Faria se pudesse.
— Senhor, aceitarei alegremente esses navios, mas não posso te dar a promessa que pede. — Pegou em na mão. — Me dê as galés, e juro que Qarth terá a amizade de Meereen até que as estrelas se apaguem. Deixe-me fazer comércio com elas, e ficará com uma boa parte dos lucros.
O sorriso satisfeito de Xaro morreu em seus lábios.
— O que está dizendo? Está me dizendo que não quer ir embora?
— Não posso ir.
Lágrimas jorraram-lhe dos olhos, escorregando pelo nariz abaixo, passando por esmeraldas, ametistas e diamantes negros.
— Eu disse aos Treze que daria ouvidos à minha sensatez. Dói-me perceber que me enganei. Aceite estes navios e zarpe daqui, caso contrário irá certamente morrer aos gritos. Não pode saber quantos inimigos fez.
Sei que um está agora na minha frente, chorando lágrimas de saltimbanco. Perceber isso a entristeceu.
— Quando entrei no Salão dos Mil Tronos para suplicar junto dos Puronatos pela sua vida, disse que não passava de uma criança — prosseguiu Xaro — mas Egon Emeros, o Requintado, levantou-se e disse: "Ela é uma criança tola, louca e inconsciente e muito perigosa para ficar viva." Quando os seus dragões eram pequenos, eram uma maravilha. Crescidos, são morte e devastação, uma espada em chamas sobre o mundo. — Limpou as lágrimas. — Devia ter te matado em Qarth.
— Eu fui uma hóspede sob o seu teto, e comi do seu pão e bebi do seu vinho — disse ela. — Em memória de tudo o que fez por mim, perdoarei essas palavras... uma vez... mas nunca ouse voltar a me ameaçar.
— Xaro Xhoan Daxos não ameaça. Promete.
A tristeza dela transformou-se em fúria.
— E eu prometo que se não tiver ido embora antes de o Sol nascer, ficará sabendo quão boas são as lágrimas de um mentiroso apagando fogo de dragão. Saí da minha frente, Xaro. Depressa.
Ele foi, mas deixou o mundo atrás de si. Dany voltou a sentar-se no seu banco e fitou o mar azul de seda, na direção da distante Westeros. Um dia, promeseu a si própria.
Na manhã seguinte, os galeões de Xaro tinham desaparecido, mas o "presente" que lhe trouxe ficou para trás na Baía dos Piratas. Longas flâmulas vermelhas esvoaçavam dos mastros das treze galés qartenas, contorcendo-se ao vento. E quando Daenerys desceu para dar audiência, um mensageiro vindo dos navios a aguardava. Não proferiu palavra, mas depositou a seus pés uma almofada de cetim negro, sobre a qual repousava uma única luva manchada de sangue.
— O que é isto? — perguntou Skahaz. — Uma luva ensanguentada..
— ... significa guerra — disse a rainha.
JON
— Cuidado com as ratazanas, senhor. — Edd Doloroso indicou o caminho a Jon, escadas abaixo, com uma lanterna numa mão. — Soltam um guincho horrível quando a gente as pisa. A minha mãe costumava fazer um som parecido quando eu era rapaz. Devia ter nela um pouco de ratazana, agora que penso nisso. Cabelo castanho, olhinhos pequenos e brilhantes, gostava de queijo. Pode ser que também tivesse um rabo, nunca fui ver.
Todo o Castelo Negro estava interligado, no subsolo, por um labirinto de túneis que os irmãos chamavam "os caminhos de minhoca." Por baixo de terra era escuro e sombrio, e por isso os caminhos de minhoca eram pouco usados de verão, mas quando os ventos de inverno começavam a soprar e as neves começavam a cair, os túneis transformavam-se na maneira mais rápida de andar pelo castelo. Os intendentes já estavam a usá-los. Jon viu velas ardendo em vários nichos enquanto abriam caminho ao longo do túnel, com os passos ecoando na sua frente.
Bowen Marsh estava à espera numa encruzilhada, onde se juntavam quatro caminhos de minhoca. Tinha consigo o Wick Palito, alto e magro como uma lança.
— São estas as contagens há três turnos — disse Marsh a Jon, en- tregando-lhe um grosso maço de papéis — para comparar com as reservas atuais. Começamos pelos celeiros?
Atravessaram as sombras cinzentas debaixo da terra. Cada armazém tinha uma sólida porta de carvalho fechada com um cadeado de ferro do tamanho de um prato.
— Os roubos são um problema? — perguntou Jon.
— Ainda não — disse Bowen Marsh. — Mas quando o inverno chegar, o senhor seria sensato em colocar guardas aqui em baixo.
O Wick Palito trazia as chaves num aro em volta do pescoço. A Jon pareciam todas iguais, mas Wick conseguia de algum modo encontrar a chave certa para cada porta. Uma vez lá dentro, tirava da bolsa um pouco de giz do tamanho de um punho e marcava cada pipa, saca e barril à medida que ia- os contando, enquanto Marsh comparava a nova contagem com a antiga.
Nos celeiros havia aveia, trigo e cevada e barris de grossa farinha moída. Nas caves dos tubérculos, cordas de cebolas e alhos pendiam das vigas e sacos de cenouras, cherovias, rabanetes e nabos brancos e amarelos enchiam as prateleiras. Um armazém continha rodas de queijo tão grandes que eram precisos dois homens para deslocá-las. No outro a seguir, pipas de carne salgada de vaca, de porco e de carneiro e bacalhau salgado estavam empilhadas até uma altura de três metros. Trezentos presuntos e três mil longas morcelas pendiam de vigas do teto por baixo do fumeiro. No armário das especiarias encontraram grãos de pimenta, cravinho e canela, sementes de mostarda, coentros, salva e alegria-dos-jardins, salsa e blocos de sal. Noutros pontos havia pipas de maçãs e peras, ervilhas secas, figos secos, sacos de nozes, sacos de castanhas, sacos de amêndoas, reservas de salmão, seco e defumado, jarros de barro repletos de azeitonas em azeite e selados com cera. Um armazém continha lebres de conserva, quartos de veado conservados em mel, couves em vinagre, beterrabas em vinagre, cebolas em vinagre, ovos em vinagre e arenque em vinagre.
À medida que iam se deslocando de uma cave para a seguinte, os caminhos de minhoca pareciam ir ficando mais frios. Jon não demorou muito a começar a ver o hálito dos três congelando à luz da lanterna.
— Estamos por baixo da Muralha.
— E em breve estaremos dentro dela — disse Marsh. — A carne não se estraga no frio. Para armazenamento longo é melhor do que a salmoura.
Aquela porta era feita de ferro enferrujado. Atrás dela havia um lance de degraus de madeira. Edd Doloroso seguiu à frente com a lanterna. No topo da escada encontraram um túnel tão longo como o grande salão de Winterfell, embora não fosse mais largo do que os caminhos de minhoca. As paredes eram de gelo eriçadas de ganchos de ferro. De cada gancho pendia uma carcaça; veados e alces esfolados, quartos de carne de vaca, enormes porcos balançando do teto, ovelhas e cabras sem cabeças, até cavalos e ursos. Uma condensação de gelo cobria tudo.
Enquanto faziam a contagem, Jon descalçou a luva da mão esquerda e tocou no quadril de veado mais próximo. Sentiu os dedos colando-se, e quando os puxou perdeu um bocado de pele. Tinha as pontas dos dedos dormentes. O que você esperava? Há uma montanha de gelo por cima da tua cabeça, mais toneladas do que até Bowen Marsh conseguiria contar. Mesmo assim, a sala parecia mais fria do que devia estar.
— É pior do que eu temia, senhor — anunciou Marsh quando acabou. Parecia mais sombrio do que o Edd Doloroso.