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— A neta. Também ouvi dizer isso, mas sua senhoria esqueceu-se de me convidar pro casamento. Olha, vai acabar com isso? Eu aceito o resto de volta. Essas sementes são boas.

Davos atirou-lhe o caroço. Uma maçã má, mas ficar sabendo que Manderly está recrutando valeu meio dinheiro. Deu a volta ao Velho Pés-de-Peixe, passou por onde uma jovem estava vendendo xícaras de leite fresco acabado de obter da sua cabra leiteira. Estava recordando mais da cidade, agora que estava ali. Depois do lugar para onde o tridente do Velho Pés-de-Peixe apontava, ficava uma viela onde se vendia bacalhau frito, estaladiço e dourado por fora e branco e laminoso por dentro. Ali ficava um bordel mais limpo do que a maioria, onde um marinheiro podia desfrutar de uma mulher sem temer ser assaltado ou morto. Do outro lado, numa daquelas casas que se agarravam às muralhas do Covil do Lobo como cracas a um velho casco, costumava ficar uma cervejaria onde faziam uma cerveja preta tão pesada e saborosa que um barril dela podia dar tanto lucro como dourado da Árvore em Bravos e no Porto de Ibben, desde que os indígenas deixassem ao cervejeiro alguma cerveja para vender.

Mas era vinho que ele queria; amargo, escuro e muito ruim. Atravessou a praça a passos largos e desceu uma escada que levava a uma taberna chamada Enguia Preguiçosa, por baixo de um armazém cheio de peles de ovelha. Nos seus dias de contrabando, a Enguia foi renomada por oferecer as rameiras mais velhas e o vinho mais nojento de Porto Branco, além de empadões de carne cheios de toucinho e cartilagem que eram incomestíveis nos melhores dias e venenosos nos piores. Com comida daquela, a maior parte dos indígenas evitava o lugar, deixando-o para marinheiros que não conheciam outros melhores. Nunca se via um guarda da cidade na Enguia Preguiçosa, e um funcionário da alfândega também não.

Havia coisas que nunca mudavam. Dentro da Enguia, o tempo não passava. O teto abobadado estava enegrecido de fuligem, o chão era de terra batida, o ar cheirava a fumo, carne estragada e vômito rançoso. As gordas velas de sebo que havia sobre as mesas davam mais fumo do que luz, e o vinho que Davos pediu parecia mais castanho do que tinto àquela luz escassa. Quatro rameiras estavam sentadas perto da porta, bebendo. Uma deu-lhe um sorriso esperançoso quando ele entrou. Quando Davos abanou a cabeça, a mulher disse qualquer coisa que fez as companheiras rir. Depois disso, nenhuma delas lhe prestou qualquer atenção.

À parte as rameiras e o proprietário, Davos tinha a Enguia para si. A cave era grande, cheia de recantos e nichos sombrios onde um homem podia ficar sozinho. Levou o vinho para um deles e sentou-se para esperar, com as costas encostadas a uma parede.

Não muito tempo depois deu por si a fitar a lareira. A mulher vermelha conseguia ver o futuro no fogo, mas tudo o que Davos Seaworth via eram as sombras do passado: os navios ardendo, a corrente em fogo, as sombras verdes relampejando na barriga das nuvens, a Fortaleza Vermelha por cima de tudo, melancólica. Davos era um homem simples, que ascendera por sorte, pela guerra e por Stannis. Não compreendia porque os deuses haveriam de levar quatro rapazes tão jovens e fortes como os filhos, mas poupar o seu fatigado pai. Havia noites em que julgava ter sido deixado na terra para salvar Edric Storm mas, nessa altura, o filho bastardo do Rei Robert estava a salvo nos Degraus, e, no entanto, Davos ainda continuava vivo. Será que os deuses têm mais alguma tarefa para mim? perguntou a si próprio. Se tiverem, Porto Branco pode ser uma parte dela. Provou o vinho, e depois despejou metade da taça no chão ao lado do pé.

Quando o pôr-do-sol caiu lá fora, os bancos da Enguia começaram se encher de marinheiros. Davos gritou ao proprietário, pedindo mais uma taça. Quando o homem lhe trouxe, trouxe também uma vela.

— Quere comida? — perguntou. — Temos empadões de carne.

— Que tipo de carne está lá dentro?

— O tipo do costume. É bom.

As rameiras riram.

— O que ele quer dizer é que é cinzenta — disse uma delas.

— Fecha a porra dessa boca. Você come.

— Eu como todos os tipos de merda. Não quer dizer que goste.

Davos apagou a vela assim que o proprietário se afastou e recostou-se nas sombras. Os marinheiros eram os maiores mexeriqueiros do mundo quando o vinho fluía, mesmo vinho tão barato como aquele. Bastava escutar.

A maior parte do que ouviu já soubera em Vilirmãs, através do Lorde Godric ou dos indígenas da Barriga da Baleia. Tywin Lannister estava morto, assassinado pelo filho anão; o seu cadáver federa tanto que depois ninguém conseguiu entrar no Grande Septo de Baelor durante dias; a Senhora do Ninho de Águia foi assassinada por um cantor; quem governava agora o Vale era Mindinho, mas Bronze Yohn Royce jurava derrubá-lo; Balon Greyjoy também morrera, e os irmãos combatiam pela Cadeira da Pedra do Mar; Sandor Clegane tornara-se fora-da-lei e andava saqueando e matando nas terras ao longo do Tridente; Myr, Lys e Tyrosh estavam enredados em outra guerra; uma revolta de escravos enfurecia-se a leste.

Outras novas eram mais interessantes. Robett Glover estava na cidade e andava tentando recrutar homens, com pouco sucesso. Lorde Manderly virou um ouvido surdo às suas suplicas. Dizia-se que afirmava que Porto Branco estava fatigado de guerra. Isso era mau. Os Ryswell e os Dustin tinham surpreendido os homens de ferro no Rio Febre e passaram os seus dracares pelo archote. Isso era pior. E agora o Bastardo de Bolton estava cavalgando para sul com Hother Umber para se juntar e desencadear um ataque contra Fosso Cailin.

— O Terror das Rameiras em pessoa — afirmou um homem do rio que acabava de trazer uma carga de peles e madeira pelo Faca Branca abaixo — com trezentos lanceiros e cem arqueiros. Alguns homens de Hornwood juntaram-se a eles, e também homens dos Cerwyn. — Isso era o pior de tudo.

— É melhor que o Lorde Wyman mande alguns homens para combater se sabe o que é bom para ele — disse o velhote na ponta da mesa. — O Lorde Roose é agora o Protetor. Porto Branco está obrigado pela honra a responder às suas convocatórias.

— Que soube alguma vez algum Bolton sobre honra? — disse o proprietário da Enguia, enquanto lhes enchia as taças com mais vinho castanho.

— O Lorde Wyman não vai a lugar nenhum. É gordo demais.

— Ouvi dizer que está doente. Não faz nada a não ser dormir e chorar, dizem. Tá doente demais pra sair da cama quase todos os dias.

— Gordo demais, quer dizer.

— Gordo ou magro nada tem nada a ver com a coisa — disse o proprietário da Enguia. — Os leões têm o filho dele.

Ninguém falou do Rei Stannis. Ninguém sequer parecia saber que Sua Graça viera para norte ajudar a defender a Muralha. Em Atalaialeste só se falava de selvagens, criaturas e gigantes, mas ali ninguém parecia dedicar-lhes sequer um pensamento.

Davos inclinou-se para a luz.

— Julgava que os Frey tinham matado o filho. Foi o que ouvimos dizer em Vilirmãs.

— Mataram Sor Wendel — disse o proprietário. — Os ossos dele repousam no Septo Nevado com velas a toda a volta, se quiser dar uma olhada. Mas Sor Wylis ainda é cativo.

Cada vez pior. Davos soube que Lorde Wynian teve dois filhos, mas julgara que ambos estivessem mortos. Se o Trono de Ferro tem um refém... O próprio Davos foi pai de sete filhos, e perdeu quatro na Água Negra. Sabia que faria qualquer coisa que os deuses ou os homens lhe exigissem para proteger os outros três. Steffon e Stannis estavam a milhares de léguas dos combates e em segurança, mas Devan estava em Castelo Negro, era um escudeiro do rei. O rei cuja causa pode erguer-se ou cair com Porto Branco.