Por essa altura a Tímida Donzela já tinha derivado sob a ponte quebrada.
— Apanhamos todos? — perguntou Pato. — Quantos saltaram?
— Dois — disse Tyrion, tremendo.
— Três — disse Haldon. — Atrás de você.
O anão virou-se, e ali estava ele.
O salto estilhaçara-lhe uma das pernas, e um bocado irregular de osso branco projetava-se através do pano apodrecido das calças e da carne cinzenta que estava por baixo. O osso quebrado estava manchado de sangue castanho, mas mesmo assim ele avançou, tentando alcançar o Jovem Griff. A sua mão era cinzenta e rígida, mas sangue jorrou entre os nós dos seus dedos quando tentou fechar os dedos para o agarrar. O rapaz manteve-se de olhos fixos, tão imóvel como se ele também fosse feito de pedra. A sua mão estava no cabo da espada, mas parecia ter se esquecido do motivo.
Tyrion fez com que o rapaz perdesse o apoio das pernas com um pontapé e saltou por cima dele quando caiu, atirando o archote à cara do homem de pedra, fazendo-o recuar, cambaleando sobre a perna estilhaçada, esbracejando contra as chamas, tentando agarrá-las com rígidas mãos cinzentas. O anão bamboleou-se atrás dele, golpeando com o archote, projetando-o contra os olhos do homem de pedra. Um pouco mais. Para trás, mais um passo, outro. Estavam no limite do convés quando a criatura correu contra ele, agarrou no archote e arrancou-lhe das mãos. Foda-se, pensou Tyrion.
O homem de pedra jogou o archote fora. Ouviu-se um suave silvo quando as águas negras apagaram as chamas. O homem de pedra uivou. Antes foi um ilhéu de verão; o seu queixo e metade do pescoço tinham se transformado em pedra, mas a pele era negra como a meia-noite onde não era cinzenta. Onde agarrouo archote, a pele rachou e abriu. Sangue jorrava dos nós dos seus dedos, embora ele não parecesse senti-lo. Tyrion supunha que isso era uma pequena misericórdia. Embora fosse mortal, pensava que a escamagris não era dolorosa.
— Afaste-se! — gritou alguém, muito longe, e outra voz disse: — O príncipe! Protege o rapaz! — o homem de pedra cambaleou em frente, de mãos estendidas e tentando agarrar.
Tyrion atirou um ombro contra ele.
Foi como atirar-se contra a parede de um castelo, mas aquele castelo erguia-se sobre uma perna quebrada. O homem de pedra caiu para trás, agarrando em Tyrion quando caiu. Atingiram o rio levantando uma monumental quantidade de água, e a Mãe Roine engoliu-os.
O súbito frio atingiu Tyrion como um martelo. Enquanto se afundava, sentiu uma mão de pedra a apalpando a sua cara. Outra fechava-se em volta do seu braço, arrastando-o para as trevas, lá em baixo. Cego, com o nariz cheio de rio, sufocado, afundando, esperneou, torceu-se e lutou pra libertar o braço, mas os dedos de pedra não cediam. Ar borbulhou entre os lábios. O mundo era negro e estava tornando-se mais negro. Não conseguia respirar.
Há piores maneiras de morrer do que o afogamento. E para falar a verdade, ele pereceu muito tempo antes, em Porto Real. Só restava o seu cadáver morto-vivo, o pequeno fantasma vingativo que estrangulou Shae e enfiou um dardo de besta nas tripas do grande Lorde Tywin. Ninguém faria luto pela coisa em que se transformou. Vou assombrar os Sete Reinos, pensou, afundando-se mais. Não quiseram me amar vivo, por isso vão me temer morto.
Quando abriu a boca para os amaldiçoar a todos, água negra encheu seus pulmões, e a escuridão fechou-se à sua volta.
DAVOS
— Sua senhoria vai te ouvir agora, contrabandista.
O cavaleiro usava armadura prateada, as caneleiras e luvas estavam incrustadas de nigelo para sugerir frondes fluidas de algas. O elmo que tinha debaixo do braço era a cabeça do rei bacalhau, com uma coroa de madrepérola e uma barba espetada de azeviche e jade. A barba dele era tão cinzenta como o mar de inverno.
Davos levantou-se.
— Posso saber o seu nome, sor?
— Sor Marlon Manderly. — Era uma cabeça mais alto do que Davos e vinte quilos mais pesado, com olhos cinzentos de ardósia e uma forma altiva de falar. — Tenho a honra de ser primo do Lorde Wyman, e comandante da sua guarnição. Siga-me.
Davos veio a Porto Branco como emissário, mas o tinham transformado em cativo. Os seus aposentos eram grandes, arejados e mobilados com elegância, mas havia guardas à porta. Da janela podia ver as ruas de Porto Branco para lá das muralhas do castelo, mas não lhe era permitido percorrê-las. Conseguia também ver o porto, e vira a Alegre Parteira descer o braço do mar. Casso Mogat esperou quatro dias em vez de três antes de partir. Outra quinzena se passou desde então.
A guarda doméstica do Lorde Manderly usava mantos de lã verde azulada, e transportava tridentes prateados em vez das lanças comuns. Um guarda seguiu à sua frente, outro atrás e um de cada lado. Passaram pelos estandartes desbotados, escudos quebrados e espadas enferrujadas de uma centena de antigas vitórias, e por uma vintena de esculturas de madeira, estaladas e corroídas por vermes, que só podiam ter adornado as proas de navios.
Dois tritões de mármore flanqueavam a corte de sua senhoria, primos menores de Pés-de-Peixe. Quando os guardas escancararam as portas, um arauto baseu com a base do bastão contra um velho assoalho de madeira.
— Sor Davos da Casa Seaworth — gritou numa voz ressonante.
Apesar de ter visitado Porto Branco tantas vezes, Davos nunca antes pôs os pés no interior de Castelo Novo, muito menos na Corte do Tritão. As suas paredes, chão e teto tinham sido feitos de tábuas de madeira encaixadas engenhosamente e decoradas com todas as criaturas do mar.
Quando se aproximaram do estrado, Davos pisou em pinturas de caranguejos, mexilhões e estrelas-do-mar, meio escondidos por entre retorcidas frondes negras de algas e ossos de marinheiros afogados. Nas paredes, de ambos os lados, pálidos tubarões patrulhavam profundezas verdes-azuladas, enquanto enguias e octópodes deslizavam entre rochas e navios afundados. Cardumes de arenques e grandes bacalhaus nadavam entre as altas janelas arqueadas. Mais acima, perto de onde as velhas redes pendiam das vigas, foi representada a superfície do mar. À sua direita, uma galé de guerra avançava, serena, para o Sol nascente; à esquerda, uma maltratada velha coca corria em frente de uma tempestade, de velas em farrapos. Atrás do estrado, uma lula gigante e um leviatã cinzento estavam unidos em batalha sob as ondas pintadas.
Davos esperara falar com Wyman Manderly a sós, mas foi encontrar uma corte cheia de gente. Ao longo das paredes, as mulheres eram cinco vezes mais numerosas do que os homens; os poucos indivíduos de sexo masculino que viu tinham longas barbas grisalhas ou pareciam ser muito jovens para fazer a barba. Também havia septões, e santas irmãs em togas brancas e cinzentas. Em pé, perto da extremidade do salão, estava uma dúzia de homens com o azul e o cinzento prateado da Casa Frey. As suas caras tinham semelhanças que até um cego teria visto; vários usavam o símbolo das Gémeas, duas torres ligadas por uma ponte.
Davos aprendeu a ler as caras dos homens muito antes do Meistre Pylos lhe ensinar a ler palavras escritas em papel. Estes Frey de bom grado me veriam morto, compreendeu com um relance.
E tampouco encontrou quaisquer boas-vindas nos olhos azuis claros de Wyman Manderly. O trono almofadado de sua senhoria era suficientemente largo para receber três homens de tamanho comum, mas Manderly ameaçava transbordar dele. Sua senhoria esparramava-se na cadeira, com os ombros descaídos, as pernas muito abertas, as mãos repousando nos braços do trono como se o seu peso fosse muito para suportar. Pela bondade dos deuses, pensou Davos quando viu a cara do Lorde Wyman, este homem parece meio cadáver. A sua pele estava pálida, com um tom cinzento subjacente.