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Pensar em sua terra a perturbou. Se o seu sol-e-estrelas tivesse sobrevivido, teria levado o khalasar através da água venenosa e varrido os inimigos dela, mas a força de Drogo abandonara o mundo. Seus companheiros de sangue permaneciam, ligados a Dany para a vida e peritos em matança, mas apenas à maneira dos senhores dos cavalos. Os dothraki saqueavam cidades e pilhavam reinos, não os governavam. Dany não tinha nenhum desejo de reduzir Porto Real a uma ruína enegrecida, cheia de fantasmas inquietos. Já tinha se alimentado de lágrimas o suficiente. Quero tornar meu reino belo, enchê-lo de homens gordos, belas donzelas e crianças sorridentes. Quero que meu povo sorria quando me vir passar, como Viserys dizia que sorriam ao meu pai.

Mas, antes de poder fazer isso, teria de conquistar.

O Usurpador a mataria, tão certo como o sol nascente, dissera Mormont. Robert matara seu galante irmão Rhaegar, e uma de suas criaturas tinha atravessado o mar dothraki para envenená-la e ao seu filho por nascer. Diziam que Robert Baratheon era forte como um touro e destemido em batalha, um homem que não gostava de nada mais do que da guerra. E com ele estavam os grandes senhores que o irmão chamava de cães do Usurpador, Eddard Stark de olhos frios com seu coração gelado, e os dourados Lannister, pai e filho, tão ricos, tão poderosos, tão traiçoeiros.

Como podia esperar derrubar tais homens? Quando Khal Drogo vivia, os homens tremiam e faziam-lhe ofertas para apaziguar sua ira. Se não o fizessem, ele tomava suas cidades, riqueza, mulheres e tudo o mais. Mas o khalasar dele tinha sido vasto, ao passo que o dela era escasso. Seu povo seguira-a através do deserto vermelho enquanto perseguia o cometa, e também a seguiria através da água venenosa, mas não seria o suficiente. Mesmo os dragões podiam não ser suficientes. Viserys acreditara que o reino se ergueria em apoio ao rei legítimo… Mas ele era um tolo, e os tolos acreditam em tolices.

As dúvidas fizeram-na estremecer. De súbito, a água pareceu-lhe fria e os peixinhos que mordiscavam sua pele, irritantes. Dany ergueu-se e saiu da piscina.

– Irri – chamou –, Jhiqui.

Enquanto as aias a enxugavam com uma toalha e a envolviam num roupão de sedareia, os pensamentos de Dany derivaram para os três que a tinham procurado na Cidade dos Ossos. A Estrela Sangrenta trouxe-me a Qarth por um motivo. Aqui encontrarei aquilo de que preciso, se tiver a força para aceitar o que me é oferecido e a sabedoria para evitar as armadilhas e os ardis. Se os deuses quiserem que eu vença, vão me fornecer os meios, enviar um sinal, e se não… se não

Era quase noite, Dany estava alimentando os dragões, quando Irri atravessou as cortinas de seda para lhe dizer que Sor Jorah voltara das docas… e não vinha sozinho.

– Mande-o entrar, com quem quer que tenha trazido – ela ordenou, curiosa.

Quando entraram, encontraram-na sentada num monte de almofadas, com os dragões ao redor. O homem que o exilado trouxera consigo usava um manto de penas verdes e amarelas e tinha uma pele tão negra como azeviche polido.

– Vossa Graça – disse o cavaleiro –, trago Quhuru Mo, capitão do Vento de Canela, vindo da Vila das Árvores Altas.

O negro se ajoelhou.

– Sinto-me muito honrado, minha rainha – ele disse; não na língua das Ilhas do Verão, que Dany não conhecia, mas no valiriano líquido das Nove Cidades Livres.

– A honra é minha, Quhuru Mo – ela retrucou na mesma língua. – Vem das Ilhas do Verão?

– É verdade, Vossa Graça, mas, antes, há menos de meio ano, aportamos em Vilavelha. Daí lhe trago um maravilhoso presente.

– Um presente?

– Um presente em forma de notícia. Mãe de Dragões, Filha da Tormenta, digo-lhe a verdade, Robert Baratheon está morto.

Fora dos muros o ocaso caía sobre Qarth, mas um sol acabava de nascer no coração de Dany.

– Morto? – ela repetiu. Sobre as suas coxas o negro Drogon silvou, e uma fumaça branca ergueu-se em frente ao seu rosto como um véu. – Tem certeza? O Usurpador está morto?

– É o que se diz em Vilavelha, e em Dorne, e em Lys, e em todos os outros portos a que aportamos.

Ele enviou-me vinho envenenado, mas eu vivo, e ele partiu.

– De que modo morreu? – sobre seu ombro o branco Viserion bateu as asas da cor do creme, agitando o ar.

– Rasgado por um javali monstruoso enquanto caçava em seu bosque do rei, ou pelo menos foi o que me disseram em Vilavelha. Outros dizem que a sua rainha o traiu, ou o irmão, ou Lorde Stark, que era sua Mão. Mas todas as histórias concordam numa coisa: o Rei Robert está morto e sepultado.

Dany nunca olhara o rosto do Usurpador, mas raramente se passava um dia em que não pensasse nele. Sua grande sombra pairava sobre ela desde a hora em que tinha nascido, quando chegara entre sangue e tempestade a um mundo que já não tinha lugar para ela. E, agora, este estranho de ébano levantava essa sombra.

– O garoto agora ocupa o Trono de Ferro – disse Sor Jorah.

– O Rei Joffrey reina – concordou Quhuru Mo –, mas os Lannister governam. Os irmãos de Robert fugiram de Porto Real. Segundo se diz, pretendem reclamar a coroa. E a Mão caiu, Lorde Stark, que era amigo do Rei Robert. Foi preso e acusado de traição.

– Ned Stark, um traidor? – Sor Jorah resfolegou. – Pouco provável. O Longo Verão voltará antes que este manche sua preciosa honra.

– Que honra poderá ter? – disse Dany. – Era um traidor do seu legítimo rei, tal como esses Lannister – agradava-lhe ouvir dizer que os cães do Usurpador lutavam uns contra os outros, embora não a surpreendesse. O mesmo tinha acontecido quando seu Drogo morreu e seu grande khalasar se partiu em pedaços. – Meu irmão também está morto, Viserys, que era o rei legítimo – disse ao homem das Ilhas do Verão. – Khal Drogo, o senhor meu esposo, o matou com uma coroa de ouro derretido – se seu irmão tivesse sido mais sensato, teria ficado sabendo que a vingança pela qual rezara estava tão próxima?

– Então choro pela senhora, Mãe de Dragões, e pelo ensanguentado Westeros, privado do seu legítimo rei.

Sob os dedos gentis de Dany, o verde Rhaegal olhou o estranho com olhos de ouro derretido. Quando abriu a boca, os dentes cintilaram como agulhas negras.

– Quando seu navio retorna a Westeros, capitão?

– Temo que só dentro de um ano, ou mais. Daqui, o Vento de Canela segue para leste, a fim de percorrer a volta do mercador em torno do Mar de Jade.

– Compreendo – disse Dany, desapontada. – Nesse caso, desejo-lhe belos ventos e bons negócios. Trouxe-me um presente precioso.

– Fui amplamente recompensado, grande rainha.

Dany não compreendeu aquilo.

– Como?

Os olhos dele cintilaram:

– Vi dragões.

Dany soltou uma gargalhada.

– E voltará a vê-los um dia, espero. Venha até mim em Porto Real quando estiver no trono do meu pai, e obterá uma grande recompensa.

O homem das Ilhas do Verão prometeu que o faria, e deu um suave beijo em seus dedos quando se retirou. Jhiqui mostrou-lhe o caminho, enquanto Sor Jorah Mormont permaneceu com Daenerys.

Khaleesi – disse o cavaleiro quando ficaram a sós –, eu não falaria tão livremente de meus planos se estivesse em seu lugar. Este homem espalhará a história onde quer que vá.