Aquela não é filha de Lorde Eddard.
Arya tinha os olhos do pai, os olhos cinzentos dos Stark. Uma menina da sua idade podia deixar crescer o cabelo, acrescentar centímetros à altura, assistir ao enchimento do busto, mas não podia mudar a cor dos olhos. Aquela é a amiguinha da Sansa, a filha do intendente. O nome dela era Jeyne. Jeyne Poole.
— Lorde Ramsay. — A menina fez uma reverência na frente dele. Aquilo também estava errado. A verdadeira Arya Stark teria cuspido em sua cara. — Rezo para ser para você uma boa esposa e te dar filhos fortes que se pareçam com você.
JON
A vela se apagou num charco de cera, mas a luz da manhã brilhava através da janela. Jon voltou a adormecer em cima do trabalho. Livros cobriam a sua mesa, grandes pilhas deles. Foi ele próprio que os trouxe, depois de passar metade da noite perscrutando caves poeirentas à luz de uma lanterna. Sam teve razão, os livros precisavam desesperadamente de ser organizados, registados e arrumados, mas essa não era tarefa para intendentes que não sabiam ler nem escrever. Teriam de esperar pelo regresso de Sam.
Se ele regressar. Jon temia por Sam e pelo Meistre Aemon. Cotter Pyke escreveu de Atalaialeste para relatar que o Corvo de Tempestade avistou destroços de uma galé na costa de Skagos. A tripulação do Corvo de Tempestade foi incapaz de determinar se o navio quebrado era o Melro, um dos mercenários de Stannis Baratheon ou algum navio mercante de passagem. Quis enviar Goiva e o bebê para local seguro. Terei em vez disso enviado para as sepulturas?
O jantar da noite anterior congelou junto do seu cotovelo, quase intocado. Edd Doloroso encheu-lhe o trincho quase deitando por fora, para permitir que o infame estufado de três carnes do Hobb Três-Dedos amolecesse o pão duro. O gracejo entre os irmãos dizia que as três carnes eram carneiro, carneiro e carneiro, mas cenoura, cebola e nabo teriam aproximado mais da verdade. Uma película de gordura fria reluzia em cima dos restos do estufado.
Bowen Marsh insistiu com ele para se mudar para os antigos aposentos do Velho Urso na Torre do Rei depois de Stannis tê-los desocupado, mas Jon declinou. Mudar-se para os aposentos do rei podia ser interpretado com muita facilidade como significando que não esperava que o rei regressasse.
Uma estranha apatia instalara-se em Castelo Negro desde que Stannis marchou para o sul, como se tanto o povo livre como os irmãos negros estivessem segurando a respiração, à espera de ver o que aconteceria. Os pátios e a sala de jantar estavam mais frequentemente vazios do que cheios, a Torre do Senhor Comandante era uma casca, a velha sala comum uma pilha de madeira enegrecida e a Torre de Hardin dava a ideia de que a próxima rajada de vento a derrubaria. O único som de vida que Jon conseguia ouvir era o tênue tinir de espadas que vinha do pátio à porta do armeiro. Emmett de Ferro estava gritando com Robin Saltitão para este manter o escudo erguido. É melhor que todos nós mantenhamos os escudos erguidos.
Jon se lavou e se vestiu e abandonou o armeiro, parando no pátio lá fora só o tempo suficiente para dizer algumas palavras de encorajamento ao Robin Saltitão e aos outros homens a cargo de Emmett. Declinou a sugestão de Ty de lhe arranjar comitiva, como normalmente. Naquele dia teria suficientes homens à sua volta; se se chegasse a derramar sangue, mais dois pouco importariam. Mas levou Garralonga, e Fantasma seguiu-o de perto.
Quando chegou ao estábulo, Edd Doloroso tinha o palafrém do Senhor Comandante selado, ajaezado e à sua espera. As carroças estavam alinhando-se sob o olho vigilante de Bowen Marsh. O Senhor Intendente percorria a coluna a trote, apontando e se irritando, com as bochechas vermelhas do frio. Quando viu Jon, elas enrubesceram ainda mais.
— Senhor Comandante. Continua decidido a cometer esta...
— ... loucura? — concluiu Jon. — Por favor, diga-me que não se preparava para dizer "loucura", senhor. Sim, continuo. Já falamos sobre isto. Atalaialeste quer mais homens. A Torre Sombria quer mais homens. Guardagris e Marcagelo também, não duvido, e temos mais catorze castelos ainda vazios, longas léguas de Muralha que permanecem sem ser vigiadas nem defendidas.
Marsh projetou os lábios.
— O Senhor Comandante Mormont...
— ... está morto. E não às mãos de selvagens, mas às mãos dos seus próprios Irmãos Ajuramentados, nos quais confiava. Nem você nem eu podemos saber o que ele teria ou não teria feito no meu lugar. — Jon deu meia volta ao cavalo. — Basta de conversas. A caminho.
Edd Doloroso ouviu toda a conversa. Enquanto Bowen Marsh se afastava a trote, fez um aceno na direção das costas dele e disse:
— Romãs. Todas aquelas sementes. Um homem pode morrer engasgado. Eu preferia um nabo. Nunca ouvi dizer que um nabo fizesse algum mal a um homem.
Era em horas como aquela que Jon mais sentia a falta do Meistre Aemon. Clydas cuidava bastante bem dos corvos, mas não tinha um décimo dos conhecimentos ou da experiência de Aemon Targaryen, e possuía ainda menos da sua sabedoria. Bowen era um bom homem à sua maneira, mas o ferimento que sofreu na Ponte dos Crânios endureceu as suas atitudes, e a única canção que cantava agora era o refrão familiar sobre selar os portões. Othell Yarwyck era tão impassível e desprovido de imaginação como taciturno, e os Primeiros Patrulheiros pareciam morrer tão depressa como eram nomeados. A Patrulha da Noite perdeu muitos dos seus melhores homens, refletiu Jon enquanto as carroças começavam a mover-se. O Velho Urso, Qhorin Meia-Mão, Donal Noye, Jarmen Buckwell, o meu tio...
Uma neve ligeira começou a cair enquanto a coluna abria caminho para sul ao longo da estrada de rei, com a longa fila de carroças serpenteando por entre campos e ribeiros e colinas arborizadas, com uma dúzia de lanceiros e uma dúzia de arqueiros servindo de escolta. As últimas viagens tinham assistido a alguma lealdade em Vila Toupeira, a alguns empurrões e puxões, a algumas pragas resmungadas, a muitos olhares carrancudos. Bowen Marsh sentiu que era melhor não correr riscos, e por uma vez ele e Jon estavam de acordo.
O Senhor Intendente seguia à frente. Jon avançava alguns metros mais atrás, com Edd Doloroso Tollett a seu lado. Meia milha a sul de Castelo Negro, Edd levou o garrano para perto do de Jon e disse:
— Senhor? Olhe ali para cima. O grande bêbado na colina.
O bêbado era um grande freixo, torcido para o lado por séculos de vento. E agora tinha uma cara. Uma boca solene, um ramo quebrado por nariz, dois olhos profundamente esculpidos no tronco, a olhar para norte ao longo da estrada de rei, na direção do castelo e da Muralha.
Os selvagens afinal sempre trouxeram os seus deuses consigo. Jon não se sentia surpreendido. Os homens não desistiam assim tão facilmente dos seus deuses. Todo aquele cortejo que a Senhora Melisandre orquestrou para lá da Muralha pareceu de súbito tão vazio como uma farsa de saltimbanco.
— Parece-se um pouco contigo, Edd — disse, tentando retirar importância à árvore.
— Sim, senhor. Não tenho folhas crescendo no meu nariz, mas fora isso... A Senhora Melisandre não vai ficar contente.
— Não é provável que veja aquilo. Assegure-se de que ninguém lhe diga nada.
— Mas ela vê coisas naqueles fogos.
— Fumo e brasas.
— E gente ardendo. Eu, provavelmente. Com folhas enfiadas no nariz. Sempre tive medo de ser queimado, mas esperava morrer primeiro.