Выбрать главу

Lancel passeava em frente às cinzas na lareira, vestido de veludo vermelho cortado com submangas de seda negra, um punhal incrustado de joias e uma bainha dourada pendendo do cinto.

– Primo – Tyrion o saudou. – Suas visitas são demasiado raras. A que devo este imerecido prazer?

– Sua Graça, a Rainha Regente enviou-me para lhe ordenar que liberte o Grande Meistre Pycelle – Sor Lancel mostrou a Tyrion uma fita carmesim, com o selo leonino de Cersei impresso em cera dourada. – Aqui está a sua procuração.

– Pois bem – Tyrion afastou o objeto com um gesto. – Espero que minha irmã não ande abusando de suas forças tão cedo depois de sua doença. Seria uma grande pena se sofresse uma recaída.

– Sua Graça está bem recuperada – Sor Lancel disse secamente.

– Música para os meus ouvidos – embora não seja uma melodia que me agrade, devia ter-lhe dado uma dose maior. Tyrion esperava ter mais alguns dias sem interferências de Cersei, mas não ficou muito surpreso por ela ter recuperado a saúde. Afinal de contas, era gêmea de Jaime. Obrigou-se a dar um sorriso agradável. – Pod, acende-nos a lareira, o ar está frio demais para o meu gosto. Toma uma taça comigo, Lancel? Descobri que vinho aquecido me ajuda a dormir.

– Não preciso de ajuda para dormir – Sor Lancel respondeu. – Vim por ordem de Sua Graça, não para beber com você, Duende.

Tyrion pensou que ser armado cavaleiro tornara o rapaz mais ousado… Isso, e o triste papel que desempenhara no assassinato do Rei Robert.

– O vinho realmente tem seus perigos – Tyrion sorria enquanto servia a bebida. – Quanto ao Grande Meistre Pycelle… Se minha querida irmã está assim tão preocupada com ele, eu imaginaria que viesse em pessoa falar comigo. Mas não; manda o senhor. O que acha disso?

– Pense disso o que quiser, desde que solte o prisioneiro. O Grande Meistre é um amigo dedicado da Rainha Regente, e encontra-se sob a sua proteção pessoal – uma sugestão de zombaria brincou nos lábios do rapaz; Lancel estava gostando daquilo. Ele aprende suas lições com Cersei. – Sua Graça nunca aceitará esse ultraje. Lembro-lhe de que é ela a regente de Joffrey.

– Tal como eu sou Mão de Joffrey.

– A Mão serve – informou-o com desenvoltura o jovem cavaleiro. – A regente governa, até o rei ser maior de idade.

– Talvez devesse escrever isso para que me lembre melhor – a lareira estalava alegremente. – Pode nos deixar, Pod – Tyrion disse ao escudeiro. Só depois de o rapaz sair, voltou-se para Lanceclass="underline" – Há mais?

– Sim. Sua Graça pede-me que lhe informe que Sor Jacelyn Bywater desobedeceu a uma ordem emitida em nome do rei.

O que significa que Cersei já ordenou a Bywater que liberte Pycelle e recebeu uma negativa.

– Sei.

– Insiste que o homem seja destituído do cargo e posto sob prisão por traição. Previno-o…

Tyrion pôs a taça de lado:

– Não ouvirei avisos vindos de você, rapaz.

Sor – Lancel falou rigidamente. Tocou a espada, talvez para lembrar Tyrion de que a usava. – Tenha cuidado com a maneira como fala comigo, Duende – sem dúvida pretendia parecer ameaçador, mas aquela absurda penugem no lugar do bigode arruinava o efeito.

– Oh, puxe a espada. Um grito meu e Shagga entra de rompante e mata você. Com um machado, não com um odre de vinho.

Lancel corou; seria tão tonto a ponto de pensar que seu papel na morte de Robert tinha passado despercebido?

– Eu sou um cavaleiro…

– Já notei. Diga-me… Cersei armou-o cavaleiro antes ou depois de tê-lo levado para a cama?

O brilho nos olhos verdes de Lancel era toda a admissão de culpa de que Tyrion necessitava. Portanto, Varys dissera a verdade. Bem, ninguém jamais poderá afirmar que minha irmã não ama a família.

– O quê? Nada a dizer? Não há mais avisos para mim, Sor?

– Retire essas imundas acusações, senão…

– Faça-me o favor. Por acaso já pensou no que Joffrey fará quando lhe disser que assassinou o pai dele para dormir com sua mãe?

– Não foi assim! – Lancel protestou, horrorizado.

– Não? Então como foi? Diga!

– Foi a rainha que me deu o vinho-forte. Seu próprio pai, Lorde Tywin, quando fui nomeado escudeiro do rei, disse-me para obedecer a Cersei em tudo.

– Também disse para fodê-la? – olhem para ele. Não é tão alto, não tem feições tão regulares, o cabelo é areia em vez de fio de ouro, mas, mesmo assim… Até uma fraca cópia de Jaime é melhor do que uma cama vazia, suponho. – Não, também me parece que não.

– Nunca pretendi… Só fiz o que me foi pedido, eu…

– … detestou cada instante... É nisso que quer que eu acredite? Uma posição elevada na corte, um grau de cavaleiro, as pernas da minha irmã abertas para você à noite, ah, sim, deve ter sido terrível para você – Tyrion ficou de pé. – Espere aqui. Sua Graça vai querer saber disso.

Todo o tom desafiador de Lancel desapareceu de uma só vez. O jovem cavaleiro caiu de joelhos como um menino assustado.

– Misericórdia, senhor, suplico-lhe.

– Guarde isso para Joffrey. Ele gosta de uma boa súplica.

– Senhor, foram ordens de sua irmã, a rainha, tal como disse, mas Sua Graça… Ele nunca compreenderá…

– Quer que eu esconda a verdade do rei?

– Por meu pai! Deixarei a cidade, será como se nunca tivesse acontecido! Juro, acabarei com tudo…

Era difícil não rir.

– Acho que não.

Agora o rapaz parecia perdido.

– Senhor?

– Você ouviu. Meu pai disse-lhe para obedecer à minha irmã? Muito bem, obedeça. Fique perto dela, ganhe sua confiança, dê-lhe prazer sempre que ela pedir. Ninguém precisa de saber… Desde que trabalhe para mim. Quero saber o que Cersei anda fazendo. Aonde vai, com quem fala e do que fala, que planos anda arquitetando. Tudo. E será você quem vai me contar, não é verdade?

– Sim, senhor – Lancel falou sem um momento de hesitação. Tyrion gostou daquilo. – Serei. Juro. Às suas ordens.

– Levante-se – Tyrion encheu a segunda taça e enfiou-a na mão dele. – Beba ao nosso acordo. Garanto que não há javalis no castelo, pelo menos que eu saiba – Lancel ergueu a taça e bebeu, ainda que de forma tensa. – Sorria, primo. Minha irmã é uma bela mulher, e é tudo pelo bem do reino. Pode se sair disso bem. Um grau de cavaleiro não é nada. Se for esperto, antes de acabarmos ainda recebe de mim uma senhora – Tyrion fez girar o vinho na sua taça. – Queremos que Cersei tenha toda a confiança em você. Volte e diga-lhe que peço perdão. Diga que me assustou, que não quero conflitos entre nós, que daqui em diante nada farei sem o seu consentimento.

– Mas… Ela exige…

–Ah, eu lhe dou Pycelle.

– Dará? – Lancel pareceu espantado.

Tyrion sorriu.

– Vou soltá-lo amanhã. Podia jurar que não toquei num fio de cabelo dele, mas não seria completamente verdade. Em todo caso, ele está bastante bem, embora eu não garanta seu vigor. As celas negras não são um lugar saudável para um homem de sua idade. Cersei pode mantê-lo como animal de estimação ou mandá-lo para a Muralha, não me interessa, mas não o aceitarei no conselho.

– E Sor Jacelyn?

– Diga a minha irmã que crê que conseguirá tirá-lo de mim em breve. Isso deve contentá-la por enquanto.

– Às suas ordens – Lancel terminou o vinho.

– Só mais uma coisa. Com o Rei Robert morto, seria um grande embaraço se sua inconsolável viúva de repente ficasse prenhe.

– Senhor, eu… nós… a rainha ordenou-me que não… – as orelhas do rapaz tinham tomado o tom carmim dos Lannister. – Derramarei minha semente na barriga dela, senhor.

– Uma adorável barriga, não tenho dúvida. Umedeça-a tantas vezes quantas desejar… Mas assegure-se de que seu orvalho não caia em nenhum outro lugar. Não quero mais sobrinhos, entendido?