Jon voltou a olhar para a cara, perguntando a si próprio quem a teria esculpido. Colocou guardas em volta de Vila Toupeira, tanto para manter os seus corvos longe das mulheres selvagens, como para evitar que o povo livre se escapulisse para atacar o sul. Quem quer que tivesse esculpido o freixo tinha claramente passado despercebido às sentinelas. E se um homem podia passar através do cordão, outros também poderiam fazê-lo. Podia voltar a duplicar a guarda, pensou com amargura. Desperdiçar o dobro dos homens, homens que de outra forma podiam estar percorrendo a Muralha.
As carroças prosseguiram a sua lenta viagem para sul através de lama gelada e neve soprada pelo vento. Uma milha mais à frente encontraram uma segunda cara, esculpida num castanheiro que crescia ao lado de um regado congelado, num local em que os olhos da cara podiam observar a velha ponte de tábuas que cruzava o ribeiro.
— O dobro dos problemas — anunciou Edd Doloroso.
O castanheiro estava sem folhas e esquelético, mas os seus ramos nus e castanhos não estavam vazios. Num ramo baixo que se estendia por cima do ribeiro empoleirava-se um corvo, acocorado, com as penas eriçadas contra o frio. Quando viu Jon, estendeu as asas negras e soltou um grito. Quando Jon ergueu o punho e assobiou, a grande ave negra voou para ele, gritando:
— Grão, grão, grão.
— Grão para o povo livre — disse-lhe Jon. — Nenhum para ti. — Perguntou a si próprio se ficariam todos reduzidos a comer corvos antes de terminar o inverno que se aproximava.
Jon não duvidava que os irmãos nas carroças também tinham visto aquela cara. Ninguém falou dela, mas a mensagem tinha uma leitura clara para qualquer homem que tivesse olhos. Jon ouviu em tempos Mance Rayder dizer que a maior parte dos ajoelhadores eram ovelhas.
— Ora, um cão pode pastorear um rebanho de ovelhas — disse o Rei-para-lá-da-Muralha — mas o povo livre, bem, alguns são gatos-das-sombras e outros são pedras. Um dos tipos anda por onde lhe apetece e faz os cães em pedaços. O outro não se mexerá de todo até que o pontapeie. — Não era provável que gatos-das-sombras ou pedras desistissem dos deuses que adoraram toda a vida para se vergar perante um que mal conheciam.
Logo ao norte de Vila Toupeira depararam com o terceiro vigia, esculpido no enorme carvalho que assinalava o perímetro da aldeia, com os profundos olhos fitos na estrada de rei. Aquela não é uma cara amistosa, refletiu Jon. Era frequente que as caras que os Primeiros Homens e os filhos da floresta tinham esculpido nos represeiros havia uma eternidade mostrassem fisionomias severas ou selvagens, mas o grande carvalho parecia especialmente zangado, como se estivesse prestes a arrancar as raízes da terra e a correr atrás deles, rugindo. Os seus ferimentos são tão frescos como os dos homens que o esculpiram.
Vila Toupeira sempre foi maior do que parecia; a maior parte dela ficava no subsolo, abrigada do frio e da neve. Isso agora era mais verdadeiro do que nunca. O Magnar de Thenn passou a aldeia vazia pelo archote quando a atravessou a caminho do ataque a Castelo Negro, e só restavam acima do chão pilhas de vigas enegrecidas e velhas pedras chamuscadas...
Mas, por baixo da terra gelada, as caves e túneis e profundas adegas ainda resistiam, e foi alí que o povo livre se refugiou, aglomerando-se no escuro como as toupeiras das quais a aldeia obteve o nome.
As carroças pararam em crescente à frente daquilo que fora, em tempos, a forja da aldeia. Ali perto, um enxame de crianças coradas estavam construindo um forte de neve, mas espalharam-se ao ver os irmãos de mantos negros, desaparecendo por um ou outro buraco. Alguns momentos mais tarde, os adultos começaram a vir à superfície. Com eles veio um fedor, o cheiro de corpos não lavados e roupa suja, de dejetos e urina. Jon viu um dos seus homens franzir o nariz e dizer qualquer coisa ao homem que estava ao seu lado. Algum gracejo sobre o cheiro da liberdade, calculou. Muitos dos seus irmãos andavam fazendo gracejos sobre o fedor dos selvagens em Vila Toupeira.
Ignorância crassa, pensou Jon. O povo livre não era diferente dos homens da Patrulha da Noite. Alguns eram limpos, outros porcos, mas a maioria era limpa em certas alturas e porca noutras. Aquele fedor era só o cheiro de mil pessoas enfiadas em caves e túneis que tinham sido escavados para abrigar não mais de cem.
Os selvagens já antes tinham executado aquela dança. Sem palavras, formaram em filas atrás das carroças. Havia três mulheres por cada homem, muitas com filhos, coisas pálidas e desmazeladas que se agarravam às suas saias. Jon viu muito poucos bebês de colo. Os bebês de colo morreram durante a marcha, compreendeu, e aqueles que sobreviveram à batalha morreram na paliçada do rei.
Os combatentes tinham-se saído melhor. Trezentos homens em idade de combater, afirmou Justin Massey em conselho. O Lorde Warwood Fell contou-os. Também deverá haver esposas de lanças. Cinquenta, sessenta, talvez cheguem mesmo às cem. Jon sabia que a contagem de Fell incluíra homens que haviam sofrido ferimentos. Viu uma dezena desses homens; homens apoiados em muletas toscas, homens com mangas vazias e mãos em falta, homens com um olho ou meia cara, um homem sem pernas transportado entre dois amigos. E todos de caras cinzentas e descarnados. Homens quebrados, pensou. As criaturas não são o único tipo de mortos vivos.
Mas nem todos os combatentes estavam quebrados. Meia dúzia de Thenns com armaduras de escamas de bronze estavam aglomerados em volta de uma escada de cave, observando, carrancudos, e sem fazer qualquer tentativa para se juntarem aos outros. Nas ruínas do antigo ferreiro da aldeia, Jon viu um homem calvo, grande e largo no qual reconheceu Halleck, o irmão de Harma Cabeça de Cão. Mas os porcos de Harma tinham desaparecido. Comidos, sem dúvida. Aqueles dois vestidos de pele eram homens de Cornopé, tão selvagens como descarnados, descalços mesmo na neve. Ainda há lobos entre essas ovelhas.
Val o lembrou durante a última visita que lhe fez.
— O povo livre e os ajoelhadores são mais parecidos do que diferentes, Jon Snow. Homens são homens e mulheres são mulheres, independentemente do lado da Muralha em que nascemos. Bons homens e maus, heróis e vilões, homens de honra, mentirosos, covardes, brutos... os temos com fartura, tal como vocês.
Ela não se enganava. A dificuldade estava em distingui-los uns dos outros, em separar as ovelhas das cabras.
Os irmãos negros começaram a distribuir comida. Tinham trazido fatias de carne de vaca dura e salgada, bacalhau seco, feijão seco, nabos, cenouras, sacos de farinha grosseira de cevada e fina de trigo, ovos de salmoura, pipas de cebolas e maçãs.
— Pode ficar com uma cebola ou uma maçã — Jon ouviu Hal Peludo dizer a uma mulher — mas não com as duas coisas. Tem de escolher.
A mulher não pareceu compreender.
— Preciso de duas de cada. Uma de cada pa mim, as outras para meu moço. Ele tá doente, mas uma maçã põe-no bom.
Hal abanou a cabeça.
— Ele tem de vir buscar a sua própria maçã. Ou a cebola. As duas não. Tal como você. Vá, é uma maçã ou uma cebola? Despacha-se que há mais pessoas atrás de você.
— Uma maçã — disse ela, e ele deu-lhe uma, uma coisa velha e seca, pequena e enrugada.
— Mexa-se, mulher — gritou um homem três lugares mais atrás. — Tá frio cá fora.
A mulher não prestou atenção ao grito.
— Outra maçã — disse ao Hal Peludo. — Para meu filho. Por favor. Esta é tão pequena.