Antes de Davos ter até tempo para pensar mover-se, estava rodeado de tridentes prateados.
— Senhor — disse — sou um emissário.
— É? Entrou dissimuladamente na minha cidade como um contrabandista. Eu digo que não é senhor algum, nem cavaleiro, nem emissário, só um ladrão e um espião, um traficante de mentiras e traições. Devia arrancar sua língua com tenazes em brasa e te entregar ao Forte do Pavor para ser esfolado. Mas a Mãe é misericordiosa, e eu também o sou. — Chamou Sor Marlon com um gesto. — Primo, leve esta criatura para o Covil do Lobo e corte-lhe a cabeça e as mãos. Quero que me sejam trazidas antes do jantar. Não conseguirei comer nem uma dentada até ver a cabeça deste contrabandista num espigão, com uma cebola enfiada entre os seus dentes mentirosos.
FEDOR
Deram-lhe um cavalo e um estandarte, um gibão de lã suave e um manto quente de peles, e soltaram-no. Por uma vez, não fedia.
— Regresse ao castelo — disse Damon-Dança-Para-Mim quando ajudou Fedor a subir, trêmulo, para cima da sela — ou continue em frente e vê se chega muito longe antes de a gente te apanhar. Ele gostaria disso, gostaria mesmo. — Sorrindo, Damon deu uma chicotada na garupa do cavalo, e o velho capado relinchou e pôs-se em movimento.
Fedor não se atreveu a olhar para trás, por temer que Damon, Pica Amarela, Grunhido e os outros viessem atrás dele, que tudo aquilo fosse só mais uma das brincadeiras de Lorde Ramsay, um teste cruel para ver o que ele faria se lhe dessem um cavalo e o libertassem. Acharão que eu vou fugir? O castrado que lhe tinham dado era uma coisa miserável, de pernas tortas e meio morto de fome; nunca poderia ter esperança de ganhar distância dos belos cavalos que Lorde Ramsay e os seus caçadores montariam. E não havia nada de que Ramsay mais gostasse do que de pôr as suas mulheres ladrando no rastro de uma presa fresca.
Além disso, para onde fugiria? Atrás dele ficavam os acampamentos, repletos de homens do Forte do Pavor e daqueles que os Ryswell tinham trazido dos Regatos, com a hoste de Vila Acidentada no meio. Ao sul do Fosso Cailin, outro exército subia a rampa, um exército dos Bolton e dos Frey marchando sob os estandartes do Forte do Pavor. Ao leste da estrada ficava uma costa lúgubre e estéril e um mar frio e salgado, a oeste os pântanos do Gargalo, infestados de serpentes, lagartos-leões e demônios dos pântanos com as suas setas envenenadas.
Não fugiria. Não podia fugir.
Entregarei o castelo. Entregarei. Tenho de entregar.
O dia estava cinzento, úmido e brumoso. O vento soprava de sul, úmido como um beijo. As ruínas de Fosso Cailin estavam visíveis à distância, salpicadas de farrapos de névoa matinal. O cavalo avançou a passo na direção delas, fazendo com os cascos tenues ruídos aquosos e viscosos quando os libertava da lama verde-acinzentada.
Já tinha passado por aqui. Era um pensamento perigoso, e se arrependeu imediatamente dele.
— Não — disse — não, isso foi outro homem qualquer, isso foi antes de saber o seu nome. — O seu nome era Fedor. Tinha que se lembrar disso. Fedor, Fedor, rima com ardor.
Quando esse outro homem passou por ali, um exército seguiu logo atrás dele, a grande hoste do norte que partia para a guerra sob os estandartes cinzentos e brancos da Casa Stark. Fedor seguia sozinho, agarrado a uma bandeira de paz num mastro de pinho. Quando esse outro homem passou por ali, estava montado num corcel, rápido e fogoso. Fedor montava um castrado em mau estado, todo pele, osso e costelas, e montava-o lentamente com medo de cair. O outro homem foi um bom cavaleiro, mas Fedor estava inquieto sobre o dorso de um cavalo. Passou-se tanto tempo. Ele não era cavaleiro nenhum. Nem sequer era um homem. Era a criatura de Lorde Ramsay, menos que um cão, um verme em pele humana.
— Vai fingir ser um príncipe — disse Lorde Ramsay na noite anterior, enquanto Fedor mergulhava numa banheira de água escaldando — mas nós sabemos a verdade. É Fedor. Será sempre Fedor, por melhor que cheire. O seu nariz pode mentir. Lembre-se do seu nome. Lembre-se de quem é.
— Fedor — disse. — O seu Fedor.
— Faça esta pequena coisa e pode ser o meu cão e comer carne todos os dias — promeseu Lorde Ramsay — Será tentado a me trair. A fugir, a lutar ou a se juntar aos nossos inimigos. Não, cale-se, não quero ouvir você negar agora. Minta para mim, e eu corto sua língua. Um homem iria virar-se contra mim no seu lugar, mas nós sabemos o que você é, não sabemos? Traia-me se quiser, não importa... mas conta primeiro os dedos e fica ciente do preço a pagar.
Fedor conhecia o preço a pagar. Sete, pensou, sete dedos. Um homem pode se arranjar com sete dedos. Sete é um número sagrado. Lembrava-se do quanto doeu quando Lorde Ramsay ordenou ao Esfolador para lhe desnudar o dedo anelar.
O ar estava úmido e pesado e poças de água pouco profundas salpicavam o terreno. Fedor escolheu o seu caminho com cuidado por entre elas, seguindo os restos da estrada de troncos e tábuas que a vanguarda de Robb Stark assentou no terreno mole a fim de tornar mais rápida a passagem da sua hoste. Onde, em tempos, se ergueu uma poderosa muralha exterior, só restavam pedras espalhadas, blocos de basalto negro tão grandes que deviam ter sido necessários cem homens para içá-los para o lugar. Alguns tinham se afundado de tal maneira no pântano que só se via um canto; outros estavam espalhados por ali como os brinquedos abandonados de um deus qualquer, rachados e se desfazendo, manchados de líquens. A chuva da noite anterior deixarou as enormes pedras úmidas e reluzindo, e o sol da manhã fazia com que parecessem estar revestidas de um óleo fino e negro.
Mais adiante erguiam-se as torres.
A Torre do Bêbado inclinava-se como se estivesse prestes a ruir, como fazia há meio milhar de anos. A Torre dos Filhos projetava-se para o céu à direita como uma lança, mas o seu topo estilhaçado estava aberto ao vento e à chuva. A Torre do Portão, atarracada e larga, era a maior das três, escorregadia de musgo, com uma árvore nodosa crescendo de lado nas pedras do seu lado norte, com fragmentos de muralha quebrada ainda erguendo-se a leste e a oeste. Os Karstark ocuparam a Torre do Bêbado e os Umber a Torre dos Filhos, recordou. Robb exigiu a Torre do Portão para os seus.
Se fechasse os olhos, podia ver os estandartes no seu olho da mente, esvoaçando corajosamente num vento fresco do norte. Agora desapareceram todos, caíram todos. O vento na sua cara soprava do sul, e os únicos estandartes que voavam sobre os restos de Fosso Cailin mostravam uma lula gigante dourada em campo negro.
Estava sendo observado. Conseguia sentir os olhos. Quando olhou para cima, obteve um vislumbre de caras pálidas espreitando de trás das ameias da Torre do Portão e por entre as pedras quebradas que coroavam a Torre dos Filhos, onde a lenda afirmava que os filhos da floresta tinham em tempos chamado o martelo das águas para quebrar as terras de Westeros em duas.
A única estrada seca que atravessava o Gargalo era o talude, e as torres de Fosso Cailin fechavam a sua extremidade norte como uma rolha numa garrafa. A estrada era estreita, e as ruínas estavam posicionadas de tal modo que qualquer inimigo que viesse do sul tinha que passar por baixo e entre elas. Para assaltar qualquer uma das três torres, um atacante tinha de expor a retaguarda a setas vindas das outras duas, enquanto trepava úmidas paredes de pedra engrinaldadas com flâmulas de viscosa e branca pele de fantasma. O terreno pantanoso fora do talude era impossível de atravessar, um atoleiro infinito cheio de remansos, areias movediças e reluzentes relvados verdes que pareciam sólidos ao olho descuidado, mas se transformavam em água no instante em que eram pisados, tudo isso infestado de serpentes e flores venenosas e monstruosos lagartos-leões cujos dentes eram como punhais. Igualmente perigosa era a sua gente, raramente vista, mas sempre à espreita, os habitantes dos pântanos, os comedores de rãs, os homens da lama. Fenn e Reed, Peat e Boggs, Cray e Quagg, Greengood e Blackmyre, eram estes os tipos de nomes que davam a si próprios. Os nascidos no ferro chamavam a todos demônios dos pântanos.