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Assim que Tyrion exalou, o Jovem Griff agarrou-lhe no braço.

— O que você quer dizer? Eu sou tudo7. O que querer dizer com isso? Porque é que eu sou tudo?

— Ora — disse Tyrion — se os homens de pedra tivessem levado Yandry, Griff ou a adorável Lemore, teríamos chorado por eles e prosseguido viagem. Se te perdermos, todo este empreendimento se desfaz, e todos estes anos de febris maquinações pelo queijeiro e pelo eunuco terão sido para nada... não é verdade?

O rapaz olhou para Griff.

— Ele sabe quem eu sou.

Se não soubesse, saberia agora. Por essa altura a Tímida Donzela estava bem para jusante da Ponte do Sonho. Tudo o que restava era uma luz que minguava à popa, e em breve também isso teria desaparecido.

— É o Jovem Griff, filho de Griff, o mercenário — disse Tyrion. — Ou talvez seja o Guerreiro com disfarce de mortal. Deixe-me ver melhor. — Ergueu o archote para que a luz caísse sobre a cara do Jovem Griff.

— Para com isso — ordenou Griff — senão vai desejar ter parado.

O anão ignorou-o.

— O cabelo azul faz com que os seus olhos pareçam azuis. Isso é bom. E a história sobre o pintar em honra da sua mãe tyroshi morta foi tão comovente que quase me fez chorar. Apesar disso, um homem curioso pode perguntar a si próprio porque haveria a cria de um mercenário qualquer precisar de uma septã maculada para instruí-lo na Fé, ou de um meistre sem corrente para lhe ensinar História e línguas. E um homem esperto poderá questionar o motivo por que seu pai contrataria um cavaleiro andante para te instruir nas armas em vez de te mandar simplesmente como aprendiz para uma das companhias livres. É quase como se alguém quisesse te manter escondido enquanto continuava a se preparar para... o quê? Ora aí está uma perplexidade, mas tenho a certeza de que a seu tempo me ocorrerá. Tenho de admitir que tem umas feições nobres para um rapaz morto.

O rapaz corou.

— Eu não estou morto.

— Como não? O senhor meu pai envolveu o seu cadáver num manto carmesim e o depositou ao lado da sua irmã na base do Trono de Ferro, como presente para o novo rei. Aqueles que tiveram estômago para erguer o manto disseram que metade da sua cabeça tinha desaparecido.

O rapaz recuou um passo, confuso.

— O seu...?

—... pai, sim. Tywin da Casa Lannister. Talvez tenha ouvido falar dele.

O Jovem Griff hesitou.

— Lannister? O seu pai...

— ... está morto. Pela minha mão. Se agradar a Vossa Graça me chamar de Yollo ou Hugor, assim seja, mas saiba que eu nasci Tyrion da Casa Lannister, legítimo filho de Tywin e Joanna, ambos os quais matei. Os homens lhe dirão que sou um regicida, um assassino de parentes e um mentiroso, e metade disso é verdade... mas de resto nós somos um bando de mentirosos, não somos? O seu pai fingido, por exemplo. Griff, não é? — O anão soltou um risinho abafado. — Devia agradecer aos deuses por Varys, a Aranha, fazer parte desta sua conspiração. Griff não teria enganado a maravilha sem pênis por um instante, tal como não me enganou. Não sou senhor nenhum, diz a nossa senhoria, não sou cavaleiro nenhum. E eu não sou anão nenhum. Dizer uma coisa não a torna verdadeira. Quem melhor para criar o filho bebê do Príncipe Rhaegar do que o querido amigo do Príncipe Rhaegar, Jon Connington, outrora Senhor do Poleiro do Grifo e Mão do Rei?

— Cale-se. — A voz de Griff soou preocupada.

A bombordo do barco, uma enorme mão de pedra estava visível mesmo por baixo da água. Dois dedos rompiam a superfície. Quantas coisas destas existem?Perguntou Tyrion a si próprio. Um regato de humidade correu-lhe pela espinha abaixo e o fez estremecer. As Mágoas foram passando por eles. Espreitando pelas névoas, vislumbrou um torreão quebrado, um herói sem cabeça, uma antiga árvore arrancada do chão e virada ao contrário, com enormes raízes que se contorciam através do telhado e janelas de uma cúpula quebrada.

Porque é que tudo isto parece tão familiar?

Mesmo em frente, uma escadaria inclinada de mármore claro ergueu-se da água escura numa graciosa espiral, terminando abruptamente três metros acima das cabeças deles. Não, pensou Tyrion, isto não é possível.

— Em frente. — A voz de Lemore soou trémula. — Uma luz.

Todos olharam. Todos a viram.

— O Rei-Pescador — disse Griff. — Esse barco ou outro qualquer como ele. — Mas voltou a puxar a espada.

Ninguém disse uma palavra. A Tímida Donzela movia-se com a corrente. A vela não foi içada desde que haviam penetrado nas Mágoas. Não tinha maneira de se deslocar salvo ao sabor do rio. Pato semicerrou os olhos, agarrado à sua vara com ambas as mãos. Passado algum tempo até Yandry parou de empurrar. Todos os olhos estavam postos na luz distante. Quando se aproximaram mais, transformou-se em duas luzes. Depois em três.

— A Ponte do Sonho — disse Tyrion.

— Inconcebível — disse Haldon Semimeistre. — Deixamos a ponte para trás. Os rios só correm num sentido.

— A Mãe Roine corre como lhe deseja — murmurou Yandry.

— Que os Sete nos salvem — disse Lemore.

Em frente, os homens de pedra na ponte começaram a gemer. Alguns estavam apontando para eles.

— Haldon, leva o príncipe para baixo — ordenou Griff.

Era tarde demais. A corrente apanhara-os nos seus dentes. Derivaram inexoravelmente na direção da ponte. Yandry espetou a vara para evitar que se esmagassem contra um pilar. A estocada empurrou-os de lado contra uma cortina de musgo cinzento-claro. Tyrion sentiu gavinhas roçando na cara, suaves como os dedos de uma rameira. Depois ouviu-se um estrondo atrás dele, e o convés inclinou-se tão subitamente que quase perdeu o equilíbrio e foi atirado borda fora.

Um homem de pedra caiu com estrondo no barco.

Aterrou no teto da cabine, tão pesadamente que a Tímida Donzela pareceu balançar, e lher rugiu uma palavra numa língua que Tyrion não reconheceu. Um segundo homem de pedra seguiu-o, aterrando lá atrás ao lado da cana do leme. As velhas tábuas estilhaçaram-se sob o impacto e Ysilla soltou um guincho.

Era Pato que estava mais perto dela. O grande homem não perdeu tempo tentando pegar na espada. Em vez disso, brandiu a vara, batendo com ela no peito do homem de pedra e atirando-o para fora do barco, para o rio, onde o homem se afundou de imediato sem soltar um som.

Griff caiu sobre o segundo homem de pedra no instante em que este desceu desajeitadamente do teto da cabine. Com uma espada na mão direita e um archote na esquerda, empurrou a.criatura para trás. Quando a corrente levou a Tímida Donzela para baixo da ponte, as suas sombras mutantes dançaram nos pilares cobertos de musgo. O homem de pedra deslocou-se para a popa, e Pato bloqueou o caminho, de vara na mão. Quando foi para frente, Haldon Semimeistre brandiu um segundo archote contra ele e o empurrou para trás. Não teve alternativa que não fosse vir diretamente contra Griff. O capitão esquivou-se para o lado, fazendo relampejar a espada. Voou uma centelha quando o aço mordeu a calcificada carne cinzenta do homem de pedra, mas o seu braço caiu na mesma ao convés. Griff pontapeou o membro para longe. Yandry e o Pato tinham se aproximado com as respetivas varas. Juntos, forçaram a criatura a cair borda fora, para dentro das águas negras do Roine.