Uma faca fria arranhou-o pela espinha abaixo. Tenha cuidado, disse a si próprio, tem muito, muito cuidado. Não gostava do sorriso de sua senhoria, do modo como os seus olhos brilhavam, do cuspe que cintilava aos cantos da sua boca. Já antes vira aqueles sinais. Não é príncipe nenhum. É Fedor, só Fedor, rima com fervor. Dê a resposta que ele quer.
— Senhor — disse — o meu lugar é aqui, com você. Sou o seu Fedor. Só quero te servir. Tudo o que peço... um odre de vinho, isso pode ser recompensa suficiente para mim... vinho tinto, do mais forte que tiver, todo o vinho que um homem puder beber...
Lorde Ramsay riu.— Você não é um homem, Fedor. É só a minha criatura. Mas vai ter o seu vinho. Walder, trate disso. E não tema, não lhe vou devolver às masmorras, tem a minha palavra de Bolton. Em vez disso, vamos fazer de você um cão. Carne todos os dias, e até vou deixar lhe dentes suficientes para comer. Pode dormir junto das minhas mulheres. Ben, tem uma coleira para ele?
— Vou mandar fazer uma, senhor — disse o velho Ben Ossos.
O velho fez melhor do que isso. Nessa noite, ao lado da coleira, havia também uma manta esfarrapada e meia galinha. Fedor teve de lutar com os cães pela carne, mas foi a melhor refeição que comeu desde Winterfell.
E o vinho... o vinho era escuro e amargo, mas forte. Agachado entre os cães, Fedor bebeu até ficar com a cabeça nadando, vomitou, limpou a boca e bebeu um pouco mais. Depois deitou-se e fechou os olhos. Quando acordou, um cão estava lambendo vomito da barba, e nuvens escuras passavam apressadamente em frente de um crescente de lua. Em algum lugar na noite, homens gritavam. Afastou o cão, virou-se para o outro lado, e voltou a adormecer.
Na manhã seguinte, Lorde Ramsay enviou três cavaleiros pelo talude a fim de levar ao senhor seu pai a notícia de que o caminho estava livre. O homem esfolado da Casa Bolton foi içado por cima da Torre do Portão, de onde Fedor arriou a lula gigante de Pyke. Ao longo da apodrecida estrada de tábuas, estacas de madeira foram profundamente enterradas no solo pantanoso; aí apodreceram os cadáveres, vermelhos e pingando. Sessenta e três, sabia, eles são sessenta e três. A um faltava meio braço. Outro tinha um pergaminho enfiado entre os dentes, ainda com o selo de cera intacto.
Três dias mais tarde, a vanguarda da hoste de Roose Bolton abriu caminho por entre as ruínas e ao lado das macabras sentinelas; quatrocentos Frey a cavalo vestidos de azul e cinzento, com as pontas das lanças reluzindo sempre que o sol ultrapassava as nuvens. Dois dos filhos do velho Lorde Walder lideravam a vanguarda. Um era forte, com um grande maxilar projetado e braços cobertos de grossos músculos. O outro tinha olhos famintos, muito juntos por cima de um nariz pontiagudo, uma fina barba castanha que não conseguia esconder o queixo fraco que havia por baixo, uma cabeça calva. Hosteen e Aenys. Lembrava-se deles antes de saber o seu nome. Hosteen era um touro, lento a se enfurecer, mas implacável depois de irritado, e tinha a reputação de ser o mais feroz combatente entre a prole de Lorde Walder. Aenys era mais velho, mais cruel e mais inteligente; um comandante, não um espadachim. Ambos eram soldados experimentados.
Os nortenhos seguiam logo atrás da vanguarda, com as bandeiras esfarrapadas esvoaçando ao vento. Fedor viu-os passar. A maioria vinha a pé, e eram tão poucos. Lembrava-se da grande hoste que marchou para sul com o Jovem Lobo, sob o lobo gigante de Winterfell. Vinte mil espadas e lanças tinham partido para a guerra com Robb, ou tão perto disso que não fazia diferença, mas só dois em cada dez estava de volta, e a maioria eram homens do Forte do Pavor.
Onde a aglomeração era maior no centro da coluna seguia um homem revestido de uma armadura de placas cinzentas escuras por cima de uma túnica almofadada e de couro vermelho de sangue. Os seus rondeis estavam trabalhados em forma de cabeças humanas, com bocas abertas que gritavam em agonia. Dos ombros fluía um manto de lã cor-de-rosa com gotículas de sangue bordadas nele. Longas flâmulas de seda vermelha esvoaçavam do topo do elmo fechado. Nenhum cranogmano matará Roose Bolton com uma seta envenenada, pensou Fedor logo que o viu. Uma carroça fechada avançava gemendo a seu lado, puxada por seis pesados cavalos de tração e defendida por besteiros, à frente e à retaguarda. Cortinas de veludo azul-escuro ocultavam os ocupantes da carroça dos olhos vigilantes.
Mais atrás vinha a coluna logística; pesados carros carregados com provisões e com o saque obtido na guerra, e carroças abertas repletas de homens feridos e mutilados. E, à retaguarda, mais Freys. Pelo menos mil, talvez mais; arqueiros, lanceiros, camponeses armados com gadanhas e paus aguçados, cavaleiros livres e arqueiros montados, e mais cem cavaleiros para enrijecê-los.
De coleira posta, a ferros e de novo vestido de farrapos, Fedor seguiu com os outros cães atrás de Lorde Ramsay quando sua senhoria avançou a passos largos para cumprimentar o pai. Quando o cavaleiro da armadura escura removeu o elmo, contudo, a cara que estava por baixo não era uma cara que Fedor conhecesse. O sorriso de Ramsay coalhou ao ver aquilo, e a ira relampejou no seu rosto.
— O que é isto, alguma brincadeira?
— Só cautela — sussurrou Roose Bolton ao emergir de trás das cortinas da carroça fechada.
O Senhor do Forte do Pavor não mostrava uma forte semelhança com o filho bastardo. A cara estava escanhoada e tinha uma pele lisa, e era vulgar, não bonita, mas também não propriamente simples. Embora Roose tivesse estado em batalhas, não ostentava cicatrizes. Apesar de já estar bem para lá dos quarenta anos, mantinha-se por enquanto quase sem uma ruga que assinalasse a passagem do tempo. Os seus lábios eram tão finos que quando os apertava pareciam desaparecer por completo. Havia nele uma ausência de idade, uma quietude; na cara de Roose Bolton, a raiva e o júbilo assemelhavam-se muito. Tudo o que ele e Ramsay tinham em comum era os olhos. Os seus olhos são gelo. Fedor perguntou a si próprio se Roose Bolton alguma vez chorara. Se chora, será que as lágrimas lhe parecem frias na cara?
Em tempos, um rapaz chamado Theon Greyjoy gostava de provocar Bolton quando se sentavam em conselho com Robb Stark, troçando da sua voz baixa e fazendo gracejos com sanguessugas. Ele devia ter sido louco. Este não é homem do qual se graceje. Bastava olhar para Bolton para saber que tinha mais crueldade no mindinho do que todos os Frey juntos.
— Pai. — Lorde Ramsay ajoelhou perante o progenitor.
Lorde Roose estudou-o por um momento.
— Pode levantar. — Virou-se para ajudar duas jovens a descer da carroça.
A primeira era baixa e muito gorda, com uma cara redonda e vermelha e três queixos balançando por baixo de um capuz de zibelina.
— A minha nova esposa — disse Roose Bolton. — Senhora Walda, este é o meu filho ilegítimo. Beije a mãe da sua madrasta, Ramsay. — Ele fez. — E tenho a certeza de que se lembra da Senhora Arya. A sua prometida.
A menina era magra, e mais alta do que se lembrava, mas isso era de se esperar. As meninas crescem depressa naquela idade. O seu vestido era de lã cinzenta debruada de cetim branco; por cima trazia um manto de arminho preso com uma cabeça de lobo em prata. Cabelo castanho-escuro caía-lhe até meio das costas. E os olhos...