O tritão da Casa Manderly estava em evidência por todo o lado, esvoaçando nas torres do Novo Castelo, por cima do Portão das Focas, e ao longo das muralhas da cidade. Em Atalaialeste, os nortenhos insistiam que Porto Branco nunca abandonaria a sua fidelidade a Winterfell, mas Davos não viu qualquer sinal do lobo gigante dos Stark. Também não há leões. Lorde Wyman não pode ter se declarado por Tommen ainda, de contrário teria içado a sua bandeira.
Os pontões estavam repletos. Um aglomerado de barcos menores estava amarrado ao longo do mercado de peixe, desembarcando pescado. Viu também três corredores de rio, barcos longos e esguios, feitos de forma resistente para enfrentar as rápidas correntes e os rápidos pedregosos da Faca Branca. Mas eram as embarcações marítimas que lhe interessaram mais; um par de carracas tão sem graça e andrajosas como a Alegre Parteira, a galé mercante Dançarina da Tempestade, as cocas Bravo Magíster e Cornucópia, um galeão de Bravos identificado pelo casco e velas de cor púrpura...
... e ali, mais atrás, o navio de guerra.
Vê-lo atravessou-lhe a esperança com uma faca. O casco era negro e dourado, a figura da proa mostrava um leão com uma pata levantada. Leostrela, diziam as letras na sua popa, por baixo de um estandarte flutuante que ostentava as armas do rei rapaz sentado no Trono de Ferro. Um ano antes, não teria sido capaz de lê-las, mas o Meistre Pylos lhe ensinou algumas das letras em Pedra do Dragão. Por uma vez, a leitura lhe deu pouco prazer. Davos rezava pela galé ter se perdido nas mesmas tempestades que tinham assolado a frota de Salla, mas os deuses não tinham mostrado essa bondade. Os Frey estavam ali, e ele teria de enfrentá-los.
A Alegre Parteira foi amarrada à ponta de um desgastado pontão de madeira no porto exterior, bem longe da Leostrela. Enquanto a tripulação a prendia aos pilares e baixava uma prancha de embarque, o capitão aproximou-se descontraidamente de Davos. Casso Mogat era um mestiço do mar estreito, gerado por um baleeiro ibbenês e por uma rameira de Vilirmãs. Com só um metro e meio de altura e muito peludo, pintava o cabelo e as suíças de um verde musgoso. Isso o fazia parecer um toco de árvore com botas amarelas. Apesar da aparência, parecia ser um bom marinheiro, embora fosse um chefe duro para a tripulação.
— Quanto tempo fica em terra?
— Pelo menos um dia. Pode ser mais. — Davos descobriu que os lordes gostavam de manter as pessoas à espera. Suspeitava de que o faziam para deixá-las ansiosas e para demonstrar o seu poder.
— A Parteira fica aqui três dias. Mais nenhum. Vão me procurar lá em Vilirmãs.
— Se as coisas correrem bem, posso estar de volta amanhã de manhã.
— E se essas coisas correrem mal?
Posso não regressar.
— Não precisa esperar por mim.
Um par de homens da alfândega estava subindo a bordo quando Davos desceu a prancha, mas nenhum lhe deu sequer um relance. Estavam ali para falar com o capitão e inspecionar o porão; marinheiros comuns não lhes diziam respeito, e poucos homens pareciam tão comuns como Davos. Tinha uma altura mediana, a sua astuta cara de camponês estava bronzeada pelo vento e pelo sol, a barba grisalha e o cabelo castanho eram bem salgados de cinzento. O vestuário era simples também: botas velhas, calças castanhas e túnica azul, uma capa de lã por tingir, presa com um pregador de madeira. Usava um par de luvas de couro manchadas pelo sal para esconder os dedos da mão que Stannis encurtou tantos anos antes. Davos quase nem parecia um lorde, muito menos a Mão de um rei. E ainda bem que era assim, até saber em que pé as coisas estavam ali.
Abriu caminho ao longo do pontão e pelo meio do mercado de peixe. O Bravo Magísteres estava embarcando hidromel. Pilhas com quatro barris de altura distribuíam-se pelo cais. Atrás de uma pilha viu três marinheiros jogando dados. Mais à frente, as peixeiras divulgavam a colheita do dia, e um rapaz estava batendo um ritmo num tambor enquanto um velho urso com um ar miserável dançava em círculo para um anel de corredores do rio. Dois lanceiros tinham sido colocados no Portão das Focas, com o símbolo da Casa Manderly no peito, mas estavam muito concentrados em namoriscar com uma rameira das docas para prestar qualquer atenção a Davos. O portão estava aberto, com a porta levadiça erguida. Juntou-se ao tráfego que o atravessava.
Lá dentro ficava uma praça empedrada com um fontanário no centro. Um tritão de pedra erguia-se das suas águas, com seis metros de altura da cauda à coroa. A sua barba encaracolada estava verde e branca de líquens, e um dos dentes do tridente partira-se antes de Davos nascer, mas mesmo assim ainda conseguia impressionar. Os indígenas o chamavam de Velho Pés-de-Peixe. A praça tinha o nome de um lorde morto qualquer, mas nunca ninguém a chamava de coisa que não fosse Praça do Pés-de-Peixe.
A praça estava cheia de gente naquela tarde. Uma mulher lavava a roupa de baixo no fontanário do Pés-de-Peixe, e a pendurava no tridente para secar. Sob os arcos da coluna dos vendedores ambulantes, os escribas e os cambistas tinham se instalado para o negócio, juntamente com um feiticeiro andante, uma ervanária e um malabarista muito ruim. Um homem vendia maçãs que trazia num carrinho de mão e uma mulher oferecia arenques com rodelas de cebola. Tropeçava em galinhas e crianças por todo o lado. As enormes portas de carvalho e ferro da Velha Casa da Moeda tinham estado sempre fechadas quando Davos estivera na Praça do Pés-de-Peixe, mas hoje encontravam-se abertas. Lá dentro vislumbrou centenas de mulheres, crianças e velhos, aglomerados no chão sobre pilhas de peles. Alguns tinham ardendo pequenas fogueiras para cozinhar.
Davos parou sob a coluna e trocou meio dinheiro por uma maçã.
— Há gente vivendo na Velha Casa da Moeda? — perguntou ao vendedor.
— Os que não têm outro lugar para viver. A maior parte é de plebeus vindos da Faca Branca. Gente dos Hornwood também. Com aquele Bastardo do Bolton à solta, toda gente quer estar dentro das muralhas. Não sei o que sua senhoria pensa fazer com todos eles. A maioria apareceu só com trapos às costas.
Davos sentiu uma pontada de culpa. Vieram para cá em busca de refúgio, vieram para uma cidade intocada pelos combates, e aqui apareço para voltá-los a se arrastar para a guerra. Deu uma dentada na maçã e sentiu-se também culpado por isso.
— Como é que comem?
O vendedor de maçãs encolheu os ombros.
— Uns pedem. Outros roubam. Montes de mocinhas a entrar pro negócio, como as moças fazem sempre quando não têm mais nada pra vender. Qualquer rapaz de metro e meio consegue arranjar lugar nas casernas de sua senhoria, desde que consiga agarrar numa lança.
Então está recrutando homens. Isso podia ser bom ou mau, dependia. A maçã era seca e farinhenta, mas Davos obrigou-se a dar outra dentada.
— O Lorde Wyman pretende juntar-se ao Bastardo?
— Bom — disse o vendedor de maçãs — da próxima vez que sua senhoria vier cá abaixo com fome de maçãs, tentarei me lembrar de lhe perguntar.
— Ouvi dizer que a filha ia casar com um Frey qualquer.