Jon acabara de pensar que toda a carne do mundo os rodeava. Não sabes nada, Jon Snow.
— Então? Isto a mim parece bastante comida.
— Foi um longo verão. As colheitas foram fartas, os senhores generosos. Tínhamos o suficiente em armazém para nos sustentar durante três anos de inverno. Quatro, com algum racionamento. Mas agora, se tivermos de continuar a sustentar todos aqueles homens do rei e homens da rainha e selvagens... Só Vila Toupeira tem mil bocas inúteis, e continuam chegando. Ontem apareceram mais três aos portões, uma dúzia na véspera. Isto não pode continuar. Instalá-los na Dádiva está muito bem, mas é tarde demais para fazer plantios. Estaremos reduzidos a nabos e papas de ervilhas antes de o ano acabar. Depois disso, beberemos o sangue dos nossos próprios cavalos.
— Que bom — declarou Edd Doloroso. — Não há nada melhor do que uma chávena quente de sangue de cavalo numa noite fria. Gosto do meu com uma pitada de canela espalhada por cima.
O Senhor Intendente não lhe prestou atenção.
— Também vai haver doenças — prosseguiu — gengivas sangrentas e dentes caídos. O Meistre Aemon costumava dizer que sumo de lima e carne fresca remediavam isso, mas as nossas limas acabaram-se há um ano e não temos ração suficiente para sustentar rebanhos para arranjar carne fresca. Devíamos abater todos os animais, menos alguns pares de criação. Já é mais que tempo. Em invernos anteriores, a comida podia ser trazida do sul pela estrada de rei, mas com a guerra... ainda é outono, eu sei, mas aconselharia a começarmos mesmo assim com rações de inverno, se agradar ao senhor.
Os homens vão adorar.
— Se tiver de ser. Vamos cortar a porção de todos os homens em um quarto. — Se os meus irmãos estão se queixando de mim agora, o que dirão quando comerem neve e pasta de bolotas?
— Isso ajudará, senhor. — O tom de voz do Senhor Intendente tornava claro que não achava que ajudasse o suficiente.
Edd Doloroso disse:
— Agora entendo porque foi que o Rei Stannis deixou os selvagens atravessar a Muralha. Quer que nós os comamos.
Jon teve de sorrir.
— Não chegaremos a tanto.
— Oh, ótimo — disse Edd. — Parecem ser uns tipos cheios de tendões, e os meus dentes já não são tão afiados como quando eu era mais novo.
— Se tivéssemos dinheiro suficiente, podíamos comprar comida ao sul e trazê-la por mar — disse o Senhor Intendente.
Podíamos, pensou Jon, se tivéssemos o ouro e alguém disposto a ven- der-nos comida. Ambas essas condições estavam ausentes. A nossa melhor esperança pode ser o Ninho de Águia. A fertilidade do Vale de Arryn era famosa, e o Vale atravessara os combates incólume. Jon se perguntou o que sentiria a irmã da Senhora Catelyn sobre alimentar o bastardo de Ned Stark. Quando rapaz, era frequente sentir que a senhora nutria má vontade por cada uma das suas dentadas.
— Podemos sempre caçar, se for necessário — interveio o Wick Palito. — Ainda há caça nos bosques.
— E selvagens e coisas mais negras — disse Marsh. — Eu não enviaria caçadores para o exterior, senhor. Não o faria.
Pois não. Você fecharia os nossos portões para sempre, e os selaia com pedras e gelo. Bem sabia que metade de Castelo Negro concordava com o ponto de vista do Senhor Intendente. A outra metade enchia-o de escárnio.
— Selar os nossos portões e plantar na Muralha os nossos rabos pretos, pois, e o povo livre há de vir em magote pela Ponte dos Crânios ou por algum portão que julgava que tinha selado há quinhentos anos — declarara ruidosamente o velho silvícola Dywen ao jantar, duas noites antes. — Não temos homens suficientes pra vigiar cem léguas de Muralha. O Tormund Peida-de-Gigante e o merdas do Chorão tambem sabem disso. Alguma vez viu um pato congelado numa lagoa, com as patas metidas no gelo? Acontece o mesmo aos corvos. — A maior parte dos patrulheiros fazia eco de Dywen, enquanto os intendentes e os construtores tendiam a concordar com Bowen Marsh.
Mas isso era questão para outro dia. Ali e agora, o problema era a comida.
— Não podemos deixar o Rei Stannis e os seus homens com fome, mesmo se quiséssemos — disse Jon. — Se fosse necessário, ele podia simplesmente levar tudo na ponta da espada. Não temos homens suficientes para impedi-los. Os selvagens também têm de ser alimentados.
— Como, senhor? — perguntou Bowen Marsh.
Também gostaria de saber.
— Havemos de arranjar uma maneira.
Quando regressaram à superfície, as sombras da tarde estavam se tornando compridas. Nuvens riscavam o céu como estandartes esfarrapados, cinzentos e brancos e rasgados. O pátio em frente do armeiro estava vazio, mas lá dentro Jon foi encontrar o escudeiro do rei à sua espera. Dcvan era um rapaz magricela de uns doze anos, de cabelo e olhos castanhos. Foram dar com ele gelado junto da forja, quase sem se atrever a mexer-se enquanto Fantasma o farejava de cima a baixo.
— Ele não lhe fará mal — disse Jon, mas o rapaz estremeceu ao ouvir a sua voz, e esse movimento súbito fez o lobo gigante mostrar os dentes. — Não! — disse Jon. — Fantasma, deixa-o em paz. Afasta. — O lobo regressou ao seu osso de boi, silêncio sobre quatro patas.
Devan parecia tão pálido como Fantasma, com a cara úmida de suor.
— S-se-senhor. Sua Graça e-exige a vossa presença. — O rapaz estava vestido com o ouro e negro dos Baratheon, e tinha o coração flamejante de um homem da rainha cosido por cima do seu.
— Quer dizer que pede — disse o Edd Doloroso. — Sua Graça pede a presença do Senhor Comandante. Era assim que eu o diria.
— Deixa estar, Edd. — Jon não tinha disposição para aquelas questões.
— Sor Richard e Sor Justin regressaram — disse Devan. — Virá, senhor?
Os patrulheiros do lado errado. Massey e Horpe tinham cavalgado para sul, não para norte. O que quer que tivessem ficado sabendo não dizia respeito à Patrulha da Noite, mas apesar disso Jon sentia-se curioso.
— Se agradar a Sua Graça. — Seguiu o jovem escudeiro pelo pátio. Fantasma pôs-se a caminhar atrás dele até que Jon disse: — Não. Fique — Em vez disso, o lobo gigante foi-se embora correndo.
Na Torre do Rei, Jon foi despojado das armas e autorizado a apresen- tar-se ao rei. O aposento privado estava quente e repleto de gente. Stannis e os capitães estavam reunidos em volta do mapa do norte. Os patrulheiros do lado errado estavam entre eles. Sigorn, o jovem Magnar de Thenn, também lá se encontrava, vestido com um Camisa de couro com escamas de bronze a ele cosidas. O Camisa de Chocalho coçava a grilheta que tinha ao pulso com uma unha rachada e amarela. Uma barba castanha por fazer cobria-lhe as bochechas encovadas e o queixo recuado, e madeixas de cabelo sujo pendiam-lhe sobre os olhos.
— Aí vem ele — disse quando viu Jon — o corajoso rapaz que matou Mance Rayder quando ele estava engaiolado e atado. — A grande pedra preciosa de corte quadrado que adornava a sua algema de ferro reluziu, rubra. — Gosta do meu rubi, Snow? Um sinal de amor da Senhora Vermelha.
Jon ignorou-o e caiu sobre um joelho.
— Vossa Graça — anunciou o escudeiro, Devan — trouxe o Lorde Snow.
— Estou vendo isso. Senhor Comandante. Conhece os meus cavaleiros e capitães, creio.