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Verei, estava o anão pensando, quando detectou uma ondulação em frente, a menos de seis metros do barco. Aprestava-se a fazê-la notar a Lemore quando a coisa veio à superfície com uma onda de água que fez a Tímida Donzela balançar de lado.

Era outra tartaruga, uma cornuda de um tamanho enorme, com a carapaça verde-escura pintalgada de castanho e coberta de limos e moluscos fluviais duros e negros. Ergueu a cabeça e berrou, um rugido gutural a trovejante, mais forte do que qualquer corno de guerra que Tyrion tivesse ouvido.

— Fomos abençoados — estava Ysilla gritando ruidosamente, enquanto lágrimas lhe corriam pela cara. — Fomos abençoados, fomos abençoados.

Pato estava aos gritos e o Jovem Griff também. Haldon veio ao convés para saber qual fora a causa do alvoroço... Mas tarde demais. A gigantesca tartaruga voltara a desaparecer debaixo de água.

— Qual foi a causa de todo aquele barulho? — perguntou o Semimeistre.

— Uma tartaruga — disse Tyrion. — Uma tartaruga maior do que este barco.

— Era ele — gritou Yandry. — O Velho do Rio.

E porque não? Tyrion sorriu. Aparecem sempre deuses e maravilhas para assistir ao nascimento de reis.

DAVOS

A Alegre Parteira entrou furtivamente em Porto Branco na maré da noite, com a vela remendada ondulando a cada rajada de vento.

Era uma velha coca, e mesmo na juventude nunca ninguém a achava bonita. A figura da proa mostrava uma mulher rindo e agarrando um bebê por um pé, mas as bochechas da mulher e o rabo do bebê estavam esburacados por bichos. Incontáveis camadas de monótona tinta castanha cobriam o casco; as velas eram cinzentas e esfarrapadas. Não um era navio que atraísse um segundo olhar, a menos que fosse para tentar perceber como permanecia à tona de água. Além disso, a Alegre Parteira era conhecida em Porto Branco. Durante anos realizou diligentemente um humilde comércio entre esse porto e Vilirmãs.

Não era o tipo de chegada que Davos Seaworth esperava quando zarpou com Salla e sua frota. Nessa altura, tudo aquilo parecera mais simples. Os corvos não tinham trazido ao Rei Stannis a aliança de Porto Branco, portanto, Sua Graça mandaria um emissário para negociar pessoalmente com o Lorde Manderly. Como exibição de força, Davos chegaria a bordo da galé Valiriana, de Salla, com o resto da frota lisena atrás. Todos os cascos seriam listrados: de preto e amarelo, rosa e azul, verde e branco, púrpura e ouro. Os lisenos adoravam tons vivos, e Salladhor Saan era o mais colorido de todos. Salladhor, o Esplêndido, pensou Davos, mas as tempestades escreveram o fim de tudo isso.

Em vez da entrada triunfal, ia se contrabandear para dentro da cidade, como poderia ter feito vinte anos antes. Até saber em que pé estavam às coisas, era mais prudente desempenhar o papel de marinheiro comum, não de lorde.

As muralhas de pedra caiada de Porto Branco ergueram-se na frente deles, na margem oriental, onde a Faca Branca mergulhava no golfo. Algumas das defesas da cidade tinham sido fortalecidas desde a última vez que Davos estivera lá, meia dúzia de anos antes. O quebra-mar que dividia o porto interior do exterior foi fortificado com uma longa muralha de pedra com nove metros de altura e quase uma milha de comprimento, com torres a cada cem metros. Havia também fumo erguendo-se do Rochedo das Focas, onde em tempos tinham existido apenas ruínas. Isso pode ser bom ou mau, dependendo do lado que Lorde Wyman escolher.

Davos sempre gostou daquela cidade, desde a primeira vez que viera até ali como criado a bordo do Gato da Calçada. Embora fosse pequena quando comparada com Vilavelha e Porto Real, era limpa e bem ordenada, com ruas calcetadas largas e direitas que faziam com que fosse fácil a um homem se orientar. As casas eram feitas de pedra caiada, com telhados muito inclinados de ardósia cinzenta-escura. Roro Uhoris, o velho e rabugento capitão do Gato da Calçada, costumava dizer que era capaz de distinguir um porto de outro só pelo modo como cheiravam. As cidades eram como mulheres, insistia; cada uma tinha o seu próprio e único odor. Vilavelha era tão florida como uma viúva perfumada. Lannisporto era uma ama-de-leite, fresca e terra-a-terra, com fumo de lenha no cabelo. Porto Real fedia como uma rameira por lavar. Mas o odor de Porto Branco era penetrante e salgado, e também cheirava um pouco a peixe.

— Cheira como uma sereia deve cheirar — dizia Roro. — Cheira a mar.

E ainda cheira, pensou Davos, mas também conseguia cheirar o fumo de turfa que pairava vindo do Rochedo das Focas. A pedra marinha dominava as abordagens ao porto exterior, um maciço afloramento verde acinzentado que se erguia quinze metros acima das águas. O seu topo estava coroado por um círculo de pedras gastas, um forte anelar dos Primeiros Homens que se manteve desolado e abandonado por centenas de anos. Agora não estava abandonado. Davos via balistas e catapultas de fogo por trás das pedras verticais, e besteiros a espreitar entre elas. Ali em cima deve estar frio e úmido. Em todas as suas visitas anteriores podiam se ver focas se aquecendo ao sol sobre as pedras partidas, lá em baixo. O Bastardo Cego o obrigava sempre a contá-las quando o Gato da Calçada zarpava de Porto Branco; quanto mais focas houvesse, dizia Roro, mais sorte teriam na viagem. Agora não havia focas. O fumo e os soldados as tinham espantado para longe. Um homem mais sensato veria nisso uma advertência. Se eu tivesse um dedal de bom senso, teria ido com Salla. Podia ter voltado para sul, para junto de Marya e dos filhos. Perdi quatro filhos ao serviço do rei, e o quinto serve como seu escudeiro. Devia ter o direito de dar carinho os dois rapazes que ainda restam. Passou-se muito tempo desde que os vi pela última vez.

Em Atalaialeste, os irmãos negros lhe tinham dito que não havia amizade entre os Manderly de Porto Branco e os Bolton do Forte do Pavor. O Trono de Ferro fizera ascender Roose Bolton a Protetor do Norte, pelo que fazia sentido que Wyman Manderly declarasse o seu apoio a Stannis. Porto Branco não pode resistir sozinho. A cidade precisa de um aliado, um protetor. O Lorde Wyman precisa tanto do Rei Stannis como Stannis precisa dele. Pelo menos foi o que pareceu em Atalaialeste.

Vilirmãs corroerá essa esperança. Se o Lorde Borrell falava a verdade, se os Manderly tencionavam juntar as suas forças aos Bolton e aos Frey... não, não remoeria essa ideia. Em breve conheceria a verdade. Rezava para não ter chegado tarde demais.

Aquela muralha do quebra-mar oculta o porto interior, compreendeu na altura em que a Alegre Parteira arriava a vela. O porto exterior era maior, mas o porto interior oferecia melhor ancoragem, abrigado pela muralha da cidade de um lado e pela elevada massa do Covil do Lobo do outro, e agora também pela muralha do quebra-mar. Em Atalaialeste-do-Mar, Cotter Pyke disse a Davos que Lorde Wyman estava construindo galés de guerra. Podia haver uma vintena de navios escondidos atrás daquelas muralhas, à espera apenas de uma ordem para se lançarem ao mar.

Por trás das espessas muralhas brancas da cidade, o Novo Castelo erguia-se orgulhoso e pálido na sua colina. Davos viu também o telhado abobadado do Septo das Neves, coroado por altas estátuas dos Sete. Os Manderly tinham trazido a Fé para o norte quando foram expulsos da Campina. Porto Branco possuía também o seu bosque sagrado, um melancólico emaranhado de raízes, ramos e rochas trancado por trás das arruinadas muralhas negras do Covil do Lobo, uma antiga fortaleza que agora servia apenas como prisão. Mas eram principalmente os septões a dominar ali.