E se o fizer, quem defenderá as minhas?
— Muitos dos meus libertos foram escravos em Astapor. Alguns talvez queiram ajudar a defender o seu rei. Essa opção é deles, na condição de homens livres. Eu dei a Astapor a sua liberdade. Cabe a vocês defendê-la.
— Então estamos todos mortos. Deu-nos a morte, não a liberdade.
— Ghael pôs-se em pé de um salto e cuspiu em sua cara.
Belvvas, o Forte, agarrou-o pelo ombro e atirou-o com tanta força ao mármore que Dany ouviu os dentes do homem partindo. Tolarrapada teria feito pior, mas ela o impediu.
— Basta — disse, esfregando levemente a cara com a ponta do tokar.
— Nunca ninguém morreu de cuspe. Leve-o daqui.
Arrastaram-no pelos pés, deixando para trás vários dentes partidos e um rastro de sangue. Dany teria de bom grado mandado embora o resto dos peticionários... mas ainda era sua rainha, portanto escutou-os e fez o melhor que pôde para lhes conceder justiça.
Ao fim dessa tarde, o Almirante Groleo e Sor Barristan regressaram da inspeção das galés. Dany reuniu o seu conselho para ouvi-los. Verme Cinzento estava lá em representação dos Imaculados, Skahaz mo Kandaq pelas Feras de Bronze. Na ausência dos seus companheiros de sangue, um engelhado jaqqa rhan chamado Rommo, vesgo e de pernas arqueadas, veio falar pelos dothraki. Os libertos eram representados pelos capitães das três companhias que formou; Mollono Yos Dob dos Escudos Vigorosos, Symon Dorsolistado dos Irmãos Livres, Marselen dos Homens da Mãe. Reznak mo Reznak pairava ao lado da rainha, e Belvvas, o Forte, mantinha-se em pé atrás dela com os braços cruzados. Conselhos não faltariam a Dany.
Groleo foi um homem muito infeliz desde que tinham desfeito o seu navio para construir as máquinas de cerco com que a rainha conquistou Meereen. Dany tentou consolá-lo nomeando-o o seu senhor almirante, mas a honraria não tinha substância; a frota meereenesa zarpara para Yunkai quando a hoste de Dany se aproximou da cidade, e o velho pentoshi era um almirante sem navios. Agora, porém, sorria através da sua irregular barba manchada de sal de uma maneira que a rainha quase não recordava.
— Quer dizer que os navios são bons? — disse, esperançosa.
— Suficientemente bons, Vossa Graça. São velhos, sim, mas a maioria está bem conservada. O casco da Legítima Princesa está carcomido. Não queira levá-lo a perder de vista da terra. O Narraqqa não desdenharia um leme e um cordame novos e o Lagarto Listado tem uns quantos remos rachados, mas servem. Os remadores são escravos, mas, se lhes oferecermos um salário honesto de remador, a maior parte ficará connosco. Não sabem fazer nada a não ser remar. Os que forem embora podem ser substituídos pelos meus tripulantes. A viagem até Westeros é longa e dura, mas aqueles navios estão num estado suficientemente bom para nos levar até lá, parece-me.
Reznak mo Reznak soltou um gemido de dar dó.
— Então é verdade. Vossa Reverência pretende nos abandonar. — Torceu as mãos. — Os yunkaitas restaurarão o poder dos Grandes Mestres no instante em que partir e aqueles de nós que tão fielmente serviram a sua causa serão atravessados pela espada, e as nossas queridas esposas e filhas donzelas serão violadas e escravizadas.
— As minhas não — resmungou o Skahaz Tolarrapada. — Antes disso, mato-as com as minhas próprias mãos. — Deu uma palmada no cabo da espada.
Dany sentiu-se como se a palmada tivesse sido dada na sua cara.
— Se teme o que se pode seguir à minha partida, venha comigo para Westeros.
— Para onde quer que a Mãe de Dragões vá, os Homens da Mãe irão também — anunciou Marselen, o irmão que restava a Missandei.
— Como? — perguntou Symon Dorsolistado, cujo nome vinha do emaranhado de cicatrizes que lhe sulcavam as costas e os ombros, um lembrete das açoitadas que sofrera enquanto foi escravo em Astapor. — Treze navios... não chega. Uma centena de navios podia não ser suficiente.
— Cavalos de madeira não prestam — objetou Rommo, o velho jaqqa rhan. — Os dothraki irão a cavalo.
— Estes podiam marchar por terra ao longo da costa — sugeriu o Verme Cinzento. — Os navios podiam acompanhá-los e reabastecer a coluna.
— Isso podia resultar até chegarem às ruínas de Bhorash — disse o Tolarrapada. — Mais para diante, os seus navios teriam que virar para sul, passando por Tolos e pela Ilha dos Cedros e velejar em volta de Valíria, enquanto a infantaria prosseguiria até Mantarys pela velha estrada dos dragões.
— Estrada dos demônios é como lhe chamam agora — disse Mollono Yos Dob. O rechonchudo comandante dos Escudos Vigorosos parecia mais escriba que soldado, com as mãos manchadas de tinta e pesada pança, mas era difícil encontrar homem mais esperto. — Morreriam mais que muitos de nós.
— Os que fossem deixados para trás em Meereen invejariam as mortes fáceis — gemeu Reznak. — Eles vão fazer de nós escravos, ou nos atirar para as arenas. Tudo será como era, ou pior.
— Onde está a sua coragem? — explodiu Sor Barristan. — Sua Graça os libertou das correntes. Cabe a vocês afiar as espadas e defender a sua liberdade quando ela partir.
— Corajosas palavras, para alguém que pretende velejar para poente — rosnou Symon Dorsolistado em resposta. — Olhará para trás para nos ver morrer?
— Vossa Graça...
— Magnificência...
— Vossa Reverência...
— Basta. — Dany deu uma palmada na mesa. — Ninguém será abandonado à morte. São todos o meu povo. — Os seus sonhos sobre o amor e um lar a tinham cegado. — Não abandonarei Meereen ao destino de Astapor. Dói-me dizê-lo, mas Westeros terá de esperar.
Groleo ficou horrorizado.
— Temos que aceitar aqueles navios. Se recusarmos este presente...
Sor Barristan caiu sobre um joelho à frente dela.
— Minha rainha, o seu reino tem necessidade de você. Aqui não é desejada, mas em Westeros os homens convergirão aos milhares sobre os seus estandartes, grandes senhores e nobres cavaleiros. "Ela voltou," gritarão uns aos outros, em vozes alegres. "A irmã do Príncipe Rhaegar finalmente veio para casa?
— Se me amam assim tanto, esperarão por mim. — Dany pôs-se em pé. — Reznak, chame Xaro Xhoan Daxos.
Recebeu o príncipe mercador sozinha, sentada no seu banco de ébano polido, sobre as almofadas que Sor Barristan lhe trouxera. Quatro marinheiros de Qarth acompanhavam-no, trazendo ao ombro uma tapeçaria enrolada.
— Trouxe outro presente para a rainha do meu coração — anunciou Xaro. — Está nos cofres da minha família desde antes da Destruição que levou Valíria.
Os marinheiros desenrolaram a tapeçaria no chão. Era velha, poeirenta, desbotada... e enorme. Dany teve de ir ao lado de Xaro para que o padrão se tornasse claro.
— Um mapa? É belo. — Cobria metade do chão. Os mares eram azuis, as terras verdes, as montanhas negras e castanhas. Cidades eram indicadas como estrelas em fio de ouro ou de prata. Não existe Mar Fumegante, compreendeu. Valíria ainda não é uma ilha. –
— Ali vê Astapor, Yunkai e Meereen. — Xaro apontou para três estrelas de prata junto ao azul da Baía dos Escravos. — Westeros fica... em algum lugar lá ao fundo. — A sua mão acenou vagamente na direção da parte mais distante do salão. — Virou para norte quando devia ter continuado para sul e para oeste, atravessando o Mar do Verão, mas com o meu presente depressa estará de volta ao lugar que é próprio. Aceite as minhas galés de coração alegre, e dobre os remos para oeste.