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— Se nos rendermos, podemos ir embora? — disse o maneta. — É isso que diz nisto que está aqui escrito? — Empurrou o rolo de pergaminho, ainda com o selo de cera intacto.

— Lê com os seus olhos — respondeu, embora tivesse quase a certeza de que nenhum deles sabia ler. — Lorde Ramsay trata os seus cativos de forma honrosa, desde que não tentem engana-lo. — Ele só me tirou dedos dos pés e das mãos e aquela outra coisa, quando podia ter tirado a língua, ou arrancado a pele das minhas pernas, do calcanhar à coxa. — Se lhe entregarem as espadas, sobreviverão.

— Mentiroso. — Dagon Codd puxou pela espada. — Você é aquele a quem chamam Vira-casacas. Porque haveríamos de acreditar nas suas promessas?

Ele está bêbado, compreendeu Fedor. A cerveja está falando.

— Acredite no que quiser. Eu trouxe a mensagem de Lorde Ramsay. Agora tenho de voltar para junto dele. Vamos jantar javali e nabos, empurrados para baixo com vinho tinto e forte. Aqueles que vierem comigo serão bem-vindos ao banquete. O resto morrerá antes de se passar um dia. O Senhor do Forte do Pavor vai trazer os seus cavaleiros pelo talude, enquanto o filho fará cair os seus homens sobre vocês a partir do norte. Não será dado qualquer quartel. Aqueles que morrerem combatendo serão os sortudos. Os que sobreviverem serão entregues aos demônios dos pântanos.

— Basta — rosnou Dagon Codd. — Julga que pode assustar nascidos em ferro com palavras? Desapareça. Volte para junto do seu dono, antes que eu te abra a barriga, te puxe as entranhas para fora e te obrigue a comê-las.

Podia ter dito mais, mas de súbito os olhos se abriram muito. Um machado de arremesso brotou do centro da sua testa com um sólido tunc. A espada de Codd caiu dos dedos. Sacudiu-se como um peixe preso num anzol, depois caiu de cabeça em cima da mesa.

Foi o maneta quem arremessou o machado. Quando se pôs em pé tinha outro na mão.

— Quem mais quer morrer? — perguntou aos outros bebedores. — Falem, que eu trato disso. — Finos riachos vermelhos estavam espalhando pela pedra, vindos do charco de sangue acumulado onde a cabeça de Dagon Codd acabou repousando. — Já eu quero viver, e isso não quer dizer ficar aqui e apodrecer.

Um homem bebeu um trago de cerveja. Outro virou a taça para lavar um dedo de sangue antes que atingisse o lugar onde estava sentado. Ninguém falou. Quando o maneta voltou a enfiar o machado de arremesso no cinto, Fedor soube que venceu. Quase se sentiu de novo um homem. Lorde Ramsay ficará contente comigo.

Arriou a bandeira da lula gigante com as próprias mãos, algo atrapalhado por causa dos dedos que lhe faltavam, mas agradecido por aqueles que Lorde Ramsay lhe permitiu conservar. Até que os nascidos no ferro estivessem prontos a partir demorou a maior parte da tarde. Eles eram mais do que teria suposto; quarenta e sete na Torre do Portão, e outros dezoito na Torre do Bêbado. Dois estavam tão perto da morte que não havia esperança, e outros cinco estavam fracos demais para caminhar. Isso ainda dava cinquenta e oito em condições de combater. Embora estivessem tão fracos, teriam levado consigo três vezes o seu número se Lorde Ramsay tivesse assaltado as ruínas. Ele fez bem em me mandar, disse Fedor a si próprio enquanto voltava a subir para o castrado a fim de levar a esfarrapada coluna pelo terreno pantanoso até ao local onde os nortenhos estavam acampados.

— Deixem as armas aqui — disse aos prisioneiros. — Espadas, arcos, punhais. Homens armados serão mortos sem contemplações.

Para cobrir a distância precisaram do triplo do tempo que Fedor demorou sozinho. Liteiras toscas tinham sido improvisadas para quatro dos homens que não conseguiam caminhar; o quinto era transportado pelo filho, às costas. Isso tornou o avanço lento, e todos os nascidos no ferro estavam bem conscientes de como estavam expostos, bem ao alcance dos arcos dos demônios dos pântanos e das suas setas envenenadas. Se eu morrer.morro. Fedor só rezava para o arqueiro saber o que estava fazendo, para que a morte fosse rápida e limpa. Uma morte de homem, não o fim que Raif Kenning sofreu.

O maneta caminhava à cabeça da procissão, coxeando pesadamente. O seu nome, segundo disse, era Adrack Humble, e tinha uma esposa das rochas e três esposas de sal em Grande Wyk.

— Três das quatro tinham grandes barrigas quando zarpamos — gabou-se — e os Humble são propensos a gêmeos. A primeira coisa que eu preciso de fazer quando voltar é contar os meus novos filhos. Se calhar até vou batizar algum em sua honra, senhor.

Simy chame ele de Fedor, pensou, e quando se portar mal pode cortar os dedos dos pés e dar ratazanas para comer. Virou a cabeça e cuspiu, e perguntou a si próprio se o sortudo não teria sido Raif Kenning.

Uma chuva ligeira começou a cair do céu cinzento de ardósia quando o acampamento do Lorde Ramsay apareceu na frente deles. Uma sentinela os viu passar em silêncio. O ar estava cheio de fumo proveniente das fogueiras para cozinhar que se afogavam em chuva. Uma coluna de cavaleiros pôs-se às voltas atrás deles, liderada por um fidalgo com uma cabeça de cavalo no escudo. Um dos filhos do Lorde Ryswell, soube Fedor. Roger, ou talvez Rickard. Não conseguia distinguir aqueles dois.

— São todos? — perguntou o cavaleiro de cima de um garanhão cor de avelã.

— Todos os que não estavam mortos, senhor.

— Julgava que eram mais. Caímos sobre eles três vezes e por três vezes nos repeliram.

Somos nascidos no ferro, pensou, com um súbito clarão de orgulho, e durante meio segundo voltou a ser um príncipe, o filho do Lorde Balon, do sangue de Pyke. Mas até pensar era perigoso. Tinha de se lembrar do seu nome. Fedor, o meu nome é Fedor, rima com calor.

Estavam junto ao acampamento quando os latidos de uma matilha de cães anunciaram a aproximação de Lorde Ramsay. O Terror-das-Rameiras estava com ele, bem como meia dúzia dos seus favoritos, Esfolador, Alyn Azedo e Damon-Dança-Para-Mim, e também os Walder, Grande e Pequeno. Os cães agruparam-se à volta deles, mordendo e rosnando aos estranhos. As mulheress do Bastardo, pensou Fedor antes de se lembrar que uma pessoa não podia nunca, nunca, nunca usar aquela palavra na presença de Ramsay.

Fedor saltou da sela e caiu sobre um joelho.

— Senhor, Fosso Cailin é seu. Aqui estão os seus últimos defensores.

— Tão poucos. Tinha esperado que fossem mais. Foram uns inimigos tão teimosos. — Os olhos claros de Lorde Ramsay brilharam. — Devem estar esfomeados. Damon, Alyn, tratem deles. Vinho e cerveja, e toda a comida que consigam comer. Esfolador, mostra os seus feridos aos nossos meistres.

— Sim, senhor.

Alguns dos nascidos no ferro resmungaram agradecimentos antes de arrastarem os pés na direção das fogueiras no centro do acampamento. Um dos Codd até tentou beijar o anel do Lorde Ramsay, mas os cães afastaram-no antes de conseguir se aproximar, e Alison cortou-lhe um bocado da orelha. Mesmo enquanto o sangue escorria pelo pescoço abaixo, o homem bandeou a cabeça e fez reverências, elogiando a misericórdia de sua senhoria.

Depois dos últimos deles irem embora, Ramsay Bolton virou o sorriso para Fedor. Agarrou-o pela nuca, puxou-lhe a cara para junto da sua, beijou-o na bochecha e sussurrou:

— O meu velho amigo Fedor. Confundiram-lhe mesmo com o príncipe deles? Que grandes idiotas, aqueles homens de ferro. Os deuses estão rindo.

— Eles só querem ir para casa, senhor.

— E o que é que você quer, meu querido Fedor? — murmurou Ramsay, com a suavidade de um amante. O seu hálito cheirava a vinho com especiarias e a cravinho, tão doce. — Um serviço tão valente merece uma recompensa. Não posso te devolver os dedos, mas certamente haverá alguma coisa que queira de mim. Deverei te libertar? Desligar-te do meu serviço? Quer ir com eles, regressar às suas ilhas desoladas no frio mar cinzento, voltar a ser um príncipe? Ou prefere continuar a ser o meu leal criado?