Os que bebiam com ele estavam agora conversando sobre dragões.
— É um doido varrido — disse um remador da Dançarina da Tempestade. — O Rei pedinte está morto há anos. Um senhor qualquer dos cavalos dothraki lhe cortou a cabeça.
— É o que nos dizem — disse o velho. — Mas se calhar estão mentindo. Ele morreu a meio mundo de distância, se é que morreu mesmo. Quem saberá? Se um rei me quisesse morto, podia ser que eu lhe fizesse a vontade e fingisse ser cadáver. Nunca nenhum de nós viu o corpo dele.
— Eu nunca vi o cadáver de Joffrey, nem o de Robert — rosnou o proprietário da Enguia. — Se calhar também estão vivos. Se calhar Baelor, o Abençoado, esteja só tirando uma soneca durante todos estes anos.
O velho fez uma careta.
— O Príncipe Viserys não era o único dragão, pois não? Temos a certeza de que mataram o filho do Príncipe Rhaegar? Era um bebê.
— Não havia também uma princesa qualquer? — perguntou uma rameira. Era a mesma que disse que a carne era cinzenta.
— Duas — disse o velho. — Uma era filha de Rhaegar, a outra irmã dele.
— Daena — disse o homem do tio. — A irmã. Daena de Pedra do Dragão. Ou seria Daera?
— Daena era a mulher do velho Rei Baelor — disse o remador. — Eu em tempos remei num navio batizado em honra dela. O Princesa Daena.
— Se era mulher de um rei, era uma rainha.
— Baelor nunca teve uma rainha. Era santo.
— Não quer dizer que nunca tenha se casado com a irmã — disse a rameira. — Nunca dormiu com ela, nem nada. Quando o fizeram rei, trancou-a numa torre. E às outras irmãs também. Haviam três.
— Daenela — disse ruidosamente o proprietário. — O nome dela era esse. Da filha do Rei Louco, hã? não do raio da mulher do Baelor.
— Daenerys — disse Davos. — Foi batizada em honra da Daenerys que casou com o Príncipe de Dorne durante o reinado de Daeron Segundo. Não sei o que foi feito dela.
— Eu sei — disse o homem que começou com a conversa dos dragões, um remador bravosiano com uma escura brigantina de lã. — Quando estivemos lá em baixo, em Pentos, ancoramos ao lado de um navio mercante chamado Donzela de Olhos Amendoados, e andei bebendo com o criado do capitão. Ele me contou uma bela história sobre uma miudinha franzina que tinha vindo a bordo em Qarth, para tentar arranjar passagem para Westeros para si e para três dragões. Tinha cabelo prateado e olhos púrpura. "Fui eu próprio a levá-la ao capitão," jurou-me este criado, "mas ele não quis saber daquilo. Há mais lucro em cravinho e açafrão, ele me disse, e as especiarias não te dão fogo às velas."
Gargalhadas varreram a cave. Davos não se juntou a eles. Sabia o que acontecera à Donzela de Olhos Amendoados. Os deuses eram cruéis por permitirem que um homem velejasse por meio mundo e depois o levarem a perseguir uma falsa luz quando estava quase em casa. Aquele capitão era um homem mais corajoso do que eu, pensou, enquanto se dirigia à porta. Uma viagem ao oriente, e um homem podia viver rico como um lorde até ao fim dos seus dias. Quando foi mais jovem, Davos sonhava em fazer tais viagens, mas os anos passaram dançando como traças em volta de uma chama, e de algum modo a altura nunca pareceu certa. Um dia, disse a si próprio. Um dia, depois que a guerra terminar e o Rei Stannis estiver sentado no Trono de Ferro e não ter mais necessidade de cavaleiros das cebolas. Levarei Devan comigo. Steffe e Stanny também, se tiverem idade para isso. Veremos esses dragões, e todas as maravilhas do mundo.
Lá fora, o vento soprava em rajadas, fazendo as chamas tremerem nas candeias que iluminavam a praça. Ficou frio desde que o Sol se pôs, mas Davos lembrava-se atravessando até o manto mais quente para congelar o sangue de um homem nas veias. Porto Branco era um banho quente por comparação.
Havia outros lugares onde podia encher as orelhas; uma estalagem famosa pelos seus empadões de lampreia, a cervejaria onde os fatores de lã e os homens da alfândega costumavam beber, uma sala de saltimbancos onde se podia obter divertimentos devassos por algum dinheiro. Mas Davos sentia que já ouvira o suficiente. Cheguei tarde demais. Um velho instinto o fez levar a mão ao peito, onde em tempos guardava os ossos de seus dedos num pequeno saco pendurado com um fio de couro. Nada aí se encontrava. Perdeu a sorte nos incêndios da Água Negra, quando perdeu o navio e os filhos.
O que devo fazer agora? Aconchegou melhor a capa. Subo a colina e me apresento aos portões do Castelo Novo, para fazer uma súplica fútil? Regresso a Vilirmãs? Volto para junto de Marya e dos rapazes? Compro um cavalo e cavalgo pela estrada do rei, para dizer a Stannis que não tem amigos em Porto Branco e também não tem esperança?
A Rainha Selyse deu um banquete a Salla e aos seus capitães, na véspera da frota zarpar. Cotter Pyke se juntou a eles, bem como quatro outros oficiais superiores da Patrulha da Noite. A Princesa Shireen também foi autorizada a estar presente. Enquanto o salmão era servido, Sor Axell Florent divertiu a mesa com a história de um príncipe Targaryen que tinha um macaco como animal de estimação. Este príncipe gostava de vestir a criatura com a roupa do seu filho morto e fingir que ela era uma criança, segundo afirmava Sor Axell, e de vez em quando propunha casamentos para ela. Os senhores assim honrados declinavam sempre educadamente, mas claro que declinavam.
— Mesmo vestido de seda e veludo, um macaco continua a ser um macaco — dissera Sor Axell. — Um príncipe mais sensato teria sabido que não se podia mandar um macaco fazer um trabalho de homem. — Os homens da rainha tinham rido, e vários dirigiram sorrisos a Davos. Não sou macaco nenhum, pensou. Sou tanto um senhor como vocês, e um homem melhor. Mas a recordação ainda o magoava.
O Portão das Focas foi fechado para a noite. Davos não poderia regressar à Alegre Parteira até à alvorada. Estava ali para passar a noite. Olhou para o Velho Pés-de-Peixe com o seu tridente quebrado. Atravessei chuvas, naufrágios e tempestades. Não regressarei sem fazer o que vim fazer, por mais inútil que isso possa parecer. Podia ter perdido os dedos e a sorte, mas não era nenhum macaco vestido de veludo. Era a Mão de um rei.
A Escada do Castelo era uma rua com degraus, uma larga via de pedra branca que levava do Covil do Lobo, ao rés da água, ao Castelo Novo na sua colina. Tritões de mármore iluminavam o caminho enquanto Davos subia, com tigelas de óleo de baleia ardendo aninhadas nos braços. Quando chegou ao topo, virou-se para olhar para trás. Dali conseguia olhar para baixo, para os portos. Ambos. Por trás da muralha do quebra-mar, o porto interior estava repleto de galés de guerra. Davos contou vinte e três. O Lorde Wyman era um homem gordo, mas não um homem ocioso, aparentemente.
Os portões do Castelo Novo tinham sido fechados, mas uma poterna se abriu quando ele gritou, e um guarda apareceu para lhe perguntar o que queria. Davos mostrou-lhe a fita preta e dourada que ostentava os selos reais.
— Preciso falar imediatamente com o Lorde Manderly — disse. — O que quero é com ele e só com ele.
DAENERYS
Os dançarinos tremeluziam, com os lustrosos corpos raspados cobertos por uma fina película de óleo. Archotes ardendo rodopiavam de mão em mão ao ritmo de tambores e dos trinados de uma flauta. Sempre que dois archotes se cruzavam no ar, uma mulher nua saltava entre eles, em cambalhota. A luz dos archotes refletia em membros, seios e nádegas oleados.