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Os olhos do mercenário estavam sempre mexendo, investigando a noite em busca de... Quê? Piratas? Homens de pedra? Caçadores de escravos? O rio tinha perigos, o anão bem o sabia, mas o próprio Griff parecia a Tyrion mais perigoso do que qualquer um desses perigos. Ele o fazia se lembrar de Bronn, embora Bronn tivesse o humor negro de um mercenário e Griff não possuísse humor nenhum.

— Estou capaz de matar por uma taça de vinho — resmungou Tyrion.

Griff não respondeu. Vai morrer antes de beber, pareciam dizer os seus olhos claros. Tyrion embebedou-se até cair na primeira noite que passou na Tímida Donzela. No dia seguinte, acordou com dragões lutando no seu crânio. Griff deu-lhe uma olhadela a vomitar da borda do barco de varejo e disse:

— Acabou a bebida para você.

— O vinho me ajuda a dormir — protestara Tyrion. O vinho afoga os meus sonhos, poderia ter dito.

— Então fica acordado — replicou Griff, implacável.

Para leste, a primeira pálida luz do dia espalhava-se pelo céu, sobre o rio. As águas do Roine passaram lentamente de negras a azuis, para combinar com o cabelo e a barba do mercenário. Griff pôs-se em pé.

— Os outros devem acordar em breve. O convés é seu. — À medida que os rouxinóis foram silenciando, as aves do rio foram nos substituindo na canção. Garças chapinhavam entre os juncos e deixavam os seus rastos nos bancos de areia. As nuvens no céu estavam afogueadas; róseas e purpúreas, castanhas e douradas, cor de pérola e açafrão. Uma parecia um dragão. Uma vez que um homem veja um dragão em voof que fique em casa e cuide satisfeito do jardim, escrevera alguém um dia, pois este vasto mundo não possui maior maravilha. Tyrion coçou a cicatriz e tentou se recordar do nome do autor. Os dragões tinham andado muito nos seus pensamentos nos últimos tempos.

— Bom dia, Hugor. — A septã Lemore apareceu com as suas vestes brancas, cingidas à cintura por um cinto tecido de sete cores. O cabelo fluía solto em volta dos ombros. — Dormiu bem?

— Aos arrancos, minha boa senhora. Voltei a sonhar com você. — Um sonho acordado. Não conseguia dormir, portanto, enfiou uma mão entre as pernas e imaginou a septã em cima dele, de seios balançando.

— Um sonho perverso, sem dúvida. É um homem perverso. Quer rezar comigo e pedir perdão pelos seus pecados?

Só se rezarmos à moda das Ilhas do Verão.

— Não, mas dê a Donzela um longo e doce beijo da minha parte.

Rindo, a septã se dirigiu à proa do barco. Era seu costume se banhar no rio todas as manhãs.

— É evidente que este barco não foi batizado em sua honra — gritou Tyrion enquanto ela se despia.

— A Mãe e o Pai nos fizeram à sua imagem, Hugor. Devíamos nos alegrar com os nossos corpos, pois são a obra de deuses.

Os deuses deviam estar bêbados quando chegou a minha vez. O anão observou enquanto Lemore deslizava para dentro da água. A cena deixava-o sempre duro. Havia algo de maravilhosamente perverso na ideia de arrancar da septã aquelas castas vestes brancas e de lhe abrir as pernas. Inocência roubada, pensou... Embora Lemore não fosse nem por sombras tão inocente como parecia. Tinha estrias na barriga que só podiam vir de um parto.

Yandry e Ysilla tinham se levantado com o sol e estavam tratando dos seus assuntos. Yandry deitava olhares à Septã Lemore enquanto verificava as cordas. A sua pequena e escura mulher, Ysilla, não reparava. Alimentou o braseiro da pavimento de popa com algumas lascas de madeira, mexeu as brasas com uma lâmina enegrecida, e começou a trabalhar a massa para os biscoitos matinais.

Quando Lemore voltou a subir para o convés, Tyrion saboreou a visão da água escorrendo entre os seios, da sua pele suave brilhando dourada à luz da manhã. Tinha mais de quarenta anos, era mais atraente do que bonita, mas continuava a ser agradável à vista. Depois de estar bêbado, a melhor coisa é a luxúria, decidiu. Fazia-o se sentir ainda vivo.

— Viu a tartaruga, Hugor? — perguntou a septã, torcendo o cabelo para secá-lo. — A grande corcunda?

O início da manhã era a melhor hora para ver tartarugas. Durante o dia nadavam para o fundo, ou se escondiam em covas ao longo das margens, mas logo após o nascer do Sol vinham à superfície. Algumas gostavam de nadar junto do barco. Tyrion vira uma dúzia de espécies diferentes; tartarugas grandes e pequenas, chatas e de ouvido vermelho, de carapaça mole e quebra-ossos, tartarugas castanhas, tartarugas verdes, tartarugas pretas, tartarugas de garras e tartarugas de chifres, tartarugas cujas carapaças corcundas e ornamentadas estavam cobertas de volutas de ouro, jade e creme. Algumas eram tão grandes que podiam ter sustentado um homem sobre o dorso. Yandry jurava que os príncipes roinares costumavam montá-las no rio. Ele e a mulher tinham nascido no Sangueverde, um par de órfãos dorneses regressados a casa, à Mãe Roine.

— Não vi a corcunda. — Estava observando a mulher nua.

— Me sinto triste por você. — Lemore enfiou a veste pela cabeça. — Sei que só se levanta  tão cedo na esperança de ver tartarugas.

— Também gosto de ver o Sol nascer. — Era como ver uma donzela sair nua do banho. Algumas podiam ser mais bonitas do que outras, mas estavam todas cheias de promessas. — As tartarugas têm os seus encantos, admito. Nada me delicia tanto como ver um belo par de bem torneadas... carapaças.

A Septã Lemore soltou uma gargalhada. Como todos os outros a bordo da Tímida Donzela, tinha os seus segredos. Que lhe fizessem bom proveito. Não quero conhecê-la, só quero fodê-la. E ela também sabia. Quando pendurou o cristal de septã ao pescoço, aninhando-o na cova entre os seios, provocou-o com um sorriso.

Yandry levantou âncora, fez deslizar uma das grandes varas para fora do teto da cabine e as empurrou para o rio. Duas das garças ergueram as cabeças para observar quando a Tímida Donzela se afastou da margem e penetrou na corrente. Lentamente, o barco começou a se mover para jusante. Yandry se dirigiu à alavanca do leme. Ysilla estava virando os biscoitos. Colocou um tacho de ferro em cima do braseiro e pois o bacon lá dentro. Havia dias em que cozinhava biscoitos e bacon, em outros bacon e biscoitos. Uma vez por quinzena talvez houvesse um peixe, mas naquele dia não.

Quando Ysilla virou as costas, Tyrion roubou um biscoito do braseiro, fugindo a tempo de evitar apanhar com a sua temível colher de pau. Os biscoitos eram melhores quando eram comidos quentes, pingando mel e manteiga. O cheiro do bacon cozinhando depressa trouxe Pato do porão. Farejou por cima do braseiro, recebeu uma pancada da colher de Ysilla, e foi dar a sua mijada matinal à popa do barco.

Tyrion se moveu para se juntar a ele.

— Ora aqui está uma cena digna de se ver — brincou enquanto esvaziavam as bexigas — um anão e um pato, tornando o poderoso Roine mais poderoso ainda.

Yandry soltou uma fungadela de zombaria.

— A Mãe Roine não precisa da sua água, Yollo. É o maior rio do mundo.

Tyrion sacudiu as últimas gotas.

— É suficientemente grande para afogar um anão, admito. Mas o Vago é igualmente largo. E o Tridente também, perto da foz. A Água Negra é mais profunda.