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— As suas terras do interior não são preciosas para mim. Você sim. Se algum mal te acontecer, este mundo perderá o seu sabor.

— O senhor é bom por se importar tanto comigo, mas estou bem protegida. — Dany indicou com um gesto o local onde Barristan Selmy estava com uma mão pousada no cabo da sua espada. — Chamam-lhe Barristan, o Ousado. Já me salvou de assassinos duas vezes.

Xaro dedicou a Selmy uma inspeção apressada.

— Barristan, o Usado,você disse? O seu cavaleiro do urso era mais novo e era dedicado.

— Não desejo falar de Jorah Mormont.

— Com certeza. O homem era rude e peludo. — O príncipe mercador debruçou-se sobre a mesa. — Falemos antes de amor, de sonhos, desejo e Daenerys, a mais bela mulher deste mundo. Estou bêbado de te ver.

Dany não desconhecia as cortesias empoladas de Qarth.

— Se está bêbado, culpe o vinho.

— Não há vinho que suba à cabeça como a sua beleza, nem de longe. A minha mansão tem parecido tão vazia como uma tumba desde que Daenerys partiu, e todos os prazeres da Rainha das Cidades foram como cinzas na minha boca. Porque me abandonou?

Fui corrida da sua cidade temendo pela vida.

— Estava na hora. Qarth desejava-me longe.

— Quem? Os Puronatos? Eles têm água nas veias. Os mercadores de especiarias? Têm coalhada entre as orelhas. E os Imortais estão todos mortos. Devia ter me aceitado como marido. Tenho quase a certeza de ter pedido a mão. Suplicado, até.

— Só meia centena de vezes — provocou Dany. — Desistiu com muita facilidade, senhor. Porque eu tenho de casar, toda a gente concorda.

— Uma khaleesi tem de ter um khal — disse Irri enquanto voltava a encher a taça da rainha. — É sabido.

— Devo voltar a pedir? — perguntou Xaro. — Não, conheço esse sorriso. A rainha que joga com os corações dos homens é uma rainha cruel. — Humildes mercadores como eu não passam de pedras sob as suas sandálias cravejadas de jóias. — Uma lágrima isolada correu lentamente pela cara branca.

Dany conhecia-o bem demais para ficar comovida. Os homens qartenos conseguiam chorar sempre que quisessem.

— Oh, pare com isso. — Tirou uma cereja da tigela que estava em cima da mesa e atirou-lhe no nariz. — Eu posso ser uma menininha, mas não sou suficientemente tola para casar com um homem que acha uma bandeja de fruta mais tentadora do que o meu seio. Eu vi quais dos dançarinos estava observando.

Xaro limpou a lágrima.

— Os mesmos que Vossa Graça estava seguindo, julgo eu. Veja, somos parecidos. Se não quizer me tomar como marido, me contento em ser seu escravo.

— Não quero escravos. Liberto-os. — O nariz cravejado de jóias do homem constituía um alvo tentador. Daquela vez, Dany atirou-lhe um damasco.

Xaro apanhou-o no ar e deu uma dentada.

— De onde veio esta loucura? Deveria me achar afortunado por não ter libertado os meus escravos quando foi minha hóspede em Qarth?

Eu era uma rainha pedinte e você era Xaro dos Treze, pensou Dany e tudo o que queria era os meus dragões.

— Os seus escravos pareciam bem tratados e satisfeitos. Foi só em Astapor que os meus olhos se abriram. Sabe como os Imaculados são feitos e treinados?

— Cruelmente, não duvido. Quando um ferreiro faz uma espada, enfia a lâmina no fogo, bate com um martelo e depois a mergulha em água gelada para temperar o aço. Se quer saborear o doce sabor da fruta, tem que irrigar a árvore.

— Esta árvore foi irrigada com sangue.

— E de que outra forma se criaria um soldado? Vossa Radiância apreciou os meus dançarinos. Você se surpreenderia em saber que são escravos, criados e treinados em Yunkai? Dançam desde que tiveram idade suficiente para caminhar. De que outra forma seria possível atingir tal perfeição? — bebeu um gole de vinho. — E também são especialistas em todas as artes eróticas. Tinha pensado em presentear Vossa Graça com eles.

— Com certeza. — Dany não se sentia surpreendida. — Eu os libertarei.

Aquilo o fez estremecer.

— E o que eles farão com a liberdade? É o mesmo que dar a um peixe um Camisa de cota de malha. Eles foram feitos para dançar.

— Feitos por quem? Pelos seus donos? Os seus dançarinos talvez preferissem construir, cozinhar ou cultivar a terra. Perguntou a eles?

— Os seus elefantes talvez preferissem ser rouxinóis. Em vez de doces canções, as noites de Meereen estariam cheias com trovejantes bramidos, e as suas árvores se estilhaçariam sob o peso de grandes pássaros cinzentos. — Xaro suspirou. — Daenerys, minha delícia, sob esse doce e jovem seio bate um coração gentil... mas aceite o conselho de uma cabeça mais velha e mais sensata. As coisas nem sempre são o que parecem. Muito do que pode parecer mau pode ser bom. Pense na chuva.

— A chuva? — Será que ele me toma por uma tola, ou só por uma criança?

— Nós amaldiçoamos a chuva quando cai em nossas cabeças, mas sem ela passaríamos fome. O mundo precisa de chuva... e de escravos. Fez uma careta, mas é verdade. Pense em Qarth. Em arte, música, magia, comércio, tudo o que faz de nós mais do que animais, Qarth está acima do resto da humanidade tal como você está no cume desta pirâmide... mas em baixo, em lugar de tijolos, a magnificência que é a Rainha das Cidades repousa nos dorsos de escravos. Pergunte a sí própria, se todos os homens tivessem de fossar na terra para obter comida, como ergueria fosse quem fosse os olhos para contemplar as estrelas? Se cada um de nós tiver de quebrar as costas para construir uma cabana, quem erguerá os templos para glorificar os deuses? Para que alguns homens sejam grandes, outros têm de ser escravizados.

O homem era muito eloquente para ela. Dany não tinha resposta para lhe dar, só uma crua sensação na barriga.

— A escravatura não é igual à chuva — insistiu. — Já apanhei com chuva em cima, e já fui vendida. Não é a mesma coisa. Nenhum homem deseja ser possuído.

Xaro encolheu languidamente os ombros.

— Acontece que quando desembarquei na sua adorável cidade, calhou-me ver na margem do rio um homem que tinha sido um dia hóspede na minha mansão, um mercador que negociava com especiarias raras e vinhos de primeira. Estava nu da cintura para cima, vermelho e queimando, e parecia estar cavando um buraco.

— Um buraco, não. Uma vala, para trazer água do rio para os campos. Queremos plantar feijões. Os campos de feijões têm que ter água.

— Que bondade a do meu velho amigo por te ajudar na escavação. É tão estranho nele. Será possível que não tenha sido dada a ele alternativa? Não, certamente que não. Você não tem escravos em Meereen.

Dany corou.

— O seu amigo está sendo pago com comida e abrigo. Não posso lhe devolver a riqueza. Meereen precisa mais de feijões do que de especiarias raras, e os feijões precisam de água.

— Colocará também os meus dançarinos para cavar valas? Querida rainha, quando me viu, o meu velho amigo caiu de joelhos e me suplicou que o comprasse como escravo e o levasse para Qarth.

Dany sentiu-se como se Xaro tivesse a esbofeteado.