— De quantos clãs esta falando?
— Vinte, grandes e pequenos. Flint, Wull, Norrey, Liddle... conquiste o Velho Flint e o Grande Balde, e os outros os seguirão.
— O Grande Balde?
— O Wull. Tem a maior barriga das montanhas, e o maior número de homens. Os Wull pescam na Baía de Gelo e avisam os seus pequenos que os homens de ferro os irão levar se não se portarem bem. Mas para chegar junto deles, Vossa Graça terá de passar pelas terras dos Norrey. São os que vivem mais perto da Dádiva, e sempre foram bons amigos da Patrulha. Podia fornecer-lhe guias.
— Podia? — Pouco havia que Stannis deixasse passar. — Ou iria?
— Vou. Você precisará deles. E também de alguns garranos de patas seguras. Os trilhos lá em cima pouco mais são do que caminhos de cabras.
— Caminhos de cabras? — Os olhos do rei estreitaram-se. — Eu falo de me mover rapidamente, e você desperdiça o meu tempo com caminhos de cabras?
— Quando o Jovem Dragão conquistou Dorne, usou um caminho de cabras para se desviar das torres de vigia dornesas no Caminho do Espinhaço.
— Eu também conheço essa história, mas Daeron exagerou-lhe a importância naquele seu livro vaidoso. O que venceu essa guerra foram navios, não caminhos de cabras. O Oakenfist quebrou a Vila Tabueira e subiu metade do Sangueverde enquanto as principais forças dornesas estavam em combate no Passo do Príncipe. — Stannis tamborilou no mapa com o dedo. — Estes senhores das montanhas não vão dificultar-me a passagem?
— Só com banquetes. Cada um tentará ultrapassar os outros em hospitalidade. O senhor meu pai dizia que nunca comia melhor do que quando ia visitar os clãs.
— Por três mil homens, suponho que posso aguentar umas gaitas e umas papas — disse o rei, embora o tom de voz até nisso mostrava má vontade.
Jon virou-se para Melisandre.
— Senhora, um aviso leal. Os deuses antigos são fortes naquelas montanhas. Os homens dos clãs não tolerarão insultos às suas árvores-coração.
Aquilo pareceu diverti-la.
— Não tenha medo, Jon Snow, eu não perturbarei os seus selvagens da montanha nem os seus deuses negros. O meu lugar é aqui contigo e com os seus corajosos irmãos.
Aquela era a última coisa que Jon Snow desejaria, mas antes de poder levantar objeções, o rei disse:
— Para onde acha que eu devo levar esses valentes, se não for contra o Forte do Pavor?
Jon baixou os olhos para o mapa.
— Bosque Profundo. — Deu-lhe pancadinhas com o dedo. — Se Bolton pretende combater os homens de ferro, você também o deveria fazer. Bosque Profundo é um castelo de monte e paliçada no meio de floresta densa, que é fácil apanhar de surpresa. Um castelo de madeira, defendido por um dique de terra e uma paliçada de troncos. O avanço será mais lento através das montanhas, é certo, mas lá em cima a sua hoste pode deslocar-se sem ser vista, para aparecer quase às portas de Bosque Profundo.
Stannis esfregou o queixo.
— Quando Balon Greyjoy se revoltou da primeira vez, eu venci os homens de ferro no mar, onde são mais ferozes. Em terra, apanhados de surpresa... sim. Conquistei uma vitória sobre os selvagens e o seu Rei-pa- ra-lá-da-Muralha. Se conseguir esmagar também os homens de ferro, o norte saberá que voltou a ter um rei.
Eeu terei mil selvagens, pensou Jon, e nenhuma maneira de alimentar sequer metade desse número.
TYRION
A Tímida Donzela movia-se através do nevoeiro como um cego percorrendo às apalpadelas um salão que não lhe era familiar.
A Septã Lemore rezava. As névoas abafavam o som da sua voz, fazendo com que parecesse sumida e segredada. Griff andava de um lado para o outro no convés, com a cota de malha tinindo suavemente sob o manto de pele de lobo. De vez em quando tocava na espada, como que para se assegurar de que continuava pendurada do seu flanco. Rolly Campopato empurrava a vara de estibordo, Yandry a de bombordo. Ysilla manejava o leme.
— Não gosto deste lugar — resmungou Haldon Semimeistre.
— Assustado com um nevoeirozinho? — troçou Tyrion, se bem que na verdade o nevoeiro nada tivesse de pequeno. À proa da Tímida Donzela, estava o Jovem Griff com a terceira vara, a fim de os afastar de perigos quando estes surgissem por entre as névoas. As lanternas tinham sido acendidas à proa e à popa, mas o nevoeiro era tão denso que tudo o que o anão conseguia ver do meio do barco era uma luz flutuando à sua frente e outra a segui-lo. A sua tarefa era cuidar do braseiro e assegurar-se de que o fogo não se apagava.
— Isto não é nevoeiro comum, Hugor Hill — insistiu Ysilla. — Fede a feitiçaria, como saberia se tivesse nariz para cheirá-lo. Muitos foram os viajantes que se perderam aqui, barcos de varejo e piratas e também grandes galés do rio. Vagueiam perdidas pelas névoas, à procura de um sol que não conseguem encontrar até que a loucura ou a fome reclamam as suas vidas. Há aqui espíritos inquietos no ar, e almas atormentadas debaixo da água.
— Ali está uma agora mesmo — disse Tyrion. A estibordo, uma mão suficientemente grande para esmagar o barco erguia-se das escuras profundezas. Só as pontas de dois dedos rompiam a superfície do rio mas, quando a Tímida Donzela passou por ela, Tyrion viu o resto da mão ondulando debaixo da água, e uma cara pálida olhando para cima. Embora o seu tom de voz fosse ligeiro, sentia-se inquieto. Aquele lugar era maligno, fedia a desespero e a morte. Ysilla não se engana. Este nevoeiro não é natural. Algo abominável crescia naquelas águas e apodrecia no ar. Pouco admira que os homens de pedra enlouqueçam.
— Não devia brincar — avisou Ysilla. — Os mortos sussurrantes odeiam os seres quentes e ágeis e andam sempre à procura de mais almas danadas para se juntarem a eles.
— Duvido que tenham um sudário do meu tamanho. — O anão mexeu as brasas com um atiçador.
— O ódio não desperta tanto os homens de pedra como a fome, nem por sombras. — Haldon Semimeistre tinha enrolado em volta da boca e nariz um lenço amarelo que lhe abafava a voz. — Nada que qualquer homem são queira comer cresce nestes nevoeiros. Três vezes por ano os triarcas de Volantis enviam uma galé rio acima com provisões, mas é frequente que os navios da misericórdia se atrasem, e por vezes trazem mais bocas do que comida.
O Jovem Griff disse:
— Tem de haver peixe no rio.
— Eu não comeria nenhum peixe pescado nestas águas — disse Ysilla. — Não comeria.
— E também faríamos bem em não respirar o nevoeiro — disse Haldon. — A Maldição de Garin está a toda a nossa volta.
A única maneira de não respirar o nevoeiro é não respirar.
— A Maldição de Garin é só escamagris — disse Tyrion. A maldição era frequentemente vista em crianças, especialmente em climas úmidos e frios. A pele atacada enrijecia, calcificava e estalava, embora o anão tivesse lido que o avanço da escamagris podia ser adiado por intermédio de limas, cataplasmas de mostarda, e banhos com água escaldante (segundo os meistres) ou através de oração, sacrifício e jejum (como insistiam os septões). Depois a doença passava, deixando as jovens vítimas desfiguradas, mas vivas. Tanto os meistres como os septões concordavam que as crianças marcadas pela escamagris nunca podiam ser tocadas pela forma mais rara e mortal da doença, nem pelo seu terrível primo rápido, a praga cinzenta. — Diz-se que o culpado é a umidade — disse. — Humores impuros no ar. Não maldições.