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Fedor passou pela carcaça apodrecida de um cavalo, cujo pescoço se projetava uma seta. Uma longa serpente branca deslizou de dentro da sua órbita vazia quando o homem se aproximou. Viu o cavaleiro por trás do cavalo, ou o que dele restava. Os corvos tinham arrancado a carne da cara do homem, e um cão selvagem se enfiou sob a cota de malha para chegar às entranhas. Mais adiante, outro cadáver afundou-se tanto na lama que só se via a cara e os dedos.

Mais perto das torres, cadáveres juncavam o chão por todos os lados. Flores-de-sangue tinham brotado dos ferimentos abertos, pálidas flores com pétalas rechonchudas e úmidas como os lábios de uma mulher.

A guarnição nunca me reconhecerá. Alguns podiam lembrar-se do rapaz que ele foi antes de aprender o seu nome, mas Fedor seria um estranho para eles. Passou-se muito tempo desde a última vez que olhou para um espelho, mas sabia quão velho devia parecer. O cabelo tornou-se branco; a maior parte caiu, e o que restava era rígido e seco como palha. As masmorras o tinham deixado fraco como uma velha e tão magro que um vento forte podia derrubá-lo.

E as mãos... Ramsay dera-lhe luvas, boas luvas de couro negro, suaves e flexíveis, recheadas de lã para esconder os dedos que tinha faltando, mas se alguém olhasse com atenção veria que três dos seus dedos não se dobravam.

— Mais perto não! — ressoou uma voz. — O que quer?

— Conversar. Esporeou o castrado em frente, agitando a bandeira de paz para que não deixassem de vê-la. — Venho desarmado.

Não houve resposta. Sabia que dentro das paredes os homens de ferro estavam discutindo se deveriam deixá-lo entrar ou encher-lhe o peito de setas. Não importa. Uma morte rápida ali seria cem vezes melhor do que regressar ao Lorde Ramsay como um fracassado.

Então as portas se escancararam.

— Depressa. — Fedor estava virando-se para o som quando a seta chegou. Veio de algum lugar à sua direita, onde bocados quebrados da muralha exterior jaziam meio submersos no pântano. A haste rasgou as dobras da sua bandeira e ficou pendurada, com a ponta a meros trinta centímetros da sua cara. Aquilo o sobressaltou tanto que deixou cair a bandeira de paz e tombou da sela.

— Para dentro — gritou a voz —corra, idiota, corra!

Fedor trepou os degraus sobre as mãos e os joelhos enquanto outra seta flutuava por cima da sua cabeça. Alguém o agarrou e o arrastou para dentro, e ouviu a porta fechar-se com estrondo atrás de si. Foi posto em pé e empurrado contra uma parede. Depois surgiu uma faca junto à sua garganta e uma cara barbuda apareceu tão perto da sua que conseguiria contar os pelos que o homem tinha no nariz.

— Quem é você? O que veio fazer aqui? Agora corra, senão faço a você o mesmo que fiz a ele. — O guarda dirigiu a cabeça para um corpo que apodrecia no chão ao lado da porta, com a pele verde e repleta de vermes.

— Sou nascido no ferro — respondeu Fedor, mentindo. O rapaz que foi antes foi nascido no ferro, é certo, mas Fedor veio ao mundo nas masmorras do Forte do Pavor. — Olha para a minha cara. Sou filho do Lorde Balon. O seu príncipe. — Teria dito o nome mas, sem que soubesse porquê, as palavras prenderam-se na garganta. Fedor, sou Fedor, rima com rancor. Mas tinha que esquecer aquilo por um tempo. Nunca nenhum homem se renderia a uma criatura como Fedor, por mais desesperada que fosse a situação em que se encontrasse. Tinha que fingir que era de novo um príncipe.

O captor fitou sua cara, semicerrando os olhos, com a boca torcida de suspeita. Os seus dentes eram castanhos e o hálito fedia a cerveja e a cebola.

— Os filhos do Lorde Balon foram mortos.

— Os meus irmãos sim. Eu não. O Lorde Ramsay tomou-me cativo depois de Winterfell. Enviou-me  para parlamentar com você. É você que comanda aqui?

— Eu? — o homem baixou a faca e deu um passo para trás, quase tropeçando no cadáver. — Eu não, senhor. — A sua cota de malha estava enferrujada, os couros apodreciam. Nas costas de uma mão, uma ferida aberta sangrava. — Quem tem o comando é Raif Kenning. Foi o capitão que disse. Eu estou à porta, nada mais.

— E quem é este? — Fedor deu um pontapé no cadáver.

O guarda fitou o morto como se o estivesse vendo pela primeira vez.

— Ele... ele bebeu a água. Tive que lhe cortar a goela para parar com os gritos que ele dava. Barriga má. Não se pode beber a água. É por isso que temos a cerveja. — O guarda esfregou a cara, os olhos vermelhos e inflamados. — Costumávamos arrastar os mortos para as caves. Estão todas inundadas lá em baixo. Agora ninguém quer ter esse trabalho, portanto, limitamo-nos a deixá-los onde caem.

— A cave é um lugar melhor para eles. Dá água a eles. Ao Deus Afogado.

O homem riu.

— Não há deuses lá em baixo, senhor. Só ratazanas e cobras de água. Coisas brancas, tão grossas como uma perna. Às vezes deslizam pelas escadas acima e nos mordem enquanto dormimos.

Fedor lembrou-se das masmorras sob o Forte do Pavor, da ratazana contorcendo-se entre os seus dentes, do sabor do sangue quente nos lábios. Se falhar; Ramsay me mandará de volta a isso, mas primeiro arranca a pele de outro dedo.

— Quanto da guarnição resta?

— Alguma — disse o homem de ferro. — Não sei. Menos do que éramos antes. Também há alguns na Torre do Bêbado, parece. Na Torre dos Filhos não. Dagon Codd foi lá há dias. Só dois homens estavam vivos, disse ele, e estavam comendo os mortos. Matou os dois, se dá para acreditar.

Fosso Cailin já caiu, percebeu então Fedor, só que ninguém achou por bem dizer-lhes. Esfregou a boca para esconder os dentes partidos e disse:

— Preciso  falar com o seu comandante.

— Kenning? — o guarda pareceu confundido. — Ele não tem tido muito pra dizer nestes dias. Está morrendo. Pode ser que já esteja morto. Não o vejo desde que... não me lembro quando...

— Onde está ele? Me leve lá.

— Quem guarda a porta nesse caso?

— Ele. — Fedor deu um pontapé no cadáver.

Aquilo fez o homem rir.

— Sim. Porque não? Então vem comigo. — Tirou um archote de uma arandela e sacudiu-o até arder brilhante e quente. — Por aqui. — O guarda levou-o através de uma porta e por uma escada em espiral acima, com a luz do archote cintilando em paredes de pedra preta enquanto subiam.

O aposento no topo da escada estava escuro, cheio de fumo e opressivamente quente. Uma pele esfarrapada foi pendurada à frente da janela estreita para manter a umidade lá fora, e um bloco de turfa ardia em uma luz branda num braseiro. O cheiro no quarto era mau, um misto de bolor, mijo e dejetos, a fumo e doença. Esteiras sujas cobriam o chão, enquanto uma pilha de palha no canto passava por uma cama.