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Raif Kenning estava tremendo sob uma montanha de peles. As suas armas estavam empilhadas ao seu lado; espada e machado, Camisa de cota de malha, elmo de guerra de ferro. O escudo ostentava a mão nebulosa do deus da tempestade, com o relâmpago estalando dos seus dedos até um mar furioso, mas a tinta estava descolorada e caindo, e a madeira, por baixo, começava a apodrecer.

Raif também estava apodrecendo. Por baixo das peles estava nu e febril, com a carne pálida e entumecida coberta de feridas sanguinolentas e de escaras. A sua cabeça estava deformada, com uma bochecha grotescamente inchada e o pescoço de tal forma congestionado com sangue que ameaçava engolir a cara. O braço do mesmo lado estava grande como um tronco de árvore e repleto de vermes brancos. Ajuizando pelo aspeto, ninguém o banhava nem barbeava há muitos dias. Um olho chorava pus, e tinha a barba colada por vômito seco.

— O que lhe aconteceu? — perguntou Fedor.

— Estava nas ameias e um demônio dos pântanos qualquer disparou uma seta contra ele. Foi só um ferimento de raspão, mas... eles envenenam as hastes, passam merda e coisas piores nas pontas. Despejamos vinho fervendo na ferida, mas não serviu de nada.

Não posso parlamentar com esta coisa.

— Mate-o — disse Fedor ao guarda. — O juízo dele se foi. Está cheio de sangue e vermes.

O homem olhou-o de boca aberta.

— O capitão o colocou no comando.

— Você mataria um cavalo moribundo.

— Que cavalo? Nunca tive cavalo nenhum.

Eu tive. A recordação regressou de repente. Os gritos de Sorridente tinham parecido quase humanos. Com a crina incendiada, empinou-se nas patas traseiras, cego de dor, escoiceando. Não, não. Não era meu, ele não era meu, Fedor nunca teve nenhum cavalo.

— Eu o mato por você. — Fedor tirou a espada de Raif Kenning de onde ela estava, encostada ao escudo dele. Ainda tinha dedos suficientes para pegar no cabo. Quando encostou o gume da espada à garganta inchada da criatura na palha, a pele abriu-se num jorro de sangue negro e pus amarelo. Kenning contorceu-se violentamente e depois ficou imóvel. Um fedor horrível encheu a sala. Fedor precipitou-se para a escada. O ar estava úmido e frio, mas muito mais limpo em comparação. O homem de ferro saiu aos tropeções da sala atrás dele, pálido e lutando para não vomitar. Fedor agarrou-lhe num braço. — Quem se seguia a ele na hierarquia? Onde está o resto dos homens?

— Lá em cima nas ameias, ou no salão. Dormindo, bebendo. Eu te levo lá se quiser.

— Leve já. — Ramsay só lhe deu um dia.

O salão era de pedra escura, de teto alto e cheio de correntes de ar, estava repleto de fumo e tinha as paredes de pedra enodoadas com enormes manchas de líquens de cor clara. Um fogo de turfa ardia com pouca intensidade numa lareira enegrecida por fogos mais quentes de anos anteriores. Uma enorme mesa de pedra cinzelada enchia o aposento, como fazia há séculos. Foi ali que me sentei, da última vez que estive aqui, recordou. Robb estava na cabeceira da mesa, com Grande-Jon à direita e Roose Bolton à esquerda. Os Glover sentavam-se ao lado de Heiman Tallhart. O Karstark e os filhos estavam na frente deles.

Duas dúzias de nascidos no ferro estavam bebendo à mesa. Alguns olharam-no com olhos mortiços e sem vida quando ele entrou. O resto o ignorou. Todos eles lhe eram estranhos. Vários usavam mantos presos por broches com a forma de bacalhaus prateados. Os Codd não eram bem vistos nas Ilhas de Ferro; dizia-se que os homens eram ladrões e covardes, e as mulheres libertinas que dormiam com os próprios pais e irmãos. Não o surpreendeu que o tio tivesse decidido deixar aqueles homens para trás quando a Frota de Ferro foi para casa. Isto tornará a minha tarefa muito mais fácil.

— Raif Kenning está morto — disse. — Quem comanda aqui?

Os bebedores olharam-no sem expressão. Um riu. Outro cuspiu. Por fim, um dos Codd disse:

— Quem pergunta?

— O filho de Lorde Balon. — Fedor, o meu nome é Fedor, rima com licor. — Estou aqui às ordens de Ramsay Bolton, Senhor de Boscorno e herdeiro do Forte do Pavor, o qual me capturou em Winterfell. A sua hoste está a norte de vocês, a do pai a sul, mas Lorde Ramsay está preparado para ser misericordioso se lhe entregar Fosso Cailin antes do pôr do sol. — Puxou a carta que lhe tinham dado e atirou-a para cima da mesa, a frente dos bebedores.

Um deles pegou e virou-a nas mãos, raspando com a unha na cera cor de rosa que a selava. Passado um momento, disse:

— Pergaminho. Para que serve isso? Nós precisamos é de queijo e de carne.

— De aço, você quer dizer — disse o homem que estava a seu lado, um homem grisalho cujo braço esquerdo terminava num toco. — De espadas. De machados. Sim, e de arcos, mais uma centena de arcos, e de homens para disparar as setas.

— Homens de ferro não se rendem — disse uma terceira voz.

— Diz isso ao meu pai. Lorde Balon dobrou o joelho, quando Robert lhe quebrou a muralha. Caso contrário teria morrido. Tal como vocês morrerão se não se renderem. — Indicou o pergaminho com um gesto. — Quebre o selo. Leiam as palavras. Isso é um salvo-conduto, escrito pela mão do próprio Lorde Ramsay. Entreguem as espadas e venham comigo, que sua senhoria os alimentará e os dará licença para marchar sem serem molestados até à Costa Pedregosa e arranjar um navio que os leve para casa. Caso contrário morrerão.

— Isso é uma ameaça? — um dos Codd pôs-se em pé. Um homem grande, mas de olhos esbugalhados e boca larga, com uma pele morta e branca. O aspeto dele era como se o pai o tivesse concebido com um peixe, mas apesar disso usava uma espada longa. — Dagon Codd não se rende a nenhum homem.

Não, por favor, tem de me dar ouvidos. A ideia do que Ramsay lhe faria se se arrastasse de volta ao acampamento sem a rendição da guarnição foi quase suficiente para fazê-lo mijar-se nas calças. Fedor, Fedor, rima com pavor.

— A sua resposta é essa? — as palavras ressoaram debilmente nos seus ouvidos. — Este bacalhau fala por todos vocês?

O guarda que o tinha recebido à porta parecia menos certo.

— Victarion ordenou-nos que resistíssemos, é verdade. Ouvi-o com os meus ouvidos. Resiste aqui até que eu volte, disse ele a Kenning.

— Sim — disse o maneta. — Foi isso que ele disse. A assembleia de homens livres chamou, mas ele jurou que ia voltar, com uma coroa de madeira trazida pelo mar na cabeça e mil homens atrás de si.

— O meu tio nunca regressará — disse Fedor. — A assembleia de homens livres coroou o irmão Euron, e o Olho de Corvo tem outras guerras a travar. Julga que o meu tio os dá valor? Não dá. Vocês são aqueles que deixou para trás para morrer. Os sacudiu da mesma forma que sacode lama das botas quando vem a terra.

Aquelas palavras atingiram o alvo. Viu nos olhos deles, no modo como olharam uns para os outros ou franziram as sobrancelhas por cima dos seus copos. Todos temiam terem sido abandonados, mas precisaram de mim para transformar o medo em certeza. Aqueles não eram familiares de capitães famosos, nem pertenciam ao sangue das grandes Casas das Ilhas de Ferro. Aqueles eram os filhos de servos e de esposas de sal.