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— Mesmo? — disse o Semimeistre. — Nunca. Engoliu metade do rio. Podes estar ficando cinzento agora mesmo, transformando-se em pedra de dentro para fora, começando pelo coração e pelos pulmões. Se estiver, picar os dedos e tomar banho em vinagre não o salvará. Quando acabar, vem comer um pouco de caldo de carne.

O caldo estava bom, embora Tyrion tivesse reparado que o Semimeistre manteve a mesa entre os dois enquanto comia. A Tímida Donzela estava amarrada a um velho pontão na margem oriental do Roine. Dois pontões mais adiante, uma galé de rio volantena estava desembarcando soldados. Lojas, estábulos e armazéns aninhavam-se sob uma muralha de arenito. As torres e cúpulas da cidade estavam visíveis por trás da muralha, enrubescidas pela luz do poente.

Não, não é uma cidade. Selhorys ainda era vista como uma mera vila, e era governada a partir da Velha Volantis. Aquilo não era Westeros.

Lemore surgiu no convés rebocando o príncipe. Quando viu Tyrion, correu convés afora para ir abraça-lo.

— A Mãe é misericordiosa. Rezamos por você, Hugor.

Você rezou, pelo menos.

— Não vou pensar mal de você por isso.

O cumprimento do Jovem Griff foi menos efusivo. O principelho estava de mal humor, zangado por ter sido obrigado a permanecer na Tímida Donzela em vez de ir a terra com Yandry e Ysilla.

— Só queremos mantê-lo a salvo — disse-lhe Lemore. — Isso são tempos instáveis.

Haldon Semimeistre explicou.

— Durante o trajeto entre as Mágoas e Selhorys, vimos por três vezes cavaleiros em movimento para sul ao longo da margem oriental do rio Dothraki. Uma vez chegaram tão perto que conseguimos ouvir as campainhas que tilintavam nas suas tranças, e às vezes, à noite, as suas fogueiras ficavam visíveis por trás das colinas orientais. Passamos também por navios de guerra, galés de rio volantenas atafulhadas de soldados escravos. É evidente que os triarcas temem um ataque contra Selhorys.

Tyrion compreendeu aquilo bem depressa. Sozinha, entre as principais localidades do rio, Selhorys erguia-se na margem oriental do Roine, deixando-a muito mais vulnerável aos senhores dos cavalos do que as cidades irmãs do outro lado do rio. Mesmo assim, o prêmio é pequeno. Se eu fosse um khal, faria uma simulação em Selhorys, deixaria os volantenos correr a defendê-la e depois viraria para sul e cavalgaria a grande velocidade para Volantis propriamente dita.

— Eu sei como usar uma espada — estava insistindo o Jovem Griff.

— Mesmo o mais corajoso dos seus antepassados mantinha a Guarda Real por perto em tempos de perigo. — Lemore trocara as suas vestes de septã por trajes mais adequados à mulher ou filha de um mercador próspero. Tyrion observou-a com atenção. Conseguiu farejar com bastante facilidade a verdade que se escondia sob o cabelo pintado de azul de Griff e do Jovem Griff, e Yandry e Ysilla pareciam não ser mais do que afirmavam ser, enquanto Pato era um pouco menos. Lemore, contudo... Quem é ela, realmente? Porque está aqui? Não é por ouro, julgo. Que lhe é este príncipe? Alguma vez foi uma verdadeira septã?

Haldon também reparou na sua mudança de traje.

— O que devemos pensar desta súbita perda de fé? Preferia você com as vestes de septã, Lemore.

— Eu a preferia nua — disse Tyrion.

Lemore deitou-lhe um olhar de censura.

— Isso é porque tem uma alma perversa. Vestes de septã gritam Westeros, e podem atrair para nós olhares que não são bem-vindos. — Voltou a virar-se para o Príncipe Aegon. — Não é o único que tem de se esconder.

O rapaz não pareceu apaziguado. O príncipe perfeito, mas ainda meio criança, apesar de tudo, com menos que pouca experiência do mundo e de todos os seus infortúnios.

— Príncipe Aegon — disse Tyrion — uma vez que estamos ambos presos a bordo deste barco, talvez me queira honrar com um jogo de cyvasse, para matar as horas?

O príncipe deitou-lhe um olhar fatigado.

— Estou farto do cyvasse.

— Farto de perder com um anão, é isso que quer dizer?

Aquilo espicaçou o orgulho do rapaz, tal como Tyrion sabia que espicaçaria.

— Vai buscar o tabuleiro c as peças. Desta vez tenciono esmaga-lo.

Jogaram no convés, sentados de pernas cruzadas atrás da cabine. O Jovem Griff dispôs o seu exército para o ataque, com dragão, elefantes e cavalaria pesada à frente. Uma formação de jovem, tão ousada como insensata. Ele arrisca tudo pela matança rápida. Deixou o príncipe jogar primeiro. Haldon estava em pé atrás deles, observando o jogo.

Quando o príncipe estendeu a mão para o dragão, Tyrion pigarreou.

— Eu não faria isso, se fosse a você. É um erro fazer avançar o dragão cedo demais. — Fez um sorriso inocente. — O seu pai conhecia os perigos de ser muito ousado.

— Conheceu o meu verdadeiro pai?

— Bem, vi-o duas ou três vezes, mas só tinha onze anos quando Ro- bert o matou, e o meu pai tinha me escondido por baixo de uma rocha. Não, não posso afirmar ter conhecido o Príncipe Rhaegar. Não como o seu pai falso conheceu. O Lorde Connington era o melhor amigo do príncipe, não era?

O Jovem Griff afastou dos olhos uma madeixa de cabelo azul.

— Foram escudeiros ao mesmo tempo em Porto Real.

— Um verdadeiro amigo, o nosso Lorde Connington. Tem de ser, para permanecer tão ferozmente leal ao neto do rei que lhe tirou as terras e títulos e o enviou para o exílio. Isso foi uma pena. De outro modo, o amigo do Príncipe Rhaegar podia estar por perto quando o meu pai saqueou Porto Real, para salvar o precioso filhinho do Príncipe Rhaegar de ter os seus régios miolos atirados contra uma parede.

O rapaz corou.

— Não fui eu. Já tinha lhe dito. Foi o filho de um curtidor qualquer da Curva do Mijo cuja mãe morreu a dá-lo à luz. O pai vendeu-o ao Lorde Varys por um cântaro de dourado da Árvore. Tinha outros filhos, mas nunca tinha provado dourado da Árvore. Varys entregou o rapaz da Curva do Mijo à senhora minha mãe e me levou.

— Sim. — Tyrion moveu os elefantes. — E quando o príncipe do mijo ficou morto e em segurança, o eunuco contrabandeou-os para o outro lado do mar estreito e deu-os ao seu amigo gordo, o queijeiro, que os escondeu num barco de varejo e descobriu um lorde exilado disposto a chamar a si próprio seu pai. Dá uma história magnífica, e os cantores darão grande relevo à sua fuga depois de ocupar o Trono de Ferro... partindo do princípio de que a nossa bela Daenerys o tome como consorte.

— Tomará. Tem de tomar.

— Tem? — Tyrion soltou um tsc. — Essa não é uma palavra que as rainhas gostam de ouvir. É o seu príncipe perfeito, de acordo, inteligente e ousado e bem parecido como qualquer donzela pode desejar. Mas Daenerys Targaryen não é donzela alguma. É a viúva de um khal dothraki, uma mãe de dragões e uma saqueadora de cidades, Aegon, o Conquistador, com mamas. Pode revelar-se menos disposta do que você gostaría.

— Ela estará disposta. — O Príncipe Aegon pareceu chocado. Era claro que nunca antes pensou na possibilidade da sua futura noiva poder recusá-lo. — Não a conhece. — Pegou na cavalaria pesada e a pôs no tabuleiro com estrondo.

O anão encolheu os ombros.