Выбрать главу

— Creio que nessa não cairá ele; mas se por cá aparecesse, muito tínhamos que debicá-lo.

— Meu senhor, — disse André entrando na sala, — aí estão na porta uns cavalheiros, que pedem licença para apear e entrar.

— Ah! já sei, — disse Leôncio, — são eles, são as pessoas que mandei chamar; o vigário, o tabelião e mais outros... bom! já não nos falta tudo. Vieram mais depressa do que eu esperava. Manda-os apear e entrar, André.

André sai, Leôncio toca uma campainha, e aparece Rosa.

— Rosa, diz-lhe ele, — vai já chamar sinhá Malvina e Isaura, e o senhor Miguel e Belchior. Já devem estar prontos; precisa-se aqui já da presença de todos eles.

— Estou aflito por ver o fim a esta farsa, — disse Leôncio a seu amigo, — mas quero que ela se represente com certo aparato e solenidade, para inculcar que tenho grande prazer em satisfazer o capricho de Malvina e melhor iludir a sua credulidade; mas — fique isto aqui entre nós, — este casamento não passa de uma burla. Tenho toda a certeza de que Isaura despreza do fundo d’alma esse miserável idiota, que só em nome será seu marido. Entretanto ficarei me aguardando para melhores tempos, e espero que o meu plano surtirá o desejado efeito.

— Cá por mim não tenho a menor dúvida a respeito do resultado de um plano tão maravilhosamente combinado.

Mal Jorge acabava de pronunciar estas palavras, apareceu à porta do salão um belo e jovem cavalheiro, em elegantes trajos de viagem, acompanhado de mais três ou quatro pessoas. Lêoncio, que já ia pressuroso recebê-los e cumprimentá-los, estacou de repente.

-Oh!... não são quem eu esperava!... murmurou consigo. — Se me não engano... é Álvaro!...

— Senhor Leôncio! — disse o cavalheiro cumprimentando-o.

— Senhor Álvaro, — respondeu Leôncio, — pois creio que é a esse senhor, que tenho a honra de receber em minha casa.

— É ele mesmo, senhor; um seu criado.

— Ah! muito estimo... não o esperava... queira sentar-se... quis então vir dar um passeio cá pelas nossas províncias do Sul?...

Estas e outras frases banais dizia Leôncio, procurando refazer-se da perturbação em que o lançara a súbita e inesperada aparição de Álvaro naquele momento crítico e solene.

No mesmo momento entravam no salão por uma porta interior Malvina, Isaura, Miguel e Belchior. Vinham já preparados com os competentes trajos para a cerimônia do casamento.

— Meu Deus!... o que estou vendo!... — murmurou Isaura, sacudindo vivamente o braço de Migueclass="underline" — estarei enganada?... não... é ele.

— É ele mesmo... Deus!... como é possível?

— Oh! — exclamou Isaura; e nesta simples interjeição, que exalou como um suspiro, expressava o desafogo de um pego de angústias, que lhe pesava sobre o coração. Quem de perto a olhasse com atenção veria um leve rubor naquele rosto, que a dor e os sofrimentos pareciam ter condenado a uma eterna e marmórea palidez; era a aurora da esperança, cujo primeiro e tímido arrebol assomava nas faces daquela, cuja existência naquele momento ia sepultar-se nas sombras de um lúgubre ocaso.

— Não esperava pela honra de recebê-lo hoje nesta sua casa, — continuou Leôncio recobrando gradualmente o seu sangue-frio e seu ar arrogante. — Entretanto há de permitir que me felicite a mim e ao senhor por tão oportuna visita. A chegada de V. S.a. hoje nesta casa parece um acontecimento auspicioso, e até providencial.

— Sim?!... muito folgo com isso..,.mas não terá V. S.a. a bondade de dizer por quê?...

— Com muito gosto. Saiba que aquela sua protegida, aquela escrava, por quem fez tantos extremos em Pernambuco, vai ser hoje mesmo libertada e casada com um homem de bem. Chegou V. S.a. mesmo a ponto de presenciar com os seus próprios olhos a realização dos filantrópicos desejos, que tinha a respeito da dita escrava, e eu da minha parte muito folgarei se V. S.a. quiser assistir a esse ato, que ainda mais solene se tornará com a sua presença.

— E quem a liberta? — perguntou Álvaro sorrindo-se sardonicamente.

— Quem mais senão eu, que sou seu legitimo senhor? — respondeu Leôncio com altiva seguridade.

— Pois declaro-lhe, que o não pode fazer, senhor: — disse Álvaro com firmeza. — Essa escrava não lhe pertence mais.

— Não me pertence!... — bradou Leôncio levantando-se de um salto, — o senhor delira ou está escarnecendo?...

— Nem uma, nem outra coisa, — respondeu Álvaro com toda a calma: — repito-lhe; essa escrava não lhe pertence mais.

— E quem se atreve a esbulhar-me do direito que tenho sobre ela?

— Os seus credores, senhor, — replicou Álvaro, sempre com a mesma firmeza e sangue-frio. — Esta fazenda com todos os escravos, esta casa com seus ricos móveis, e sua baixela, nada disto lhe pertence mais; de hoje em diante o senhor não pode dispor aqui nem do mais insignificante objeto. Veja, — continuou mostrando-lhe um maço de papéis, — aqui tenho em minhas mãos toda a sua fortuna. O seu passivo excede extraordinariamente a todos os seus haveres; sua ruína é completa e irremediável, e a execução de todos os seus bens vai lhe ser imediatamente intimada.

A um aceno de Álvaro, o escrivão que o acompanhava apresentou a Leôncio o mandado de seqüestro e execução de seus bens. Leôncio, arrebatando o papel com mão trêmula, passeou rapidamente por ele os olhos faiscantes de cólera.

— Pois quê! — exclamou ele, — é assim violenta e atropeladamente que se fazem estas coisas! porventura não posso obter alguma moratória, e salvar minha honra e meus bens por outro qualquer meio?...

— Seus credores já usaram para com o senhor de todas as condescendências e contemporizações possíveis. Saiba ainda demais, que hoje sou eu o principal, se não o único credor seu; pertencem-me, e estão em minhas mãos quase todos os seus títulos de dívida, e eu não estou de ânimo a admitir transações nem protelações de natureza alguma. Dar seus bens a inventário eis o que lhe cumpre fazer; toda e qualquer evasiva que tentar será inútil.

— Maldição! — bradou Leôncio, batendo com o pé no chão e arrancando os cabelos.

— Meu Deus!... meu Deus!... que desgraça!... e que... vergonha!... exclamou Malvina, soluçando.

22

Deixemos por um momento suspensa a cena do capítulo antecedente, e interrompido o diálogo entre os dois mancebos. Eles ai ficam em face um do outro, como o leão altivo e magnânimo tendo subjugado o tigre daninho e traiçoeiro, que rosna em vão debaixo das possantes garras de seu antagonista. É-nos preciso explicar por que série de circunstâncias Álvaro veio aparecer em casa do senhor de Isaura, a ponto de vir burlar os seus planos atrozes, mesmo no momento em que iam ter final execução.

Depois que Isaura lhe fora arrebatada, Álvaro caiu na mais acerba prostração de ânimo.

Ferido em seu orgulho, esbulhado do objeto de seu amor, escarnecido e vilipendiado pela arrogância de um insolente escravocrata, entregou-se ao mais sombrio desespero. Mal soube o seu revés, o Dr. Geraldo correu em socorro daquela nobre alma tão cruelmente golpeada pelo destino. Graças aos cuidados e conselhos daquele tão solícito quão inteligente amigo, a dor de Álvaro foi-se tornando mais calma e resignada. Por suas exortações Álvaro chegou mesmo a convencer-se que o melhor partido que lhe ficava a tomar nas difíceis conjunturas em que se achava, era procurar esquecer-se de Isaura.

Todo o esforço que fizeres, — dizia-lhe o amigo, — em favor da liberdade de Isaura, será rematada loucura, que não terá outro resultado senão envolver-te em novas dificuldades, cobrindo-te de ridículo e de humilhação. Já passaste por duas decepções bem cruéis, a do baile, e esta última ainda mais triste e humilhante. Quase te fizeste réu de polícia, querendo disputar uma escrava a seu legítimo senhor. Pois bem; as seguintes serão ainda piores, eu te asseguro, e te farão ir rolando de abismo em abismo até tua completa perdição.