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O seu outro dever era tudo menos pateta. O Pato tem a sua espada, eu a minha pena e o meu pergaminho. Griff ordenara-lhe que tomasse nota de tudo o que sabia sobre dragões. A tarefa era gigantesca, mas o anão trabalhava nela todos os dias, escrevendo o melhor que podia enquanto se mantinha sentado de pernas cruzadas no teto da cabine.

Tyrion lera muitíssimo sobre dragões ao longo dos anos. A maioria desses relatos eram histórias vãs em que não era possível confiar, e os livros que Illyrio lhes fornecera não eram aqueles que poderia ter desejado. O que realmente queria era o texto completo de Os Fogos da Cidade Franca, a história de Valíria escrita por Galendro. Mas nenhuma cópia completa era conhecida em Westeros; até à Cidadela faltavam vinte e sete rolos. Decerto que deverão ter uma biblioteca na Velha Volantis. Poderei encontrar aí uma cópia melhor; se conseguir arranjar maneira de atravessar as Muralhas Negras e entrar no coração da cidade.

Sentia menos esperança a respeito dos Dragões, Wyrms e Serpes: A Sua História Não-Natural, do Septão Barth. Barth fora um filho de ferreiro que ascendera a Mão do Rei durante o reinado de Jaehaerys, o Conciliador. Os seus inimigos sempre tinham afirmado que era mais feiticeiro do que septão. Baelor, o Abençoado, ordenara a destruição de todos os escritos de Barth quando ascendera ao Trono de Ferro. Dez anos antes, Tyrion lera um fragmento da História Não-Natural que tinha escapado ao Amado Baelor, mas duvidava de que algum do trabalho de Barth tivesse chegado ao outro lado do mar estreito. E claro que havia ainda menos hipóteses de se deparar com o tomo fragmentário, anônimo e ensopado de sangue por vezes chamado Sangue e Fogo e outras vezes A Morte de Dragões, cuja única cópia sobrevivente estava supostamente escondida numa cave trancada sob a Cidadela.

Quando o Semi-meistre surgiu no convés, bocejando, o anão estava escrevendo aquilo de que se lembrava a respeito dos hábitos de acasalamento dos dragões, assunto sobre o qual Barth, Munkun e Thomax defendiam pontos de vista marcadamente diferentes. Haldon caminhou a passos largos até à popa para mijar para o local onde o sol cintilava na água, quebrado por cada sopro de vento.

— Devemos chegar à junção com o Noine antes de cair a noite, Yollo — gritou o Semi-meistre.

Tyrion ergueu o olhar do que estava escrevendo.

— O meu nome é Hugor. O Yollo está escondido nas minhas calças. Quer que o tire para brincar?

— É melhor que não. Podia assustar as tartarugas. — O sorriso de Haldon era tão penetrante como a lâmina de um punhal. — Como era o nome da tal rua em Lannisporto onde me disse que tinha nascido, Yollo?

— Era uma viela. Não tinha nome. — Tyrion retirava um prazer mordaz de inventar os detalhes da colorida vida de Hugor Hill, também conhecido como Yollo, um bastardo originário de Lannisporto. As melhores mentiras estão temperadas com um pouco de verdade. O anão sabia que soava como um ocidental, e um ocidental bem nascido, ainda por cima, pelo que Hugor teria de ser bastardo de um fidalgote qualquer. Nascido em Lannisporto porque conhecia essa cidade melhor do que Vilavelha ou Porto Real, e porque era nas cidades que a maioria dos anões acabavam, mesmo aqueles que eram paridos pela Governanta Saloia no meio do nabal. O campo não tinha espetáculos de aberrações ou de saltimbancos... Embora tivesse fartura de poços, para engolir gatinhos indesejados, bezerros de três cabeças e bebês como ele.

— Vejo que tem andado estragando mais do bom pergaminho, Yollo. — Haldon voltou a atar as bragas.

— Nem todos podemos ser meios meistres. — Tyrion estava com cãibras na mão. Pôs a pena de parte e flexionou os dedos curtos. — Lhe agrada outro jogo de cyvasse7. — o Semi-meistre derrotava-o sempre, mas era uma maneira de passar o tempo.

— Esta noite. Não te quer se juntar a nós para a aula do Jovem Griff?

— Porque não? Alguém tem de corrigir os seus erros.

Havia quatro cabines na Tímida Donzela. Yandry e Ysilla partilhavam uma, Griff e o Jovem Griff outra. A Septã Lemore tinha uma cabine para si, e Haldon também. A cabine do Semi-meistre era a maior das quatro. Uma das paredes estava coberta de prateleiras e caixas atafulhadas de velhos rolos e pergaminhos; outra tinha estantes de unguentos, ervas e poções. Uma luz dourada entrava em diagonal pelo ondulado vidro amarelo da janela redonda. A mobília incluía um beliche, uma mesa para escrever, uma cadeira, um banco e a mesa de cyvasse do Semi-meistre, coberta de peças esculpidas de madeira.

A aula começou pelas línguas. O Jovem Griff falava o idioma comum como se fosse a sua língua natal, e era fluente em alto valiriano, nos dialetos inferiores de Pentos, Tyrosh, Myr e Lys e na língua comercial dos marinheiros. O dialeto volanteno era tão novo para ele como para Tyrion, de modo que aprendiam todos os dias mais algumas palavras enquanto Haldon lhes corrigia os erros. O meereenês era mais difícil; as suas raízes também eram valirianas, mas a árvore fora enxertada com a dura e feia língua da Velha Ghis.

— É preciso enfiar uma abelha no nariz para falar ghiscari como deve ser — queixou-se Tyrion. O Jovem Griff riu-se, mas o Semimeistre apenas disse:

— Outra vez. — O rapaz obedeceu, embora daquela vez fizesse rolar os olhos com os seus zzzs. Ele tem melhor ouvido do que eu, Tyrion foi forçado a admitir, se bem que aposto que a minha língua continua a ser mais ágil.

A geometria seguiu-se às línguas. Aí, o rapaz era menos hábil, mas Haldon era um professor paciente, e Tyrion conseguiu também tornar-se útil. Aprendera os mistérios dos quadrados, círculos e triângulos com os meistres do pai no Rochedo Casterly, e voltaram-lhe à memória mais depressa do que teria julgado possível.

Quando se viraram para a história, o Jovem Griff estava ficando irrequieto.

— Estávamos discutindo a história de Volantis — disse-lhe Haldon. — Pode explicar a Yollo qual a diferença entre um tigre e um elefante?

— Volantis é a mais antiga das Nove Cidades Livres, a primeira filha de Valíria — respondeu o rapaz com uma voz aborrecida. — Depois da Destruição, agradou aos volantenos considerarem-se os herdeiros da Cidade Franca e os legítimos governantes do mundo, mas estavam divididos quanto a como o domínio poderia ser melhor alcançado. O Sangue Antigo preferia a espada, enquanto os mercadores e os prestamistas defendiam o comércio. Enquanto competiam pelo governo da cidade, as fações tornaram-se conhecidas como tigres e elefantes, respetivamente. Os tigres imperaram durante quase um século após a Destruição de Valíria. Durante algum tempo foram bem sucedidos. Uma frota volantena conquistou Lys e um exército volanteno capturou Myr, e durante duas gerações as três cidades foram governadas do interior das Muralhas Negras. Isso acabou quando os tigres tentaram engolir Tyrosh. Pentos entrou na guerra do lado de Tyrosh, juntamente com o Rei da Tempestade de Westeros. Bravos forneceu a um exilado liseno cem navios de guerra, Aegon Targaryen voou de Pedra do Dragão montado no Terror Negro, e Myr e Lys ergueram-se em rebelião. A guerra transformou as Terras Disputadas num deserto, e libertou Lys e Myr do jugo. Os tigres sofreram também outras derrotas. A frota que enviaram para reclamar Valíria desapareceu no Mar Fumegante. Qohor e Norvos quebraram o seu poderio no Roine quando as galés de fogo combateram no Lago Adaga. Do leste vieram os dothraki, expulsando os plebeus das suas cabanas e os nobres das suas propriedades, até só restar erva e ruínas entre a floresta de Qohor e as nascentes do Selhoru. Depois de um século de guerra, Volantis deu por si quebrada, falida e despovoada. Foi então que os elefantes se ergueram. Tem imperado desde então. Há anos em que os tigres elegem um triarca, e há anos em que não elegem, mas nunca mais do que um, de modo que os elefantes governam a cidade há trezentos anos.