– Se algum homem tem outros assuntos a colocar à Mão do Rei, que fale agora ou mantenha o silêncio.
– Eu serei ouvido – um homem esbelto, todo vestido de negro, abriu caminho por entre os gêmeos Redwyne.
– Sor Alliser! – Tyrion exclamou. –Ah, não fazia ideia de que tinha vindo à corte. Deveria ter me enviado uma nota.
– Foi o que fiz, como o senhor bem sabe – Thorne era tão espinhoso como seu nome, um homem seco, de feições angulosas, com cinquenta anos, de olhos e mãos duros, com o cabelo preto rajado de cinza. – Fui evitado, ignorado e deixado à espera como se fosse um criado plebeu qualquer.
– É verdade? Bronn, isto não está certo. Sor Alliser e eu somos velhos amigos. Percorremos juntos a Muralha.
– Querido Sor Alliser – Varys murmurou –, não deve pensar muito mal de nós. Há tantos que procuram a graça do nosso Joffrey nestes tempos conturbados.
– Mais conturbados do que imagina, eunuco.
– Na frente dele chamamos de Lorde Eunuco – gracejou Mindinho.
– Como podemos ajudá-lo, bom irmão? – perguntou Grande Meistre Pycelle num tom de voz apaziguador.
– O Senhor Comandante enviou-me à Sua Graça, o rei – Thorne respondeu. – O assunto é grave demais para ser deixado a criados.
– O rei está brincando com sua nova besta – Tyrion disse. Ver-se livre de Joffrey tinha custado apenas uma desajeitada besta de Myr que disparava três projéteis de uma só vez, e o rei não quis saber de mais nada até ir experimentá-la de imediato. – Pode falar aos criados ou manter-se em silêncio.
– Como quiser – Sor Alliser concordou, mostrando desagrado em cada palavra. – Fui enviado para lhes dizer que encontramos dois patrulheiros, há muito desaparecidos. Estavam mortos, mas quando trouxemos os cadáveres para a Muralha, voltaram a se levantar na noite. Um deles matou Sor Jaremy Rykker, enquanto o segundo tentou assassinar o Senhor Comandante.
A distância, Tyrion ouviu o riso abafado de alguém. Pretende caçoar de mim com esta loucura? Mexeu-se, incomodado, no trono, e lançou um olhar para Varys, para Mindinho e para Pycelle, perguntando a si mesmo se algum deles desempenhara algum papel naquilo. Um anão conseguia, no máximo, segurar a dignidade de forma tênue. Se a corte e o reino começassem a rir dele, estava condenado. E, no entanto… no entanto…
Tyrion lembrou-se de uma noite fria sob as estrelas, quando parou com o rapaz Jon Snow e um grande lobo branco no topo da Muralha no fim do mundo, olhando a escuridão sem trilhos que se estendia adiante. Sentira… o quê?... algo, certamente, um pavor que cortava como aquele vento gelado do norte. Um lobo tinha uivado na noite, e o som dera-lhe arrepios.
Não seja tonto, disse a si mesmo. Um lobo, um vento, uma floresta escura, não queriam dizer nada. E, no entanto… Tinha simpatizado com o velho Jeor Mormont durante o tempo que passara em Castelo Negro.
– Confio que o Velho Urso sobreviveu a esse ataque?
– Sobreviveu.
– E que seus irmãos mataram estes, ah, mortos?
– Matamos.
– Estão certos de que desta vez estão mortos? – Tyrion perguntou num tom suave. Quando Bronn engasgou, estrangulando uma gargalhada, compreendeu como devia agir. – Mortos, mortos mesmo?
– Estavam mortos da primeira vez – Sor Alliser exclamou. – Pálidos e frios, com mãos e pés negros. Trouxe a mão de Jared, arrancada do seu cadáver pelo lobo do bastardo.
Mindinho deu sinal de vida.
– E onde está essa encantadora lembrança?
Sor Aliser franziu a testa, com desconforto.
– Ela… desfez-se em pedaços, podre, enquanto eu esperava sem ser ouvido. Nada resta para mostrar, a não ser ossos.
Risos abafados ecoaram pelo salão.
– Lorde Baelish – disse Tyrion a Mindinho –, compre para o nosso bravo Sor Alliser uma centena de pás para levar consigo de volta à Muralha.
– Pás? – Sor Alliser estreitou os olhos com suspeita.
– Se enterrar seus mortos, eles não ficarão andando por aí – disse-lhe Tyrion, e a corte riu abertamente. – Pás, com algumas costas fortes para manejá-las, darão fim aos seus problemas. Sor Jacelyn, deixe o bom irmão escolher os homens que quiser nas masmorras da cidade.
Sor Jacelyn Bywater respondeu:
– Como quiser, senhor, mas as celas estão quase vazias. Yoren levou todos os homens adequados.
– Então prenda mais alguns – disse-lhe Tyrion. – Ou espalhe a notícia de que há pão e nabos na Muralha, e eles irão por vontade própria – a cidade tinha bocas demais para alimentar, e a Patrulha da Noite, uma perpétua necessidade de homens. Ao sinal de Tyrion, o arauto anunciou o fim da audiência, e o salão começou a se esvaziar.
Sor Alliser Thorne não era mandado embora com tanta facilidade. Estava à espera, na base do Trono de Ferro, quando Tyrion desceu.
– Acha que fiz toda a viagem de Atalaialeste do Mar para ser ridicularizado por gente como você? – esbravejou, bloqueando a passagem. – Isto não é nenhuma brincadeira. Vi-os com meus próprios olhos. E repito: os mortos caminham.
– Devia tentar matá-los mais completamente – Tyrion abriu caminho para passar. Sor Alliser fez um gesto para agarrar sua manga, mas Preston Greenfield afastou-o com um empurrão.
– Mais perto, não, sor.
Thorne tinha suficiente bom-senso para não desafiar um cavaleiro da Guarda Real.
– É um tolo, Duende – gritou para as costas de Tyrion.
Tyrion virou-se para encará-lo.
– Eu? Verdade? Então, por que eles estavam rindo de você? – deu um sorriso triste. – Veio em busca de homens, não foi?
– Os ventos frios se levantam. A Muralha tem de ser defendida.
– E para defendê-la precisam de homens, que eu lhes dei… Como talvez tivesse notado, se suas orelhas ouvissem algo mais que insultos. Leve-os, agradeça-me, e desapareça antes que eu seja forçado a enfrentá-lo outra vez com um garfo para caranguejos. Dê meus melhores cumprimentos a Lorde Mormont… e também a Jon Snow – Bronn agarrou Sor Alliser pelo cotovelo e o tirou à força do salão.
Grande Meistre Pycelle já tinha corrido para fora do salão, mas Varys e Mindinho observaram tudo, do princípio ao fim.
– Cada vez o admiro mais, senhor – confessou o eunuco. – Apazigua o rapaz Stark com os ossos do pai e priva sua irmã dos seus protetores de um só golpe rápido. Dá àquele irmão negro os homens de que necessita, livrando a cidade de algumas bocas famintas, e faz com que tudo pareça troça para que ninguém diga que o anão teme os snarks e os gramequins. Oh, muito hábil.
Mindinho afagou a barba.
– Pretende mesmo mandar todos os seus guardas embora, Lannister?
– Não, pretendo mandar embora todos os guardas da minha irmã.
– A rainha nunca permitirá tal coisa.
–Ah, penso que talvez permita. Eu sou seu irmão, e quando me conhecer melhor, saberá que sou sempre sincero naquilo que digo.
– Mesmo nas mentiras?
– Especialmente nas mentiras. Lorde Petyr, sinto que está descontente comigo.
– Gosto tanto de você como sempre gostei, senhor. Embora não aprecie que me façam de bobo. Se Myrcella se casar com Trystane Martell, dificilmente poderá se casar com Robert Arryn, não é mesmo?
– Não sem causar um grande escândalo – admitiu. – Lamento meu pequeno estratagema, Lorde Petyr, mas, quando conversamos, não tinha como saber que os homens de Dorne aceitariam minha oferta.
Aquilo não apaziguou Mindinho.
– Não gosto que mintam para mim, senhor. Deixe-me fora do seu próximo logro.
Só se você fizer o mesmo comigo, pensou Tyrion, olhando de relance o punhal embainhado junto ao quadril de Mindinho.
– Se o ofendi, lamento profundamente. Todos sabem quanto o apreciamos, senhor. E quanto precisamos do senhor.