode vir.

— Vão matá-lo.

— Não. Já o mataram há muito tempo. Agora venha. Lá no fundo faz mais calor, e lá ninguém os fará mal. Ele está à nossa espera.

— O corvo de três olhos? — perguntou Meera.

— O vidente verde. — E com aquilo foi embora, e não teve alternativa a não ser segui-la. Meera ajudou Bran a voltar a subir as costas de Hodor, apesar de o cesto estar meio esmagado e úmido de neve derretida. Depois pôs um braço em volta do irmão e voltou a colocá-lo em pé. Os olhos dele se abriram.

— O que é? — disse. — Meera? Onde estamos? — quando viu a fogueira sorriu. — Tive o mais estranho dos sonhos.

O caminho era estreito e retorcido, e tão baixo que Hodor depressa teve de se abaixar. Bran encolheu-se o melhor que podia, mas mesmo assim depressa o cocuruto da sua cabeça começou a raspar e a bater no teto. Terra solta desfazia-se a cada toque e caía para os olhos e cabelo, e uma vez baseu com a testa numa grossa raiz branca que crescia da parede do túnel, com gavinhas penduradas e teias de aranha entre as suas ramificações.

A filha da floresta seguia à frente com o archote na mão, fazendo sussurrar atrás de si o seu manto de folhas, mas a passagem tinha tantas curvas que Bran depressa a perdeu de vista. Depois, a única luz passou a ser a que se refletia nas paredes da passagem. Depois de terem descido um pouco, a gruta se dividiu, mas um ramo estava escuro como breu, e até Hodor compreendeu que devia seguir o archote em movimento pelo outro lado.

O modo como as sombras se moviam fazia parecer que as paredes também estavam se mexendo. Bran viu grandes serpentes brancas deslizando para dentro e para fora da terra que o rodeava, e o seu coração saltou de medo. Perguntou a si próprio se teriam tropeçado num ninho de cobras de leite ou de gigantescos vermes sepulcrais, moles, brancos e úmidos. Vermes sepulcrais têm dentes. Hodor também os viu.

— Hodor — choramingou, relutante em continuar. Mas quando a filha da floresta parou para permitir que a vissem, a luz do archote estabilizou e Bran percebeu  que as cobras eram só raízes brancas como aquela em que baseu com a cabeça.

— São raízes de represeiro — disse. — Lembra da árvore coração no bosque sagrado, Hodor? A árvore branca com as folhas vermelhas? Uma árvore não pode te fazer mal.

— Hodor. — Hodor mergulhou em frente, apressando-se a seguir a filha da floresta e o seu archote, penetrando mais profundamente na terra. Passaram por outra ramificação, e por outra, e depois chegaram a uma caverna cheia de ecos, tão grande como o enorme salão de Winterfell, com dentes de pedra pendurados do teto e mais se projetando para cima desde o chão. A criança da floresta teceu um caminho entre eles. De tempos em tempos, parava e acenava impacientemente com o archote. Por aqui, parecia dizer, por aqui, por aqui, mais depressa.

Houve mais passagens laterais depois disso, mais salas, e Bran ouviu água pingando em algum lugar à sua direita. Quando olhou nessa direção viu olhos a olhá-los de volta, olhos fendidos que resplandeciam brilhantemente, refletindo de volta a luz do archote. Mais filhos da floresta, disse a si próprio, a menina não é a única, mas a história da Velha Nan sobre os filhos de Gendel também lhe veio à mente.