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Os captores não autorizavam conversas. Um lábio rachado ensinou Arya a dominar a língua. Outros não chegaram a aprender. Um garoto de um grupo de três não parava de chamar pelo pai, e esmagaram sua cabeça com uma maça de guerra. Então, a mãe do garoto desatou a gritar, e Raff, o Querido, a matou também.

Arya os viu morrer, e não fez nada. De que servia ter coragem? Uma das mulheres escolhidas para o interrogatório tentou ter coragem, mas morreu aos gritos como todos os outros. Não havia gente de coragem naquela marcha, só gente assustada e faminta. A maioria era de mulheres e crianças. Os poucos homens eram muito velhos ou muito novos; o resto tinha sido acorrentado àquele cadafalso e abandonado aos lobos e aos corvos. Gendry só foi poupado porque admitira ter sido ele quem forjou o elmo dos chifres; ferreiros, e até aprendizes de ferreiro, eram valiosos demais para matar.

A Montanha disse-lhes que estavam sendo levados para servir a Lorde Tywin Lannister em Harrenhal.

– São traidores e rebeldes, por isso agradeçam aos deuses que Lorde Tywin esteja lhes dando essa oportunidade. É mais do que obteriam dos foras da lei. Obedeçam, sirvam, e sobreviverão.

– Não é justo, não é – ouviu uma velha mirrada queixar-se a outra depois de se deitarem à noite. – Não cometemos traição nenhuma, os outros vieram e levaram o que quiseram, tal como estes.

– Mas Lorde Beric não nos fez mal nenhum – sussurrou a amiga. – E aquele sacerdote vermelho que vinha com ele pagou por tudo o que levaram.

– Pagou? Levou duas das minhas galinhas e me deu um pedaço de papel com uma marca nele. Pergunto a você: posso comer um pedaço de papel esfarrapado? Bota ovos, o papel? – olhou em volta para ver se não havia guardas por perto, e cuspiu três vezes: – Isto é para os Tully, isto é para os Lannister, e isto é para os Stark.

– É um pecado e uma pena – sibilou um velho. – Quando o velho rei ainda estava vivo, não teria admitido isso.

– Rei Robert? – Arya perguntou, quebrando sua reserva.

– O Rei Aerys, que os deuses o tenham – o velho respondeu, alto demais. Um guarda se aproximou vagarosamente a fim de calá-los. O velho perdeu ambos os dentes que tinha, e não houve mais conversas naquela noite.

Além dos cativos, Sor Gregor levava também uma dúzia de porcos, uma gaiola de galinhas, uma vaca leiteira esquelética e nove carroças de peixe salgado. A Montanha e seus homens tinham cavalos, mas os cativos iam todos a pé, e aqueles fracos demais para caminhar eram imediatamente mortos, assim como quem fosse suficientemente tolo para tentar fugir. Os guardas levavam mulheres para os arbustos, à noite, e a maior parte parecia esperar isso, e os acompanhava com bastante docilidade. Uma moça, mais bonita do que as outras, era obrigada a ir com quatro ou cinco homens diferentes todas as noites, até que acabou batendo num deles com uma pedra. Sor Gregor obrigou todo mundo a assistir enquanto cortava sua cabeça com um golpe da sua imensa espada longa de duas mãos.

– Deixe o corpo para os lobos – ele ordenou quando terminou, entregando a espada para o escudeiro limpar.

Arya deu uma olhada de canto de olho em Agulha, embainhada no quadril de um homem de armas de barba negra, mas careca, chamado Polliver. É bom que a tenham levado, pensou. De outra forma, teria tentado espetá-la em Sor Gregor, que teria cortado Arya ao meio, e os lobos também a comeriam.

Polliver não era tão mau como alguns dos outros, apesar de ter roubado sua Agulha. Na noite em que foi capturada, os homens Lannister tinham sido estranhos sem nome, com rostos tão iguais uns aos outros como sua proteção de nariz, mas Arya acabou por conhecer todos. Era preciso saber quem era preguiçoso e quem era cruel, quem era inteligente e quem era burro. Era preciso saber que, muito embora aquele a quem chamavam Boca de Merda tivesse a língua mais suja que ela já ouvira, lhe dava uma porção extra de pão se lhe pedisse, enquanto o velho brincalhão do Chiswyck e Raff das falinhas mansas só lhe dariam as costas da mão.

Arya observava e escutava, e polia seus ódios como Gendry antes polira seu elmo chifrudo. Dunsen agora usava esses cornos de touro, e ela o odiava por isso. Odiava Polliver pela Agulha, e o velho Chiswyck, que se achava engraçado. E odiava ainda mais Raff, o Querido, que espetara a lança na garganta de Lommy. Odiava Sor Amory Lorch por causa de Yoren, e Sor Meryn Trant por Syrio, o Cão de Caça, por ter matado o filho do açougueiro, Mycah. Sor Ilyn, o Príncipe Joffrey e a rainha por causa do pai, do Gordo Tom, de Desmond e dos outros, e até por Lady, o lobo de Sansa. Cócegas era quase assustador demais para se odiar. Às vezes, quase conseguia se esquecer de que ele ainda os acompanhava; quando não fazia perguntas, era apenas mais um soldado, mais calmo do que a maioria, com um rosto igual ao de mil outros homens.

Todas as noites, Arya dizia seus nomes.

– Sor Gregor – sussurrava para sua almofada de pedra. – Dunsen, Polliver, Chiswyck, Raff, o Querido. Cócegas e Cão de Caça. Sor Amory, Sor Ilyn, Sor Meryn, Rei Joffrey, Rainha Cersei – em Winterfell, Arya rezava com a mãe no septo e com o pai no bosque sagrado, mas não havia deuses na estrada para Harrenhal, e os nomes eram a única oração que se importava de lembrar.

Marchavam todos os dias, e ela dizia os nomes todas as noites, até que, finalmente, as árvores se tornaram menos densas e deram lugar a uma paisagem colorida de colinas onduladas, meandros de rios e campos de cultivo iluminados pelo sol, onde as cascas de castros queimados se erguiam negras como dentes apodrecidos. Mais um longo dia de marcha, e vislumbraram as torres de Harrenhal a distância, sólidas junto às águas azuis do lago.

Os cativos diziam uns aos outros que as coisas seriam melhores quando chegassem a Harrenhal, mas Arya não tinha tanta certeza. Lembrava-se das histórias da Velha Ama sobre o castelo construído sobre medo. Harren, o Negro, misturara sangue humano na argamassa, costumava dizer a Ama, abaixando tanto a voz que as crianças tinham de se inclinar para a frente para ouvir, mas os dragões de Aegon tinham assado Harren e todos os seus filhos dentro de suas grandes muralhas de pedra. Arya mordia o lábio enquanto avançava sobre pés tornados duros pelos calos. Disse a si mesma que não demoraria muito mais tempo; aquelas torres não podiam estar a mais de algumas milhas de distância.

Mas caminharam o dia inteiro e a maior parte do seguinte até que, por fim, chegaram às franjas do exército de Lorde Tywin, acampado a oeste do castelo, por entre os restos calcinados de uma vila. Por ser tão enorme, Harrenhal enganava quando visto de longe. Sua colossal muralha exterior erguia-se junto ao lago, a pique e súbita como penhascos de montanha, enquanto no topo de suas ameias as fileiras de balistas de madeira e ferro pareciam pequenas, como escorpiões.

O fedor da tropa dos Lannister chegou a Arya bem antes de ela conseguir distinguir os símbolos nos estandartes que germinavam ao longo da margem do lago, no topo dos pavilhões dos homens do oeste. Pelo cheiro, Arya poderia dizer que Lorde Tywin já estava ali havia algum tempo. As latrinas que cercavam o acampamento transbordavam e enchiam-se de moscas, e ela viu uma tênue penugem esverdeada em muitas das estacas que protegiam os perímetros.

A guarita de Harrenhal, tão grande quanto a Grande Fortaleza de Winterfell, era tão marcada quanto imensa, com pedras fissuradas e descoloridas. Do lado de fora, só era possível ver o topo de cinco imensas torres do outro lado da muralha. A menor era vez e meia mais alta do que a mais alta torre de Winterfell, mas não se projetavam como uma torre devia se projetar. Arya pensou que pareciam os dedos deformados e nodosos de um velho tentando agarrar uma nuvem passageira. Lembrou da Ama contando como a pedra derretera e fluíra pelos degraus e para dentro das janelas, como cera de uma vela, brilhando num vermelho soturno de brasa enquanto procurava Harren no seu esconderijo. Arya conseguia acreditar em cada palavra; cada torre era mais grotesca e deformada do que a anterior, grumosa, escorrida e rachada.